Brilho sob medida: carnaval impulsiona mercado de customização de roupas em Belém
Blocos lotados, festas privadas e redes sociais aquecem ateliês, costureiras e pequenos negócios criativos no início do ano
Com a chegada do carnaval, Belém vê crescer um mercado que mistura criatividade, moda e economia local: a customização de roupas e fantasias. Entre janeiro e fevereiro, ateliês, costureiras independentes, bordadeiras, lojas de tecidos e armarinhos entram em ritmo acelerado para atender foliões em busca de peças exclusivas, cheias de brilho e identidade própria.
Impulsionado por blocos de rua, festas temáticas, eventos privados e pela força da internet, o setor se consolida como uma das principais janelas de faturamento do ano para pequenos empreendedores criativos da capital paraense.
Um mercado que ganha força a cada início de ano
Embora não seja o período mais longo de vendas, o carnaval é apontado por profissionais da área como o momento de maior impacto e visibilidade. “Não é o principal período de vendas, mas é o que tem mais força. Ele ganha uma força muito grande por conta das viralizações na internet. Hoje a internet tem um poder muito forte de divulgação, chega muito mais longe e muito mais rápido”, explica Carol Modesto, designer de moda e proprietária de um ateliê no bairro da Terra Firme.
Segundo ela, o público que procura customização é bastante diverso. “Hoje nós atendemos todos os públicos: artistas, influenciadores, foliões de blocos de rua, festas privadas, empresas que contratam a gente para eventos. Está tudo muito forte”, afirma.
Essa diversidade também se reflete no perfil dos clientes atendidos em outros ateliês da cidade. No bairro do Condor, Cacau Carmona, proprietária de ateliê, destaca que recebe pessoas de todas as idades. “As customizações são tanto para jovens, que querem coisas mais curtas, com muito brilho, quanto para pessoas mais velhas, que preferem algo um pouco mais coberto, mas sempre com muita criatividade”, conta.
Do conceito ao brilho: como funciona o processo de customização
O trabalho começa, quase sempre, pela busca de referências. “As pessoas chegam com inspirações, fotos, ideias. A partir disso, a gente inicia o processo criativo, pensando na modelagem e na parte técnica”, explica Carol Modesto. Segundo ela, nem tudo que funciona em uma imagem de referência se adapta a todos os corpos. “A gente ajusta de acordo com o biotipo, tanto de mulheres quanto de homens. Hoje o público masculino já é quase igual ao feminino.”
No ateliê de Simone Abitbol, no bairro da Campina, o processo é semelhante, mas com forte foco no trabalho artesanal. “Começamos com uma conversa para entender a ideia do cliente e o tema da festa. Desenvolvemos o croqui, escolhemos os materiais, fazemos o corte e a costura, e depois focamos nas aplicações e bordados, que dão a identidade da peça. O brilho é sempre o protagonista”, destaca.
Os prazos variam conforme a complexidade. Carol afirma que uma peça pode levar “de seis horas a até cinco dias ou uma semana”. Já Simone detalha: “Customizações mais elaboradas, com muito bordado, levam em média três dias. Fantasias podem levar de 10 a 15 dias”.
Preços, custos e alta demanda em pouco tempo
A faixa de preços também é bastante ampla. Carol Modesto diz que já produziu peças a partir de R$ 70 e outras que chegaram a R$ 800. “Tudo influencia: tecido, tipo de aplicação, tempo de produção”, explica. No ateliê de Simone Abitbol, os valores variam de R$ 100 a R$ 1 mil, podendo chegar a R$ 1.500 em modelos com grande quantidade de pedrarias e brilho.
Para dar conta da demanda concentrada em poucas semanas, alguns ateliês reforçam a equipe. “Todos os anos contratamos mais duas costureiras, três bordadeiras, uma atendente e ainda temos uma equipe no shopping para customização rápida, só com corte e aplicação”, conta Simone.
Mesmo assim, atender todo mundo é um desafio. “É bem difícil achar mão de obra. Nesse período eu durmo poucas horas por dia e, mesmo assim, não consigo atender toda a demanda”, relata Cacau Carmona.
Concorrência online e a valorização do feito à mão
A concorrência com fantasias prontas vendidas pela internet existe, mas, segundo os empreendedores, não substitui a experiência da customização. “As coisas prontas são iguais todos os anos. Aqui no ateliê ofereço peças únicas, personalizadas para cada gosto”, afirma Cacau.
A estratégia de divulgação passa, principalmente, pelas redes sociais. “Mostrar a mesma fantasia com adaptações para cada pessoa faz toda a diferença”, diz ela. Carol também destaca o papel de influenciadores e artistas na divulgação dos trabalhos, ampliando o alcance dos ateliês.
O olhar do consumidor: originalidade e expressão pessoal
Do lado de quem compra, a customização é vista como investimento em identidade. A estudante e modelo Manuela Souza diz que costuma gastar entre R$ 150 e R$ 200 por peça. “Esse ano vou usar brilho, paetês, pedrarias, preto com prata e máscara. Escolho a costureira pela qualidade: costura perfeita, bordados perfeitos”, afirma.
Já a atriz teen Ana Vitória Fernandes explica que o orçamento vem depois do conceito. “A gente pensa primeiro no que quer criar. Depois vê materiais, técnicas e tempo. Prefiro customizar pela originalidade, por temas que estão em alta na internet, memes. Como atriz, uso a moda como extensão da minha expressão artística”, diz.
Tendências e expectativas para o carnaval em Belém
Entre as principais tendências apontadas pelos profissionais estão crochê, franjas, transparências e aviamentos com muito brilho. “Pedrarias, madrepérola, macramê, strass e correntes de cristal penduradas estão super em alta”, enumera Simone Abitbol.
Apesar de alguns ateliês sentirem um movimento um pouco menor que no ano anterior, como observa Carol Modesto, a expectativa segue positiva. “A gente sempre quer dobrar o faturamento do ano anterior. O carnaval continua sendo uma vitrine enorme”, afirma.
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