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Caroço do açaí vira aposta da indústria no Pará para reduzir emissão de carbono

Biomassa amazônica começa a substituir combustíveis fósseis em caldeiras industriais e pode acelerar metas de descarbonização até 2030

Gabi Gutierrez

A meta de zerar as emissões líquidas de carbono até 2050 é um compromisso global assumido por governos e grandes indústrias como estratégia para conter o avanço da crise climática e reduzir os impactos do aquecimento global. Diante do desafio da descarbonização, indústrias no Pará começam a transformar um dos maiores símbolos da Amazônia em alternativa energética para a indústria pesada: o caroço do açaí.

Maior produtor mundial do fruto, o estado passou a utilizar o resíduo gerado pelo processamento do açaí como biomassa em caldeiras industriais, substituindo parte de combustíveis fósseis como carvão mineral e óleo combustível. A iniciativa vem sendo adotada por indústrias instaladas no Pará que buscam reduzir emissões até 2030 e alcançar a neutralidade de carbono nas próximas décadas.

Refinaria em Barcarena já usa caroço de açaí nas caldeiras

Em Barcarena, localizada a cerca de 20 quilômetros de Belém, atua uma das maiores refinarias de alumina do mundo. Lá, o uso do caroço do fruto em mistura com carvão mineral já é realidade.

Segundo Sérgio Ferreira, gerente-geral de manutenção da refinaria, atualmente o caroço representa entre 20% e 25% do combustível empregado nas caldeiras, mas a meta é avançar para uma operação totalmente abastecida pelo resíduo amazônico.

Ainda segundo ele, a conversão completa de apenas uma caldeira exigirá cerca de 285 mil toneladas de caroço de açaí por ano. Em contrapartida, a substituição do carvão pode evitar a emissão de aproximadamente 400 mil toneladas anuais de dióxido de carbono (CO₂).

“A nossa expectativa é, um dia, ter capacidade para converter a caldeira para operar 100% com caroço de açaí”, revelou Sérgio.

O fornecimento do material é realizado por empresas parceiras e cooperativas responsáveis pela coleta, beneficiamento e entrega da biomassa. A mistura entre carvão e caroço ocorre diretamente nas correias transportadoras da refinaria.

Estratégia de carbono zero inclui biomassa, gás natural e energia renovável

A iniciativa faz parte da estratégia global da companhia para reduzir emissões em 30% até 2030 e alcançar a neutralidade de carbono até 2050.

Na operação paraense, a meta é reduzir a pegada de carbono de 0,66 para 0,45 tonelada de CO₂ por tonelada de alumina produzida. Como são necessárias duas toneladas de alumina para produzir uma tonelada de alumínio, qualquer redução nessa etapa gera impacto ampliado na cadeia final do metal.

Além da biomassa regional, o plano também envolve a substituição do óleo combustível por gás natural e a implantação de caldeiras elétricas abastecidas por energia renovável, como solar e eólica.

Produção de açaí no Pará cresce e amplia volume de resíduos

Dados divulgados em março de 2026 pela Fundação Amazônia de Amparo e Pesquisa do Pará (Fapespa) mostram que a produção do fruto cresceu 14 vezes em 38 anos, saltando de quase 150 mil toneladas, em 1987, para cerca de 2 milhões de toneladas em 2024.

Hoje, o Pará concentra 89,5% de toda a produção nacional. Em valores financeiros, a cadeia movimentou quase R$ 9 bilhões em 2024, respondendo por 93,8% de toda a riqueza gerada pelo setor no Brasil.

Mas o crescimento da produção também ampliou um problema ambiental: o descarte dos caroços. Cerca de 85% do fruto transforma-se em resíduo após o processamento, o que significa que o estado gera atualmente mais de 1,7 milhão de toneladas anuais de caroço de açaí.

“85% do total produzido pelo Pará equivale a 1,4 milhão de toneladas de caroço de açaí. É muito caroço sem uma destinação... um potencial passivo ambiental”, destacou Sérgio Ferreira.

É justamente nesse passivo ambiental que a indústria encontrou uma oportunidade energética.

Biomassa do açaí pode reduzir até 2,4 milhões de toneladas de CO₂

Se todo o volume de caroços gerado atualmente pela cadeia do açaí no Pará fosse destinado à produção de biomassa industrial, o potencial energético seria suficiente para abastecer aproximadamente seis caldeiras do porte utilizado na refinaria em Barcarena.

Na prática, isso poderia representar uma redução estimada em até 2,4 milhões de toneladas de CO₂ por ano, acelerando significativamente o processo de descarbonização industrial antes mesmo da meta global estabelecida para 2030.

Embora a substituição total das emissões ainda dependa de outros fatores — já que as caldeiras não são a única fonte de carbono da operação — especialistas e representantes do setor avaliam que o aproveitamento integral do resíduo do açaí coloca o Pará em posição estratégica na transição energética da indústria de base mineral.

Cadeia da biomassa cria nova frente econômica no Pará

Além do impacto ambiental, a substituição cria uma nova frente econômica ligada à bioenergia amazônica.

Uma das empresas responsáveis pelo fornecimento da biomassa opera duas unidades industriais, em Igarapé-Miri e Castanhal, realizando o beneficiamento do material antes do envio às indústrias.

O agrônomo e empresário Marcos Tadeu Bragatto afirma que a ideia surgiu após observar o descarte irregular dos caroços nas ruas e rios de Belém.

“Comecei pesquisando o poder calorífico do caroço e percebi que existia ali uma excelente fonte de energia”, relata.

A empresa iniciou as atividades em 2016 e atualmente possui capacidade para produzir 12 mil toneladas mensais de biomassa seca. O processo inclui coleta, limpeza e secagem do resíduo, transformado em “açaí pellets” utilizados em caldeiras industriais.

Hoje, o material abastece cimenteiras, fabricantes de bebidas, fábricas de ração, indústrias de polpas e outras operações que utilizam geração de vapor.

Segundo Bragatto, o caroço consegue substituir combustíveis como carvão mineral, coque de petróleo, óleo BPF, GLP e gás natural.

“Dependendo do combustível substituído, os ganhos ambientais são enormes, principalmente na redução das emissões e da pegada de carbono”, afirma.

A cadeia também movimenta setores de logística, industrialização e comércio. Apenas nas operações da empresa, mais de 100 pessoas trabalham direta e indiretamente.

Uso industrial do açaí ainda enfrenta desafios técnicos

Apesar do potencial, o avanço da biomassa ainda enfrenta desafios técnicos e estruturais. O caroço do açaí possui cerca de 60% do poder calorífico do carvão mineral e exige rigoroso controle de umidade para alcançar estabilidade operacional.

Além disso, o material precisa passar por beneficiamento antes de chegar às caldeiras. A mistura é feita diretamente nas correias transportadoras da refinaria.

“O carvão possui mais de 200 anos de infraestrutura consolidada, com logística e padronização já estruturadas. O açaí ainda está em fase de aprendizado”, destaca Sérgio Ferreira.

Segundo ele, um dos fornos adaptados levou mais de um ano até atingir estabilidade suficiente para operação contínua. As pesquisas sobre o potencial energético do caroço começaram por volta de 2011, em parceria com universidades.