Crise no açaí vai além da polêmica e revela aperto financeiro na cadeia produtiva
Batedores relatam prejuízo, atravessadores defendem a lei da oferta e demanda e entidade do setor aponta dificuldades crescentes para manter a atividade.
Após a polêmica envolvendo o vídeo do açaí sendo jogado fora no Ver-o-Peso, em Belém, a discussão sobre preço, qualidade e fiscalização ganhou força entre batedores, atravessadores e representantes da cadeia produtiva. No centro do debate está um mercado pressionado pela entressafra, pela exportação e pelo aumento dos custos, fatores que impactam diretamente o valor pago pelo consumidor e a margem de quem vive da fruta.
Na ponta mais sensível desta cadeia estão os pequenos batedores. Para Maria Lima, que mantém ponto de venda na região metropolitana, a conta nem sempre fecha. Ela, assim como outros batedores, diz que a preferência sempre é dos frutos de qualidade, mas afirma que preço e qualidade não têm andado juntos nos últimos tempos, por conta do fim da safra.
Na prática, a negociação começa ainda na feira, onde o fruto é vendido no paneiro, unidade tradicional que reúne cerca de 14 quilos de açaí in natura. É a partir desse volume que o batedor calcula o custo da produção, estimando quantos litros conseguirá extrair para revenda.
“O de boa qualidade está em média R$ 300 a basqueta, que é o natural. Esse gelado fica entre R$ 130 e R$ 140, mas não compensa”, afirma. O fruto considerado de melhor qualidade, segundo os trabalhadores, costuma vir da região do Marajó e chega sem gelo, preservando mais as características naturais. Já o chamado açaí “gelado” vem de regiões mais distantes, como Macapá, e precisa ser transportado com gelo para suportar a viagem até Belém.
Chuvas deixam frutos mais úmidos
Segundo atravessadores e batedores, como o período é marcado por alto índice de chuvas nas áreas produtoras, o fruto muitas vezes já sai úmido da colheita. Ao ser acondicionado com gelo para conservação durante o transporte, pode acabar absorvendo ainda mais água. O resultado, relatam, é que parte da carga chega com qualidade comprometida, em alguns casos azeda ou imprópria para consumo.
Segundo Maria, para não sair no prejuízo, o litro precisaria ser vendido a partir de R$ 35.
“Imagina chegar no teu ponto e dizer que quer um açaí de qualidade para um bebezinho. Não tem como oferecer o caroço que vem gelado. Eu não aconselharia”, diz ela, demonstrando preocupação com o consumidor final.
Quando o preço da matéria-prima sobe demais ou a qualidade não atende ao padrão que considera adequado, Maria prefere não abrir. “A gente só trabalha com açaí. Se não tem produto bom, a gente fecha. Tem custo de água, luz, funcionário. Pagar para trabalhar não dá”, declarou.
A decisão de não funcionar em determinados dias revela o impacto econômico direto da volatilidade de oferta: menos dias abertos significam dificuldade de diluir custos fixos e manter o faturamento mensal.
ATRAVESSADORES
Do outro lado da negociação estão os atravessadores, responsáveis por trazer o fruto das ilhas e municípios produtores até a capital. Edvandro Costa explica que, pela distância, o açaí precisa ser transportado gelado.
“Não tem como vir natural, é muito longe. Precisa ter conservação”, afirma. Ele diz que o excesso de chuva e a umidade podem comprometer a qualidade no trajeto. “Se entrar molhado no gelo, ele não segura.”
Segundo ele, o prejuízo maior recai sobre quem investiu na viagem. “Um capital para fazer esse trajeto, comprar açaí e trazer, gira em torno de R$ 200 mil. Se estraga, o prejuízo é do barqueiro”, explica.
Ele também rebate críticas sobre concentração de produto nas mãos de grandes empresas. “É a lei do mercado. Muita procura, aumenta o valor. Pouca oferta nessa época. Tem dia que fica barato, quando tem muitos barcos.”
FISCALIZAÇÃO NA FEIRA PODE ELEVAR A QUALIDADE
Na avaliação de Sebastião Brito, batedor com ponto em Ananindeua, o principal problema mora em um desequilíbrio na fiscalização. Ele relata que o controle é mais rígido na ponta final (nos pontos de venda), enquanto problemas podem surgir antes.
