'Sankofa' vence o Festival da Canção Ouremense e grita pela ancestralidade

Canção, composta pelo músico Davi Amorim e o letrista Dudu Neves, foi defendida pelo cantor Jota Pê, morador de Castanhal, no último sábado (18), em Ourém

Eduardo Rocha
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Em todos os sentidos, sempre vale a pena valorizar e consultar a ancestralidade de um povo, como se dá em relação à Amazônia, que a presença dos povos negros, indígenas e ribeirinhos são fontes inesgotáveis de conhecimentos. Vale a pena essa atitude até mesmo para se vencer o maior e o mais antigo festival de música do Estado do Pará, o Festival da Canção Ouremense, no município de Ourém, no nordeste do Pará. Em sua 40ª edição, o evento, criado em 1983, foi realizado entre os dias 16 e 18 deste mês no Complexo Cultural e Turístico de Ourém, reunindo compositores, músicos e intérpretes para apresentar canções autorais e inéditas. Este ano, a canção vencedora foi "Sankofa: A África que habita em mim", composição do músico, produtor cultural e arranjador Davi Amorim e do letrista Dudu Neves. A música ganhou a interpretação do cantor Jota Pê, do município de Castanhal. "Sankofa" versa justamente sobre a necessidade de nunca se menosprezar a ancestralidade.

" 'Sankofa' significa um olhar que se faz para os nossos antepassados, buscando preservar tudo o que nos foi ensinado pelos nossos ancestrais", destaca Davi Amorim, adiantando que , agora, ele, Dudu e Jota Pê pretendem gravar a canção e lançá-la nas redes sociais. A canção é inspirada na filosofia africana Sankofa (símbolo e conceito filosófico originário dos povos Akan, em Gana, na África Ocidental). Essa música "mostra que revisitar a ancestralidade, a memória e os ensinamentos do passado fortalece nossa identidade". "Sua mensagem celebra a herança cultural africana e nos lembra que conhecer de onde viemos é essencial para construir, com sabedoria, o que ainda está por vir", enfatiza Davi.

Nos versos de Dudu Neves, toda a força da letra da canção: "Meus ancestrais deixaram além do axé / Vários sinais que o tempo não apagou / E essa lição pra gente não esquecer / Que olhar pra trás é ver pra fazer melhor".

"Quando um povo se esquece de seus conhecimentos ancestrais, o impacto vai muito além da perda de histórias antigas; ocorre uma desestruturação profunda que afeta a identidade, a autonomia e a própria sobrevivência desse grupo", enfatiza Dudu Neves. Ele observa que a mensagem da canção é universal, ou seja, refere-se a povos no mundo.

Esse músico destaca que vencer o 40º Festival da Canção Ouremense coroa todo um processo criativo de se construir uma canção e, principalmente, atingir um alvo que é passar uma mensagem para as pessoas por meio da música. Davi Amorim pontua que a relação entre a Amazônia e a África é mais forte do que se pensa. "E isso foi enfocado em 'Sankofa', sobretudo, nessa discussão sobre preservar ensinamentos e manter vivas nossas origens". Há sete anos, Dudu e Davi conquistaram o primeiro lugar em Ourém com a música "Sublime Choro", interpretada pela cantora Renata Del Pinho. Na Bienal de Música de Belém, em 2022, Jota Pê, Dudu Neves e Davi Amorim sagraram-se vencedores com a música "Sob o Céu de Nossa Aldeia".

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