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Alta do diesel em meio à guerra no Oriente Médio pode pressionar transporte e elevar preços em Belém

Com aumento de até 7,7% no diesel, transportadores e economistas alertam que o reajuste impacta fretes rodoviários essenciais para a chegada de suprimentos

Jéssica Nascimento

O aumento de até 7,7% no preço do diesel na primeira semana de março de 2026, impulsionado pela escalada da guerra no Oriente Médio entre EUA, Israel e Irã, acendeu o alerta em Belém. Sindicatos e comerciantes apontam que o reajuste já pressiona o transporte rodoviário, principal via de chegada de alimentos, produtos perecíveis e insumos à cidade, e pode refletir gradualmente nos preços ao consumidor, impactando a inflação local nos próximos meses. Apesar de os supermercados da capital ainda não repassarem os custos, economistas destacam que, em um cenário de manutenção dos preços elevados do petróleo, os efeitos tendem a se espalhar para toda a cadeia de produção e logística.

Sintracarpa alerta para reflexos no setor e na categoria

Edilberto Ventania, diretor do Sintracarpa (Sindicato dos Trabalhadores nas Empresas de Transportes e Logística de Cargas Secas, Molhadas, Derivados de Petróleo, GLP, Gás Natural, Etanol, Biodiesel e Mudanças do Estado do Pará), destacou que o impacto já é percebido mesmo antes de negociações formais com as empresas.


“Sem dúvida. Até este momento, as empresas não entraram em contato conosco. Mas é de claro esclarecimento que a gente tem consciência de que o impacto, até pra nós, usuários, que temos um veículo, já tá mostrando aí na bomba. Então isso com certeza, não tenha dúvida que vai dar um reflexo”, afirmou Ventania.

O sindicalista explicou que a categoria já se prepara para negociar a reposição salarial, que deve ser pressionada pelo aumento do diesel.

“Acredito que essa semana nós vamos sentar com a patronal. Estamos chegando perto da data base da categoria e automaticamente vai ter um reflexo muito grande. A categoria vai querer a sua reposição de salário”, disse.

Sobre o impacto nos fretes, Ventania afirmou que o aumento do combustível deve ser repassado, principalmente aos transportadores autônomos. “Nem que seja de forma rápida, mas vai ter que dar uma sentada, principalmente com os sindicatos e as centrais. E você pode ter certeza disso: vai ser um repasse para as empresas, porque com certeza vai se aumentar o frete. Principalmente pro lado autônomo”, explicou.

Ele também alertou para possíveis medidas de contenção de custos pelas empresas.

“Já tem empresas que estão pensando em demitir trabalhadores. ‘Olha, se ficar assim eu vou ter que diminuir meu quadro.’ Empresas de porte. Então nós aqui temos essa preocupação. Não chegamos a conversar com o empresário, mas já foi ventilada essa situação”, completou.

Supermercadistas dizem que ainda não há repasse aos consumidores

Apesar do aumento do diesel, os supermercados de Belém ainda não registraram repasse nos preços das mercadorias. 

“Ainda não, porque ainda não houve um aumento no diesel, no frete. Foi anunciado que o governo vai tirar os impostos do diesel pra segurar o preço dele. Então, espera-se que não haja aumento no valor do frete”, esclareceu Jorge Portugal, presidente da Aspas (Associação Paraense de Supermercados).

Ele destaca a importância do diesel na composição do custo do transporte. “Sabemos aqui que nós somos abastecidos principalmente pela região Sul e pela região Sudeste e que nosso transporte é rodoviário. Com certeza o diesel influencia na composição do preço do frete e automaticamente é repassado pro custo da mercadoria. Se realmente houver aumento no valor do frete, ele tem que ser repassado pro custo da mercadoria. Por enquanto, ainda não ocorreu isso”, disse.

Sindilojas alerta para reflexos no comércio

Muzaffar Douraid Said, diretor do Sindilojas (Sindicato do Comércio Varejista e dos Lojistas de Belém), explica que o comércio da cidade já sente o impacto. “O comércio de Belém já percebe aumento no custo de produtos devido à escalada da guerra no Oriente Médio com reflexos diretos no bolso do consumidor. A instabilidade na região gera incertezas na cadeia logística, encarecendo produtos importados e os insumos podem ficar escassos”, declarou.

