Construção civil fecha 2025 em alta no Pará e projeta ritmo mais moderado em 2026
Empregos, obras da COP 30 e investimentos públicos foram pilares que sustentaram o setor; entenda
A construção civil encerra 2025 como um dos principais motores da economia paraense, impulsionada pela geração de empregos, pelo volume de obras públicas e privadas e pelo efeito direto da realização da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), em Belém. Dados do Novo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) mostram que, embora tenha fechado 2.625 postos de trabalho no mês de novembro, devido ao encerramento de obras de fim de ano, no acumulado de janeiro a novembro o setor criou 2.465 empregos formais e já soma aproximadamente 97 mil trabalhadores formalmente empregados no Estado. Segundo especialistas, a expectativa para 2026 é de manutenção de um nível elevado de atividade, embora com ritmo mais moderado em relação a 2025, especialmente na capital, que concentrou grande parte dos investimentos ligados à COP.
Em abril de 2025, o Caged já apontava que a construção civil havia acumulado cerca de 96 mil empregos gerados desde 2024 no Pará, refletindo um ciclo de retomada iniciado no pós-pandemia e intensificado por programas habitacionais, obras de infraestrutura e projetos urbanos. No primeiro semestre deste ano, o setor respondeu sozinho por 15 % de todos os empregos criados no estado no período, liderando a geração de vagas na Região Norte. Municípios como Belém, Parauapebas e Barcarena se destacaram, evidenciando a diversidade do mercado paraense, que combina grandes obras industriais, infraestrutura urbana e expansão imobiliária.
Segundo o economista Nélio Bordalo, o desempenho de 2025 foi robusto e contínuo. Ele avalia que a construção civil se consolidou como um dos segmentos mais dinâmicos da economia estadual, tanto pela capacidade de gerar empregos quanto pelo efeito multiplicador sobre outros setores, como transporte, comércio de materiais e serviços. “Além das contratações diretas nos canteiros, há um impacto claro na renda e no consumo, o que ajuda a sustentar a atividade econômica local”, afirma.
O cenário estadual dialoga com a tendência nacional. Para 2025, entidades do setor projetam crescimento de cerca de 2,3% no PIB da construção civil no Brasil, acima da média da economia como um todo, embora com desaceleração em relação a 2024. No Pará, Bordalo avalia que os indicadores ficaram acima da média regional, impulsionados por investimentos públicos e privados concentrados em obras estruturantes e pela dinâmica específica do mercado local ao longo do ano.
Um dos principais fatores que explicam esse desempenho foi a realização da COP 30 em Belém. Para viabilizar o evento, o governo federal anunciou investimentos superiores a 4,7 bilhões de reais em obras na capital, com recursos do Novo Programa de Aceleração do Crescimento (Novo PAC), Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e de Itaipu. A carteira incluiu projetos de mobilidade urbana, saneamento, infraestrutura viária, turismo e hotelaria, além da recuperação de áreas históricas e de interesse turístico. Muitas dessas intervenções aceleraram cronogramas ou saíram do papel em 2025, elevando a demanda por serviços de engenharia e construção.
Na avaliação de Bordalo, a COP funcionou como um catalisador. “Projetos que estavam em fase inicial ganharam prioridade, contratos foram destravados e o Pará passou a atrair investimentos complementares, aproveitando a visibilidade nacional e internacional do evento”, diz. Ele destaca que os efeitos não se esgotam em 2025, já que parte significativa das obras tem ciclos longos de execução e seguirá em andamento ao longo de 2026.
Essa percepção é compartilhada pelo setor empresarial. Para Ernâni Guilhon, diretor da Porte Engenharia, 2025 foi um ano positivo, especialmente em Belém e na região metropolitana. Segundo ele, houve aumento perceptível no volume de obras, com reflexo direto na geração de empregos e maior segurança para planejar novos projetos. “Não foi um crescimento fora da curva, mas uma retomada sólida, com ritmo mais constante de investimentos”, avalia.
