Nesta terça-feira (18), o escritor paraense Edyr Augusto,lança o livro 'Não nos deixeis cair em tentação'. O professor universitário, ensaísta e pesquisador Relivaldo Pinho, o maior especialista na obra de Edyr, analisou a obra que mais uma vez tem como protagonista Belém e seus personagens corrompidos pelo poder, dinheiro e sexo.
Em um texto exclusivo, Pinho destaca que, comparado a obras mais violentas como Moscow e Pssica, este livro suaviza a barbárie para aprofundar a caracterização dos personagens e suas quedas pessoais. A tentação, conclui o crítico, não se restringe ao ambiente religioso, mas permeia elites, polícia e imprensa, num mundo de predadores e presas onde não sobram santos.
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Leia a seguir a análise, na íntegra, de Relivaldo Pinho:
“Não nos deixeis cair em tentação” (2026), novo livro de Edyr Augusto, começa com um MacGuffin. É o assassinato de dois seminaristas que desencadeia a narrativa, mas o fato é apenas um pretexto para que a trama, com seus outros personagens e situações, se desenvolva.
Referir-se à morte de pessoas como um pretexto pode soar desumano demais. E é. Mas nessa literatura que não busca o perdão, esse recurso narrativo é justamente o que nos introduz ao Apocalipse de Augusto.
O MacGuffin é um recurso narrativo popularizado por Alfred Hitchcock em seus filmes. Trata-se de um subterfúgio desencadeador da história, mas que, no decorrer da narrativa, perde quase completamente a importância para o espectador.
O MacGuffin pode ser a busca por um microfilme, um código secreto, um dinheiro roubado, ou até mesmo um assassinato.
Edyr Augusto já havia feito isso em seu livro de estreia no romance, “Os Éguas”, de 1998, mas no seu atual livro, esse recurso tem uma participação um pouco diferente das demais.
Em “Os Éguas”, por exemplo, é o assassinato de um cabeleireiro que desencadeia a trama e destampa a corrupção que habita a cidade de Belém do Pará.
Em “Não nos deixeis cair em tentação”, o assassinato de dois seminaristas não tem como ponto principal desvendar as entranhas do ambiente religioso.
Esse ambiente está no livro, mas ele é muito mais referenciado que aprofundado, exatamente porque a personagem principal é novamente a cidade, com seus personagens e suas caracterizações, e não a violação de um sacramento.
Daí que a tentação à qual o livro se refere não é exclusiva do claustro, mas ela está nos clubes das elites, está nos encontros que tramam outros crimes, está dentro da polícia, na mídia e, principalmente, em personalidades tentadas por todos os tipos de corrupção.
E isso aqui nada tem a ver com moral. Ou melhor, tem. Mas nessa literatura a moral vai até o ponto em que o instinto prevalece. O poder, o dinheiro, o sexo, como em outros livros de Edyr, fazem parte desse incontrolável modo de agir. Todos caem em tentação.
No livro, Buiu é um garoto filho de uma prostituta do centro da cidade. Sua mãe é assassinada, ele se torna um habitante daquele local, mas, depois, é adotado por uma família. Torna-se advogado, mas sua vocação é outra e ele abraça a tentação do tráfico.
Dina, que vive com Buiu, o conhece desde pequeno. Ela é a protetora e desatadora dos nós (crimes) que envolvem seu amante. É sedutora, calculista e impiedosa.
LC. (Luiz Carlos) é o irmão de criação de Buiu. Ele não quis nada na vida, vive de algumas armações, pedindo dinheiro ao irmão e usando droga nas boates.
Ademir Bastos, o Adê, é radialista e um dos tios de um dos seminaristas mortos. Representante fiel do sensacionalismo que vive do “mundo cão”, ele sempre está berrando no microfone cobrando providências das autoridades (sic). Justiceiro da mídia, ele acredita ter um poder muito grande e por isso vive gritando, “eco-co-co-co...”
Ao contrário de Adê, Angela Prata, a Anjinha, está iniciando na profissão de jornalista. Ela precisa de um grande caso para se promover. Ela descobre o filão na morte dos seminaristas e, “cheia de vontade e determinação” (essas frases prontas parecem irônicas dentro da narrativa), fará de tudo (e esse tudo é também uma tentação) para explorar o caso.
Assassinos de aluguel, prostitutas vingativas, playboys drogados, traficantes. Em um cenário como esse, a trama que desencadeia a história desse livro só poderia ser um pretexto. O altar de Edyr já nos traz seus anjos caídos.
Mas atenção. Não sejamos rápidos demais. O leitor, especialmente aquele de Belém do Pará, poderá apontar os dedos para as páginas e pensar, “já sei, ele se refere a esses casos que aconteceram na cidade”.
Edyr sempre fez o jogo ficção/realidade e raras vezes admitiu a correspondência direta com o real. Por vezes, essa correspondência é de tal modo latente que se torna impossível não mencioná-la.
É o caso (como apontei no texto “A zona não é pra qualquer um. Eu já morri, de Edyr Augusto”) do seu livro de 2022. Mas não é o caso desse livro mais recente. Porque em “Não nos deixeis cair em tentação” as correspondências com o real aparecem muito mais como inspirações.
É um livro em que a violência existe, mas ela dá lugar à caracterização dos personagens e suas situações de tensão. Comparado com Moscow (2001), seu livro mais violento, e Pssica (2015), o livro atual descreve menos a barbárie humana de forma hiperbolicamente crua e insere através dos personagens as ações que os levam irremediavelmente aos seus próprios infernos pessoais.
Mas não pense que não temos sequências que parecem sair de um filme que já vimos. Em uma delas, Dina (a amante de Buiu) se fantasia de médica para invadir um hospital e cometer um assassinato. Ela mata e “na volta pra casa, parou na Cairu pra um sorvete de bacuri. Pronto. Tá tudo certo”.
Dina é uma daquelas personagens sobre as quais sempre gostaríamos de ler um pouco mais. Ela não apenas é destemida e implacável, mas quando adota o nome fictício de Diana talvez queira nos dizer (e, na verdade, diz) que, tal como a deusa romana Diana, a divindade da caça e da natureza, aquilo que faz, faz porque para sobreviver neste mundo ela prefere ser a predadora.
Um mundo de predadores e presas. Em outra sequência digna de um “Poderoso chefão”, Buiu e um comparsa vão assassinar um parceiro de crime dentro de um carro. A vítima, resignada, pergunta: “As crianças vão ficar bem? A Deusa?”, Buiu responde: “Garanto. Cumpro minha palavra. As meninas e tua mulher, cuido delas”. O antigo companheiro matador, agora alvo, responde: “Eu sei”.
O MacGuffin de Edyr funcionou. E funcionou porque não sobram muitos santos nas histórias de Edyr. Muito menos nesse “Não nos deixeis cair em tentação”, no qual, durante os capítulos, podemos nos sentir em um confessionário sem ninguém para nos ouvir, restando-nos completar a oração, “mas livrai-nos do mal”.