Segundo ele, a alta do petróleo pressiona o frete e, consequentemente, os preços de alimentos e outros produtos de consumo.

“A guerra contribuiu para o aumento dos preços do petróleo, o que pressiona os custos de frete e consequentemente encarecem alimentos e outros produtos de consumo”, avaliou.

Said alerta que os efeitos devem se refletir mais nos próximos meses.“Há uma forte expectativa e sinais concretos de aumento nos preços de diversos produtos em Belém, devido à escalada da guerra. A alta do petróleo afeta o preço do diesel, que afeta diretamente o preço do transporte, das mercadorias e a logística para chegar até Belém. Persistindo a guerra, existe uma expectativa de que esse aumento no custo logístico seja repassado ao consumidor nos próximos meses”, destacou. 

Gestor de loja prevê repasse ao consumidor caso custos logísticos aumentem

João Paulo Aguiar, gestor administrativo de uma loja de roupas no centro comercial de Belém, afirma que, por enquanto, os impactos ainda não foram sentidos.

“A princípio, penso que o aumento de custos dos produtos ainda não foi notado, acredito que em virtude do evento conflitante entre os países ter sido intensificado justamente nessas últimas semanas, os impactos gerados, especialmente no transporte de cargas, não foram percebidos ainda, juntamente com o aumento do custo de produtos”, explicou.

No entanto, ele alerta sobre possíveis repercussões futuras. “Infelizmente, caso esse aumento de custos logísticos seja visível e continue, será repassado para o consumidor, não apenas pelo frete em si, mas porque, como o Brasil é majoritariamente um país rodoviário, o custo não somente do frete, mas também para fabricantes dos produtos será aumentado. Logo, a cadeia de produção toda sentirá o impacto do aumento dos combustíveis, e, de maneira até mesmo intuitiva, o comerciante repassará isso ao consumidor”, ponderou.

Economista aponta setores mais afetados pelo aumento do diesel

André Cutrim, economista paraense e membro do Corecon PA/AP (Conselho Regional de Economia do Pará e Amapá), explica que o transporte rodoviário é um fator crítico na formação de preços no Brasil. 

“Como grande parte da circulação de mercadorias depende de caminhões, qualquer elevação do diesel tende a produzir efeitos rápidos sobre determinados setores da atividade econômica”, disse. 

Segundo Cutrim, os primeiros setores a sentir o impacto são os que dependem diretamente do transporte rodoviário, como alimentos perecíveis. “Entre eles, destacam-se o setor de alimentos, especialmente hortifrutigranjeiros, carnes e outros produtos perecíveis, cuja distribuição exige deslocamentos frequentes entre áreas produtoras e centros urbanos. A elevação do diesel aumenta o custo do frete e, em pouco tempo, pressiona os preços desses itens”, analisou.

O economista também alerta para outros segmentos vulneráveis, como a construção civil e o comércio atacadista e varejista. “Materiais como areia, brita, cimento e cerâmica são transportados predominantemente por caminhões, e o comércio depende da reposição contínua de mercadorias trazidas de diferentes regiões. Nesses casos, o aumento do diesel reflete rapidamente no custo final”, destacou.

Em estados como o Pará, onde longas distâncias e infraestrutura limitada aumentam o peso do transporte rodoviário, o efeito é ainda mais intenso.

“A rede ferroviária é praticamente inexistente e o transporte aéreo apresenta custos muito elevados para cargas, então grande parte da circulação de mercadorias ocorre por rodovias, muitas vezes em trajetos longos. No caso específico de Belém, produtos chegam de estados como Goiás, Mato Grosso, São Paulo e Minas Gerais. Quando o preço do diesel sobe, o frete aumenta, e esse acréscimo tende a ser gradualmente incorporado ao preço final dos produtos, gerando pressão inflacionária sobre itens do cotidiano da população”, avaliou.

