Alimentação saudável é estratégia para reduzir gastos no longo prazo
Planejamento alimentar e consumo de alimentos básicos mostram melhor custo-benefício do que suplementos e podem aliviar o orçamento ao prevenir doenças
Com a 'gourmetização' do estilo de vida saudável, manter uma alimentação equilibrada ainda é visto por muitos como item de alto custo. Mas, na prática, especialistas e consumidores apontam o contrário: investir em comida de verdade pode ser não apenas mais acessível, como também uma estratégia de economia a longo prazo. No Dia da Saúde e da Nutrição, celebrado em 31 de março, o tema ganha destaque também no campo da economia.
Para a estudante Manuella Seruffo, investir em alimentação sempre foi uma prioridade familiar — e os resultados aparecem ao longo das gerações. “Eu acho que é uma das primeiras prioridades da minha vida. Na minha família, todo mundo envelheceu de forma muito saudável, com independência. E isso sempre foi resultado de um cuidado com a alimentação”, afirma.
Ela destaca que o principal erro está na ideia de que comer bem exige produtos caros ou sofisticados. “O básico resolve: uma fonte de proteína, carboidrato, legumes e verduras. Nada disso precisa ser caro”, diz.
A estudante também relata uma mudança importante no próprio consumo. Antes adepta de suplementação, ela passou a priorizar alimentos naturais — e percebeu melhora nos exames: “Eu investia em proteína em pó, mas quando comecei a focar mais em verduras e legumes, os resultados vieram mais rápido. Hoje, suplemento não é mais base da minha alimentação”.
Planejamento reduz gastos
A jornalista Ana Paula Mafra também vê a alimentação como um investimento essencial — e organizado. “Depois do aluguel e da fatura do cartão, o supermercado é prioridade”, afirma.
Segundo ela, manter uma dieta planejada ajuda a controlar os gastos. “Quando você tem um plano alimentar, sua lista de compras é praticamente fixa. Isso evita compras por impulso e ajuda a prever quanto vai gastar no mês.”
Ela reforça que é possível economizar apostando no básico. “Arroz, feijão e uma boa proteína são suficientes. E nem sempre precisa ser carne de primeira — opções como fígado e moela têm ótimo custo-benefício”, diz Mafra.
Gourmetização e desorganização
Para a nutricionista Samantha Soares, o maior vilão do orçamento não é a comida saudável, mas sim os hábitos desorganizados e o consumo de produtos industrializados.
“O que mais pesa hoje é delivery, produtos ‘fit’ industrializados — que são caros e nem sempre melhores — e comprar sem planejamento. Às vezes a pessoa acha que está investindo na saúde, mas nem está”, explica.
Para Ana Paula a redução de gastos com delivery é a principal vantagem de seguir um plano alimentar. “Sem planejamento, a gente acaba pedindo mais comida. Com uma rotina organizada, isso diminui bastante”, diz.
A especialista reforça que uma alimentação equilibrada pode ser simples e acessível: “Arroz, feijão, ovo, frutas da estação… o básico funciona muito bem. O segredo é organização.”
Manuella concorda. A estudante de 20 anos acredita que muito da cultura de gourmetização da alimentação saudável acaba reforçando esse estereótipo de que comer bem é caro: “As pessoas acreditam que é necessário investir em muitas suplementações. Mas, na verdade, para ter uma alimentação saudável, não é preciso suplementar — o essencial é consumir alimentos de boa qualidade, que podem ser encontrados a preços acessíveis”.
Os dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) ajudam a dimensionar o peso da alimentação no orçamento das famílias. Em Belém, a cesta básica atingiu R$ 674,12 em fevereiro de 2026, consumindo quase metade do salário mínimo. Dentro desse conjunto, os alimentos essenciais apresentam preços relativamente acessíveis quando analisados por quilo: o arroz gira em torno de R$ 4 a R$ 7/kg, o feijão entre R$ 5 e R$ 7/kg e o leite cerca de R$ 7 por litro, enquanto a carne bovina ultrapassa R$ 40/kg e concentra boa parte do custo alimentar .
Quando comparados aos suplementos, os valores revelam uma diferença significativa de custo-benefício. Uma proteína em pó, que pode custar entre R$ 150 e R$ 300 (quilo), equivale, por exemplo, à compra de vários quilos de alimentos básicos — como arroz, feijão e até proteínas animais — capazes de compor diversas refeições ao longo da semana.
Economia que vai além do prato
Além do impacto imediato no orçamento, especialistas destacam o efeito da alimentação na saúde ao longo da vida. Segundo Samantha, investir em comida de qualidade pode reduzir gastos futuros com medicamentos.
“Você previne doenças como diabetes e hipertensão. Isso significa menos remédio, menos médico e menos complicações lá na frente”, afirma.
A percepção é compartilhada por quem já adotou esse estilo de vida. Para Manuella, alimentação, sono e exercício físico formam a base do cuidado com a saúde — sem necessidade de altos gastos. “São coisas que não precisam de muito dinheiro, mas fazem toda a diferença”, completa.
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