“A pessoa tem 24 horas para vender, mas passa dois ou três dias oferecendo, e tem quem compre. Ou então vendem o paneiro cheio, o caroço que tá em cima está bom, mas embaixo já está comprometido. Acabamos pagando pra ver e quem leva a culpa somos nós, na máquina”, afirma.
Para ele, um controle mais rigoroso na origem poderia evitar prejuízos e reduzir o risco sanitário, que, além de afetar a saúde pública, impacta diretamente a confiança do consumidor e, consequentemente, as vendas.
Assim como Maria, Sebastião também não conseguiu encontrar o fruto por um preço compatível com a qualidade, por isso, o estabelecimento não funcionou nesta sexta (27) e esse é o principal prejuízo. Rochinha Júnior, diretor da Associação da Cadeia Produtiva do Açaí de Belém (ACPAB), defende que o impacto é majoritariamente econômico, já que tem sido cada dia mais difícil comprar açaí para os pequenos produtores.
“A cadeia produtiva está sofrendo, tanto pela falta de apoio à agricultura familiar e aos ribeirinhos quanto pela concorrência com a indústria”, afirma.
Ele destaca que a feira funciona como indicador do mercado estadual. “Aqui é o maior consumo do estado. Se der muito açaí aqui, deu em todo o Pará. Se não der aqui, não deu em lugar nenhum.”
Além da entressafra e da exportação, episódios envolvendo saúde pública também afetaram a demanda. “Já vinha caindo muito a venda por conta dessas situações”, diz.
Açaí chega à mesa do consumidor cada vez mais caro
Os números confirmam a pressão sobre o consumidor final. O açaí tipo médio acumulou quase 11% de aumento em 12 meses. Em janeiro de 2025, o litro era vendido, em média, a R$ 26,02. Em dezembro, passou para R$ 28,77 e, em janeiro de 2026, chegou a R$ 28,82 — alta mensal de 0,17%, mas bem acima da inflação estimada em cerca de 4% no período.
O tipo grosso apresentou elevação mais expressiva. Em janeiro de 2025, o litro custava, em média, R$ 35,67. Em dezembro, subiu para R$ 41,65 e, no mês passado, atingiu R$ 41,95. No acumulado de 12 meses, o reajuste chega a 17,61%, mais que o dobro da inflação.
A pesquisa também aponta grande variação de preços conforme o local de venda. Na última semana de janeiro, o litro do açaí médio foi encontrado entre R$ 24 e R$ 30 nas feiras livres. Nos supermercados, os valores oscilaram entre R$ 26 e R$ 28. Para o tipo grosso, os preços variaram entre R$ 30 e R$ 40 nas feiras e entre R$ 37,99 e R$ 42 nos supermercados — diferença que pode chegar a R$ 12 dependendo do estabelecimento.
Prefeitura realiza operação contra descarte irregular
Após o episódio de descarte de frutos na baía do Guajará, a Prefeitura de Belém realizou uma operação integrada na última sexta (27) com órgãos de segurança e ambientais. O secretário municipal de Segurança, Ordem Pública e Mobilidade, Luciano de Oliveira, informou que as pessoas envolvidas foram identificadas e orientadas.
“Diante da ocorrência amplamente divulgada pela imprensa, o poder público municipal providenciou uma operação integrada. Identificamos as pessoas envolvidas nesse episódio e trabalhamos a orientação para evitar que essa prática torne a se repetir. Também providenciamos a colocação de espaços adequados para o fruto, pois se trata de um crime ambiental o descarte feito daquela forma”, explicou.
Paulo Porto, fiscal da Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Semma), reforçou que o trabalho atual tem foco educativo, mas lembrou que a prática é crime. “Nós já identificamos o barqueiro. A Secretaria Municipal de Saneamento (Sesan) está disponibilizando containers para que o açaí impróprio para consumo seja descartado corretamente e não jogado dentro da baía. Isso é um crime ambiental previsto no decreto 6.514. Estamos tentando evitar isso fazendo um trabalho mais educativo do que punitivo”, concluiu.
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