Desperdício de alimentos pesa no bolso de feirantes e consumidores em Belém
Perdas podem chegar a 30% nas feiras e até R$ 300 por mês nas casas, segundo estimativas
O desperdício de alimentos, especialmente de hortifrutis, representa uma perda silenciosa, mas significativa para a economia doméstica e também para pequenos negócios em Belém. Em um cenário de preços ainda pressionados, jogar comida fora significa, na prática, perder dinheiro, tanto para quem vende quanto para quem compra. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatistica (IBGE) de 2024 indicam que cerca de 30% dos alimentos produzidos no Brasil são desperdiçados ao longo da cadeia, do campo à mesa. Nas cidades, esse impacto se traduz diretamente no orçamento das famílias e na renda de trabalhadores informais, como os feirantes, que lidam diariamente com produtos altamente perecíveis.
Nas feiras livres da capital paraense, o problema é visível e constante. Frutas, verduras e legumes sofrem com o calor intenso, a umidade e a falta de estrutura adequada para conservação, o que acelera o processo de deterioração.
Domingos Mendes Jr, vendedor de hortifruti da Feira da 25, no bairro do Marco, estima que as perdas sejam expressivas já no dia a dia de trabalho. Segundo ele, parte significativa da mercadoria não chega a ser vendida. “Percentual por dia é mais ou menos uns 30% de perdas diariamente. Bananas são o que mais estragam”, afirma.
Além da banana, ele cita outros itens que frequentemente dão prejuízo, como tomate, cebola e hortaliças. O impacto não é apenas em volume, mas também em dinheiro. “Por dia, só de banana, dá uma perda de uns 40 a 50 reais”, calcula.
A situação é agravada por fatores estruturais. Diferente de supermercados, as feiras não contam com refrigeração adequada. O calor acumulado sob telhados de zinco e a proximidade com o asfalto quente intensificam ainda mais a deterioração dos alimentos. “O clima influencia muito. Aqui não é climatizado, é muito quente. Isso contribui para aumentar as perdas”, explica o feirante.
Além das condições ambientais, a dinâmica de mercado também interfere. A concorrência com outros pontos de venda próximos e a variação no fluxo de clientes fazem com que nem sempre toda a mercadoria seja escoada. Leomar Rodrigues, também feirante, relata que o movimento irregular impacta diretamente no desperdício. “Sobra muita mercadoria porque os fregueses acabam indo para outros pontos de venda”, conta.
Para evitar prejuízos maiores, os feirantes adotam estratégias improvisadas. Entre as mais comuns estão os descontos progressivos ao longo do dia, promoções e até a doação de produtos que já estão muito maduros. “Eu prefiro vender mais barato do que jogar fora. Ou então doar, porque é melhor do que perder tudo”, diz Leomar. Mesmo com essas alternativas, nem sempre é possível evitar o descarte. Quando os alimentos já estão impróprios para consumo, o destino acaba sendo o lixo comum.
Impacto econômico vai além das bancas
O desperdício não afeta apenas quem vende. Dentro de casa, o problema também pesa no orçamento das famílias. Segundo o economista Nélio Bordalo, a perda pode ser comparada a um gasto invisível mensal.
“Do ponto de vista econômico, o desperdício funciona como uma espécie de imposto invisível sobre o orçamento familiar”, afirma.
Em uma família de cinco pessoas, com renda média de cinco salários mínimos, entre 10% e 15% dos alimentos comprados acabam sendo descartados. Isso representa uma perda de até R$ 300 por mês.
“Em um ano, isso pode chegar a até R$ 3.600, valor que poderia ser usado em educação, lazer ou outras necessidades da família”, informa Bordalo.
Além do impacto direto, o desperdício também influencia os preços. Parte das perdas dos comerciantes é incorporada ao valor final dos produtos.“O desperdício reduz a rentabilidade dos feirantes e parte desse custo acaba sendo repassado ao consumidor”, explica.
Realidade do Pará aumenta o desafio
No Pará, o cenário tem uma característica própria que intensifica o problema. Apesar da forte produção de frutas regionais, o estado depende de outras regiões do país para abastecimento de itens básicos como tomate, cebola, batata e parte das bananas.
Cerca de 81% dos hortifrutigranjeiros comercializados passam por longas distâncias até chegar a Belém. Esse deslocamento encarece os produtos e aumenta o risco de perdas ainda antes da venda.
O economista explica que, quando um alimento estraga na banca, o prejuízo não é apenas do valor pago. Ele inclui também custos com transporte, armazenamento e logística. Em alguns casos, o frete pode representar até 20% do preço final.
"Para o feirante, o problema não está apenas no valor pago pelo produto. Quando uma caixa de tomate ou de banana se perde por amadurecimento excessivo ou baixa venda, perde-se também todo o custo logístico embutido naquela mercadoria. Ou seja, o prejuízo envolve o valor da compra, o frete interestadual, a movimentação, a armazenagem e a exposição do produto na banca”, explica.
Dentro de casa, mudança de hábito faz diferença
Entre os consumidores, o desperdício também está ligado à forma de compra e armazenamento. A enfermeira Nazaré Braga conta que o hábito de comprar em grande quantidade contribuía para as perdas.
“Como a gente comprava tudo de uma vez para a semana, muitas frutas e verduras acabavam estragando”, conta. Com pequenas mudanças, ela conseguiu reduzir o problema. “Hoje a gente compra em menor quantidade, consome primeiro o que estraga mais rápido e até congela alguns alimentos”.
Para o especialista Bordalo, medidas simples podem gerar economia imediata, entre elas:
- Planejar as compras antes de ir ao mercado ou à feira;
- Comprar apenas a quantidade necessária para a semana;
- Aproveitar as promoções no pontos de vendas;
- Armazenar corretamente frutas, verduras e legumes;
- Utilizar alimentos mais perecíveis primeiro;
- Aproveitar integralmente os alimentos, incluindo cascas e talos quando possível;
- Congelar excedentes antes que estraguem;
- Reaproveitar sobras em novas refeições.
"Essas medidas reduzem gastos, aumentam a eficiência do orçamento familiar e contribuem para uma cadeia alimentar mais sustentável. Segundo organismos internacionais, cerca de 60% do desperdício global de alimentos ocorre dentro das residências, o que demonstra o papel central dos consumidores no enfrentamento desse problema”, conclui.