Conselheiro econômico explica como alta do diesel se reflete nos preços

Nélio Bordalo, economista paraense e membro do Corecon PA/AP (Conselho Regional de Economia do Pará e Amapá), detalhou o efeito do aumento do diesel sobre a economia: 

“O repasse ocorre em etapas: primeiro o aumento aparece nos postos de combustível, depois nos custos do frete rodoviário, e por fim nos preços finais dos produtos. Como o diesel representa cerca de 35% a 40% do custo do transporte de cargas, qualquer aumento tende a ser repassado gradualmente ao preço das mercadorias.”

Segundo Bordalo, em cidades como Belém, que dependem fortemente do transporte rodoviário e fluvial, o efeito pode ser mais rápido, principalmente para alimentos perecíveis. “Na prática, em cidades mais dependentes de transporte rodoviário e fluvial, como Belém e o restante do Pará, esse efeito pode aparecer até mais rápido, especialmente em alimentos perecíveis (hortifruti, carnes e laticínios). Isso ocorre porque a maior parte das mercadorias chega ao estado por caminhões ou longas cadeias logísticas”, explicou.

A instabilidade no Oriente Médio, conforme o economista, aumenta o risco para o petróleo e o transporte internacional.

“O Oriente Médio concentra rotas estratégicas do petróleo, como o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial. A instabilidade na região eleva o risco de interrupção do fluxo e aumenta custos de transporte e seguro marítimo, pressionando os preços internacionais do petróleo”, disse. 

Bordalo alerta que, se o petróleo permanecer em patamares elevados, os efeitos podem se espalhar por toda a economia. “Se o petróleo permanecer acima de níveis elevados por meses, o efeito tende a se espalhar por toda a economia, elevando custos de transporte, produção agrícola e logística, o que pode reacender a inflação de combustíveis e alimentos no Brasil. Lembrando que os proprietários de postos de combustíveis aumentam os preços para os consumidores antes mesmo de comprar os combustíveis com preços mais elevados”, avaliou.

Caminhoneiros relatam impacto imediato nas estradas

O aumento do diesel já é sentido diretamente por quem está na linha de frente do transporte de cargas. Caminhoneiros que percorrem longas distâncias até Belém relatam aumento significativo nos custos operacionais e dificuldades para equilibrar despesas e fretes.

Valdinei Pereira, caminhoneiro, afirma que o impacto foi percebido durante a própria viagem.

“O aumento do diesel já afeta meu trabalho, já deu uma diferença. Eu vim de Santa Catarina pra Belém no trajeto da estrada já deu uma diferença. Não foi qualquer posto que eu tive que abastecer. A empresa mandou eu escolher uns postos mais em conta e mesmo assim afetou bastante e não foi só o combustível. Foi a alta no mercado também”, contou.

Ele também alerta para possíveis efeitos mais amplos caso haja paralisações da categoria. “O aumento tem impactado o volume de carga e entrega de forma mediana. Se caso a greve dos caminhoneiros vier a acontecer, em dois ou três dias já vai impactar o país e a questão dos supermercados. Começa a parar tudo e aí já começa a ter o aumento do combustível tanto na gasolina quanto no álcool”, explicou.

Já o caminhoneiro Raniel Martins destaca o peso do diesel no custo total das viagens.

“A alta do diesel afeta bastante. De Brasília pra cá, só numa viagem a despesa fica em mais de R$ 2.500. A gente usa dois tipos de diesel. A gente pediu um pouco pro pessoal aumentar o frete, mas o aumento não foi compatível”, analisou. 

Segundo ele, o principal impacto está no custo da operação. “O aumento do diesel afetou mais o custo da viagem; a quantidade, nem tanto. Provavelmente o aumento do diesel vai impactar rapidamente porque o pessoal vai ajustando o frete. Provavelmente vão repassar pra população”, disse. 

Martins também defende medidas para amenizar os efeitos sobre a categoria. “Medidas que poderiam nos ajudar seriam a redução dos impostos e a política dos postos também, porque às vezes aumenta o diesel antes de chegar pra eles”, relatou.