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Belém nasceu do Comércio: dos rios ao varejo urbano

Das trocas fluviais ao centro comercial da Cidade Velha e Campina, a história da capital paraense foi moldada por portos, mercados e lojas que impulsionaram o crescimento urbano e econômico da cidade

Eva Pires | Especial para O Liberal e Gabi Gutierrez

Belém nasceu de frente para a água. Antes de ser capital, antes mesmo de se organizar como cidade, o território já era atravessado por trocas, escambos e circulação de mercadorias que tinham nos rios o principal caminho. O centro comercial do bairro da Cidade Velha e Campina é herdeiro direto dessa lógica: foi ali, entre o porto, os mercados e as primeiras ruas, que o comércio moldou o crescimento urbano, econômico e social da capital paraense. A história começa ainda no final do século XIX e início do século XX, período em que Belém viveu a chamada Belle Époque amazônica, impulsionada pelo ciclo da borracha e pela intensa relação comercial com a Europa. Quem conta essa trajetória a partir da vivência familiar é o diretor do Sindicato do Comércio Varejista e Lojista de Belém, Muzaffar Douraid Said, descendente de imigrantes libaneses que chegaram à cidade atraídos justamente pelas oportunidades abertas pelo comércio internacional.

Segundo ele, a presença de comerciantes estrangeiros foi decisiva para a consolidação do centro comercial. “A vinda de famílias libanesas se intensificou no final do século XIX, início do século XX, muito ligada ao ciclo da borracha. Belém vivia um movimento internacional, exportando borracha e as chamadas drogas do sertão, como pimenta, cravo e canela, e importando produtos da Europa”, relembra. À época, a Cidade Velha concentrava praticamente toda a dinâmica urbana, com ruas paralelas ao rio e estreitas, voltadas para o porto.

A riqueza gerada pela borracha não apenas fez circular dinheiro, mas também redesenhou a cidade. Muzaffar destaca que foi nesse período que Belém recebeu infraestrutura moderna para os padrões da época. As ruas ganharam paralelepípedos e granito europeu, os prédios passaram a refletir a influência arquitetônica portuguesa e francesa, e o comércio deixou de ser apenas funcional para se tornar também símbolo de status e sofisticação. “Com a riqueza da borracha, surgiram as grandes lojas e armazéns. As senhoras da elite mandavam buscar vestidos em Paris e Londres, e isso estimulou a instalação de casas comerciais que vendiam roupas finas, chapéus, tecidos e acessórios”, explica.

Entre os exemplos históricos estão lojas como Paris na América e Casa Guerreiro, instaladas em vias que até hoje marcam o centro comercial, como a rua Santo Antônio e a João Alfredo. O comércio de Belém não atendia apenas à demanda local, mas funcionava como ponto de abastecimento para toda a Amazônia, reforçando o papel da cidade como entreposto regional. Essa vocação foi reforçada pela importância dos portos, que concentravam tanto a exportação da borracha quanto a importação de materiais que ajudaram a construir a própria cidade, como o ferro usado nos mercados do peixe e da carne, além do Mercado de São Brás.

Com o declínio da borracha, o comércio precisou se reinventar. A diversificação de produtos e a expansão urbana levaram o centro comercial a avançar para outras áreas. A abertura e consolidação da então rua 15 de Agosto, hoje Presidente Vargas, marcou um novo eixo de crescimento, com a instalação de bancos, hotéis e edifícios mais altos. O antigo centro comercial, que abrangia Cidade Velha e Campina, passou a se reorganizar, enquanto novos bairros e avenidas, como Nazaré e, mais tarde, Brás de Aguiar, passaram a concentrar boutiques e lojas especializadas.

Muzaffar, que cresceu dentro do comércio, afirma que essas transformações exigiram constantes adaptações. “O comércio sempre acompanhou o poder aquisitivo da população e o estilo de vida de cada época. Com o crescimento populacional a partir da década de 1960, com mudanças sociais e urbanas, o perfil de consumo mudou, e o comércio teve que mudar junto”, observa.

Para ele, apesar das reformas e da modernização, a essência permanece: o centro comercial segue sendo cartão-postal da cidade, espaço de encontro, trabalho e turismo, visitado por quem quer entender a história viva da capital. “A gente zela, porque o comércio é o ponto de visita de qualquer cidade do mundo e, principalmente o nosso comércio de Belém, com casarões arquitetônicos lindos. Todo turista que vem para a cidade visita o centro comercial de Belém”, completa.