Guilhon afirma que a preparação para a COP acelerou obras de mobilidade urbana, requalificação de espaços públicos, infraestrutura viária e projetos ligados à hotelaria e serviços. Mesmo quando não executadas diretamente pela empresa, essas obras aqueceram o mercado como um todo, ampliando a demanda por fornecedores, serviços de engenharia e mão de obra. Para ele, o legado é claro: muitas intervenções não se encerram com o evento e devem continuar ou ser ampliadas em 2026, criando um ambiente mais favorável para novos investimentos.
O impacto também chegou ao comércio de material de construção. De acordo com Herivalto Bastos, presidente da Associação dos Comerciantes de Material de Construção do Estado do Pará (Acomac-PA), 2025 manteve um bom nível de vendas, embora 2024 tenha sido excepcional, impulsionado pelo programa estadual Sua Casa. Neste ano, programas federais como o Minha Casa, Minha Vida e, a partir de outubro, o Reforma Casa Brasil sustentaram a demanda, especialmente para reformas e obras residenciais. A COP teve efeito mais visível nas lojas de acabamentos, com maior procura por produtos de padrão mais elevado, embora o aquecimento tenha se espalhado por todo o setor.
Desafios e mão de obra
Apesar do bom momento, a construção civil enfrenta desafios estruturais que ficaram mais evidentes em 2025 e devem persistir em 2026. Um deles é a escassez de mão de obra. Em outubro, o presidente do Sinduscon-PA, Fabrízio Gonçalves, já apontava, em entrevista ao Grupo Liberal, que o setor vive o fim de um modelo baseado em mão de obra abundante e pouco qualificada. Crises passadas afastaram trabalhadores que não retornaram quando o mercado voltou a aquecer. Com isso, salários ficaram pressionados, aumentaram os atrasos em obras e intensificou-se a disputa por profissionais entre empresas.
Além disso, a construção civil passou a competir com a economia de aplicativos, que oferece renda imediata e maior flexibilidade de horário, especialmente atrativa para os mais jovens. Soma-se a isso o envelhecimento da força de trabalho nos canteiros, reduzindo a entrada de novos aprendizes e dificultando a transmissão de conhecimento prático. O resultado é um cenário em que a falta de mão de obra qualificada se tornou um dos principais gargalos do setor.
Outro ponto de atenção são os custos. Dados do Centro de Informações Econômicas (CEIC) indicam que o custo da construção no Pará atingiu R$ 1.910,07 em novembro de 2025, em trajetória de alta constante desde janeiro. Embora o comércio relate relativa estabilidade de preços ao consumidor ao longo do ano, a pressão de insumos e da logística continua no radar das construtoras, especialmente para 2026, em um ambiente de juros ainda elevados e crédito mais seletivo.
Expectativas para 2026
Para o próximo ano, a expectativa é de continuidade, mas com ajustes. Bordalo projeta que a quantidade de obras e a movimentação financeira tendem a ser menores do que em 2025, sobretudo em Belém, após o pico de investimentos da COP. Ainda assim, as obras estruturantes iniciadas neste ano devem funcionar como âncoras de demanda, sustentando empregos e renda. Os principais vetores de crescimento devem ser a infraestrutura urbana e regional, a habitação popular e o mercado residencial, além de projetos comerciais ligados à expansão econômica.
Do lado empresarial, a avaliação é de cautela com otimismo. A Porte Engenharia projeta manter o ritmo atual, com possibilidade de crescimento em segmentos como o residencial vertical de médio e alto padrão, o setor comercial e a infraestrutura. Já o comércio de materiais aposta em um 2026 melhor que 2024, desde que haja continuidade dos programas habitacionais estaduais e federais.
Assim, a construção civil entra em 2026 como um setor ainda aquecido no Pará, sustentado pelo legado de grandes obras, mas diante de desafios que exigem planejamento, qualificação profissional e políticas públicas capazes de garantir competitividade e sustentabilidade ao crescimento observado em 2025.
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