Do K-pop à culinária: veja como a onda coreana movimenta empreendimentos em Belém
Hallyu, a “onda coreana” é um fenômeno que gera entretenimento e cria novas oportunidades de negócios
A imigração coreana para o Brasil é oficialmente registrada desde 1963, mas há relatos da presença desse grupo no país ainda nas primeiras décadas do século XX. Décadas depois, a influência cultural da Coreia do Sul se expandiu de forma exponencial, impulsionada por um fenômeno global conhecido como Hallyu — a “onda coreana”. Séries televisivas, os chamados K-dramas, passaram a ocupar espaço em plataformas de streaming, enquanto grupos de K-pop como BTS, BLACKPINK e Stray Kids conquistaram fãs em diferentes gerações. Em Belém, esse movimento cultural deixou de ser apenas tendência para se transformar também em oportunidade de negócio.
O crescimento do interesse por gastronomia, moda e produtos ligados à cultura sul-coreana abriu espaço para empreendedores locais que enxergaram no entusiasmo dos fãs um mercado em consolidação. Restaurantes temáticos e lojas de produtos personalizados passaram a atender um público diverso, que vai de adolescentes a famílias inteiras.
Do luto ao propósito: como nasceu o restaurante
O restaurante criado pelos empresários Charles Cotta e Karol Cotta surgiu a partir de uma experiência pessoal profunda. Segundo eles, o interesse pela cultura coreana nasceu dentro de casa. “Nosso interesse pela cultura coreana nasceu através da nossa filha. Foi a Srta. Kim quem nos apresentou esse universo — o K-pop, os doramas, a disciplina, a estética e os valores culturais. Nós não fomos atrás da cultura coreana; nós mergulhamos no universo dela”, relatam.
Inicialmente, não havia intenção comercial. “No início, nunca houve intenção de empreender. Não existia plano de negócio ou visão comercial. A venda dos primeiros pratos aconteceu com um único objetivo: cumprir uma promessa feita à nossa filha, que partiu em 2024.” O restaurante, segundo o casal, “nasceu do amor e do luto”, e só depois ganhou dimensão empresarial, quando o público começou a se identificar com a proposta.
Como funciona e quanto custa comer comida coreana em Belém
Entre os pratos mais procurados estão bibimbap, bokkeumbap, jjajangmyeon, kimchi jjigae, topokki e lámen. A média de preços varia entre R$ 49 e R$ 70, dependendo da composição. “Trabalhamos com preço justo, mantendo ingredientes autênticos e respeitando a origem da culinária”, explicam.
O uso de insumos importados, como o gochujang (pasta de pimenta fermentada), impacta diretamente nos custos. “Existe diferença significativa de custo devido à logística e à variação cambial. Ainda assim, optamos por preservar a autenticidade, evitando adaptações que descaracterizem os pratos.” Segundo os empresários, o consumidor que conhece a cultura compreende esse diferencial, enquanto novos clientes passam a entender a proposta a partir da experiência gastronômica.
O restaurante também promove noites de K-pop, karaokês temáticos e encontros de fãs, o que impacta positivamente o faturamento e fortalece o espaço como ponto de encontro intergeracional. O crescimento estimado desde a inauguração varia entre 25% e 40%, especialmente em períodos de lançamentos musicais e datas comemorativas de grupos.
Produtos fanmade: criatividade e identidade local
No segmento de produtos personalizados, a administradora Andy Souza, CEO da Égua K-pop Store, transformou uma paixão antiga em negócio. “Comecei a apreciar a cultura coreana ainda no ensino fundamental. Com o tempo, percebi que muitos fãs tinham dificuldade de acesso aos produtos, seja pelos altos custos ou pela falta de conhecimento sobre importação”, explica.
A loja trabalha principalmente com produtos fanmade — itens desenvolvidos por fãs para fãs — como camisetas, ecobags e canecas personalizadas. Os preços podem começar em R$ 20, variando conforme o nível de personalização. No entanto, a empresária afirma que sua estratégia é focada em coleções e kits prontos para venda, buscando identidade própria e diferenciação no mercado.
Custos, lucro e desafios do mercado criativo
A maior parte dos insumos utilizados é nacional, já que os produtos são majoritariamente artesanais. Itens oficiais importados, como álbuns e photocards, possuem custo mais elevado devido às taxas e ao câmbio. “A personalização agrega exclusividade ao produto, o que pode elevar o valor final, mas o consumidor entende e valoriza esse diferencial”, afirma.
Segundo Andy, em meses com participação em eventos e feiras geek, é possível obter lucro equivalente a meio ou até um salário mínimo, dependendo do fluxo de público e do período do mês. O investimento em material é considerado mediano, e a estratégia de compras no atacado é fundamental para manter preços competitivos.
As redes sociais desempenham papel central na divulgação. “Elas permitem proximidade com o público e fortalecimento de marca. O marketing digital é essencial para o crescimento do negócio”, destaca.
Em comum, tanto o restaurante quanto a loja demonstram como a expansão da cultura coreana, impulsionada pela globalização e pelo ambiente digital, tem criado novas dinâmicas econômicas em Belém. Mais do que tendência passageira, a Hallyu se consolida como vetor de empreendedorismo criativo, conectando cultura, identidade e oportunidade de renda na capital paraense.
*Thaline Silva, estagiária de jornalismo, sob supervisão de Keila Ferreira, coordenadora do núcleo de Política e Economia
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