Alta do diesel impulsiona debate sobre greve, mas divide caminhoneiros no Pará
Sintracarpa afirma que ainda não há greve confirmada no Pará, enquanto alta do diesel amplia pressão e mantém caminhoneiros divididos sobre paralisação
O aumento recente do preço do diesel tem intensificado a mobilização por uma possível greve de caminhoneiros no país, embora a categoria ainda não tenha consenso sobre a paralisação. Enquanto parte dos profissionais defende o movimento como forma de pressionar o governo e conter os custos do combustível, outros avaliam que a medida teria pouco efeito diante de fatores externos, como o impacto da guerra do Oriente Médio no mercado internacional, e criticam a falta de articulação interna da categoria.
Categoria dividida sobre paralisação
Entre os caminhoneiros, as opiniões sobre uma eventual greve são divergentes. Para Ronaldo Vilela, a paralisação não resolveria o problema central, já que os preços são influenciados por fatores globais.
“Se for realmente ter essa greve, eu creio que não vai resolver tanta coisa, porque não depende só da greve. Isso vem da questão da guerra do Oriente Médio, que afeta o mundo inteiro, não só o Brasil”, afirma.
Ele também critica a falta de mobilização interna. “Eu sou contra a greve. Não vai resolver. A nossa categoria não conversou nada até agora com a gente. Eu tô em grupos e até agora não vi ninguém falar nada”, diz.
Vilela ainda destaca o impacto direto no bolso.
“Eu abastecia para vir a Belém a R$ 5,39. Eu tô abastecendo agora a R$ 7,39. Dois reais a mais. O frete ficou a mesma coisa”, relata.
Segundo ele, a defasagem entre o aumento do diesel e o valor do frete pressiona tanto trabalhadores quanto empresas. “Pra empresa, o gasto dela aumenta mais. Claro que eu não sou contra, mas se a empresa chegar a falir, eu vou junto”, analisou.
Pressão por medidas e fiscalização
Já o caminhoneiro Sérgio Rodrigues defende a paralisação como instrumento de pressão. “A paralisação tem que existir, porque é a única forma da gente pressionar o governo a tomar uma atitude perante o que tá acontecendo”, afirma.
Ele reconhece medidas já adotadas pelo governo federal, mas cobra ações mais amplas.
“O governo zerou os impostos federais. Ele faz a parte dele. Tá faltando os governadores também fazerem a parte deles”, diz, ao mencionar o ICMS.
Rodrigues também levanta questionamentos sobre a formação de preços ao longo da cadeia.
“Tem que saber também porque o óleo diesel na refinaria é R$ 3,65 e na distribuidora ele é R$ 6,89. Alguém tá ficando com esse dinheiro. O governo tem que fiscalizar os postos por causa de formação de cartel”, declara.
Apesar de apoiar a mobilização, ele ressalta a necessidade de organização.
“Sou a favor da paralisação, mas sem política, sem ideologia — para defender apenas a nossa pauta”, pontua. “A categoria ainda não conversou com a gente sobre a greve.”
Sindicato não confirma paralisação no Pará
No Pará, até o momento, não há confirmação de greve. Segundo o diretor do Sintracarpa (Sindicato dos Trabalhadores nas Empresas de Transportes e Logística de Cargas do Estado do Pará), Edilberto Ventania, a situação segue em observação.
“Por enquanto, até nesta quarta (18/03), não há nenhuma greve conformada da categoria dos caminhoneiros no Pará. Se houver, o Sintracarpa será favorável”, afirma.
Setor de combustíveis aponta fatores externos
O Sindicombustíveis Pará demonstra preocupação com a possibilidade de paralisação e reforça que os aumentos recentes não têm origem nos postos revendedores.
De acordo com o advogado da entidade, Pietro Gasparetto, o cenário é influenciado principalmente pelo mercado internacional. “O que se observa, na prática, é um movimento de elevação dos preços, que não decorre da atuação dos postos revendedores, mas sim de fatores estruturais, especialmente do mercado internacional de combustíveis”, explica.
Ele destaca que medidas anunciadas pelo governo, como a redução de PIS/Cofins e a criação de uma subvenção, tiveram impacto limitado.
“Esse potencial alívio foi, na prática, integralmente superado pelo recente reajuste promovido pela Petrobras, da ordem de R$ 0,38 por litro”, afirma.
Gasparetto também ressalta que parte do diesel consumido no país é importada, o que eleva os custos. “Cerca de 30% do diesel consumido no Brasil é importado, e já vinha sendo comercializado com base em preços internacionais mais elevados”, diz.
Risco de impactos econômicos
A entidade relembra ainda os efeitos da greve de 2018, que causou desabastecimento e prejuízos em diversos setores.
“Uma paralisação semelhante resultou em graves prejuízos econômicos e sociais, com desabastecimento generalizado e colapso logístico”, afirma.
Diante do cenário, o Sindicombustíveis defende diálogo entre governos e estados. “É fundamental que haja coordenação para garantir o abastecimento, a estabilidade do mercado e a previsibilidade necessária a todos os agentes envolvidos”, conclui.
Nota do Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (IBP)
Em nota, o Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (IBP) informa que “em razão das recentes medidas anunciadas pelo governo federal para tentar deter as pressões de alta nos preços dos derivados de petróleo em razão do conflito no Oriente Médio, reconhece o momento emergencial que o mercado mundial de petróleo está vivendo, com grave restrição na oferta e aumento no preço do barril, mas avalia que a Medida Provisória nº 1.340/2026, que institui o imposto de exportação sobre o petróleo com alíquota de 12%, ao não possuir pelo menos um prazo de vigência definido, e o caráter imprevisto da taxação trazem risco regulatório e prejudicam a competitividade do petróleo brasileiro”.
O Instituto acrescenta: “a legislação atual já tem mecanismos de captura de ganhos extraordinários, como a Participação Especial, o aumento na arrecadação de royalties e o aumento da parcela de lucro óleo da partilha de produção em função da alta dos preços do barril de petróleo, tornando, de fato, o imposto de exportação uma bitributação, inclusive prejudicial à atração de investimentos de longo prazo. Mudanças casuísticas criando novos impostos afetam a previsibilidade necessária para indústrias intensivas em capital, impactando diretamente a produção futura, a geração de empregos e a arrecadação da União”.
"Mudanças casuísticas criando novos impostos afetam a previsibilidade necessária para indústrias intensivas em capital, impactando diretamente a produção futura, a geração de empregos e a arrecadação da União.¨O Decreto de subvenção e desoneração do diesel, por sua vez, ao zerar as alíquotas de PIS e COFINS para importação e comercialização pode contribuir para frear pressões na alta dos preços nos pontos de revenda, mas é importante que a medida seja acompanhada pela desoneração de PIS/COFINS na parcela da compra de petróleo utilizado neste diesel desonerado com objetivo de evitar acúmulo de créditos tributários pelas refinarias privadas com difícil fruição."
"Da mesma forma, seria importante que a desoneração também fosse acompanhada pelos Estados, cujas alíquotas de ICMS correspondem, em média, a três vezes os impostos federais. A desoneração deve abranger combustíveis independente de sua origem; sejam estes industrializados no Brasil ou importados. A proposta de desonerar apenas o produto importado, recentemente colocada para discussão, criará uma assimetria concorrencial insuperável para os produtores nacionais desestimulando a produção em momento crítico, preocupando profundamente o setor", finaliza o texto do Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (IBP).
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