Um mergulho na história

Para além do centro comercial da Cidade Velha, a relação ampla entre comércio, rios e formação urbana é destacada pelo historiador Michel Pinho. Segundo ele, desde o século XVII, Belém se consolidou como o principal polo comercial da Amazônia justamente pela posição estratégica. “A chegada dos portugueses consolida Belém como centro de comércio da região. Isso se desenvolve inicialmente no porto das Panoas, depois no Ver-o-Peso, no porto do Reduto e, mais tarde, na área da atual Doca de Souza Franco”, explica.

Para o historiador, os portos funcionaram como vetores de crescimento por séculos. “Desde o século XVII até pelo menos a década de 1960, as principais atividades econômicas eram exportadas e importadas pelos portos de Belém. Isso foi fundamental para o alargamento territorial da cidade e para sua integração econômica”, afirma. Mesmo hoje, traços dessa cultura comercial antiga permanecem visíveis em bairros populares, como Jurunas e Guamá, onde ainda existem mercearias que vendem a retalho ou na confiança, práticas herdadas de relações comerciais tradicionais.

Michel Pinho destaca que o ciclo da borracha não trouxe apenas riqueza material, mas também transformações culturais profundas. A circulação de mercadorias e pessoas estimulou processos de embelezamento urbano, higienização da cidade e construção de equipamentos públicos, como mercados e praças. “A atividade comercial gerou impostos, renda e também uma intensa circulação cultural. Isso explica a sofisticação urbana que Belém alcançou no final do século XIX”, contextualiza.

No século XX, o comércio passou por três momentos decisivos. O primeiro foi a sofisticação da rua João Alfredo, antiga Rua dos Mercadores. O segundo, a verticalização da cidade moderna em direção à Presidente Vargas e à avenida Nazaré. O terceiro, já entre as décadas de 1980 e 1990, foi a transformação da antiga Estrada de São Brás na avenida Brás de Aguiar, que concentrou artigos de luxo e redefiniu o varejo da capital.

Do mercantilismo o e-commerce

Para além do centro histórico, o comércio e os serviços continuam sendo pilares da economia de Belém e do Pará. A Federação do Comércio de Bens, de Serviços e de Turismo do Estado do Pará, Fecomércio-PA, ressalta que a cidade sempre teve vocação mercantil. “Belém nasceu como fortificação militar em 1616, mas rapidamente se consolidou como entreposto estratégico da Amazônia. Os rios eram as estradas da época, e foi por eles que a cidade se tornou ponto de chegada e partida das mercadorias”, destaca a entidade.

Ao longo das últimas décadas, o comércio passou por ciclos de retração e reinvenção: de 1980 a 1990, o comércio tradicional forte no centro; de 1990a 2000, a expansão dos shoppings; de 2000 a 2010, o crescimento do comércio informal, como ambulantes no centro e feiras; de 2010 a 2020, o avanço do e-commerce, com migração de parte do consumo para plataformas digitais e de 2020 a 2025, o reordenamento urbano e resistência de lojas históricas. Como exemplo, a Fecomércio cita o Projeto Belo Centro, mercearias centenárias ainda ativas, convivendo com grandes players, shoppings centers e crescimento de vendas digitais.

Em 2025, o setor de comércio e serviços respondeu por cerca de 70% dos empregos com carteira assinada no Pará, segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) até novembro. Além disso, a participação na geração do PIB estadual é de quase 35% e contabilizando somente o setor comércio, ainda contribui com 20% da receita de Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), sem considerar os serviços no estado.

"A projeção de crescimento de 3,5% do PIB estadual, acima da média nacional, confirma o varejo como motor essencial do desenvolvimento local e da competitividade regional. Como expectativas para o consumo interno, esperamos que o aumento da renda e a expansão do crédito se concretizem e contribuam para sustentar o crescimento do comércio em 2026, assim como melhorias no ambiente de negócios”, afirma Sebastião de Oliveira Campos, presidente da instituição.

A expectativa é de que o crescimento econômico e a visibilidade internacional de Belém, especialmente após a COP 30, fortaleçam o comércio ligado ao turismo, reforçando a tradição da cidade como espaço de trocas.