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Selo paraense produz artistas locais para o mercado nacional

Nos últimos 12 meses a Psica Produções conseguiu aprovar mais de 50 projetos em editais de incentivo à cultura

No meio da profusão de festas em inferninhos da capital paraense, ali no início dos anos 2010, uma dupla de DJs com seus eventos de nomes que chamavam atenção, como “Dance Like Hell”, “Bambata Brothers”, “Mods Rejects”, também se diferenciava pelo setlist. Imagina só: heavy metal, música caribeña e R&B num mesmo lugar! Eles eram Gerson Junior e Jeft Dias, hoje conhecidos por serem criadores do Psica, um festival, uma produtora e, pra eles e dezenas de artistas pretos e periféricos do Pará, uma promessa de construir caminhos sustentáveis para a arte que vem dos lugares menos privilegiados da Amazônia. Nos últimos 12 meses, eles aprovaram mais de 50 projetos em editais de incentivo à cultura paraense.

A Velhos Cabanos, banda de rock progressivo criada em Icoaraci, foi contemplada pela primeira vez em um edital de incentivo cultural, pela Aldir Blanc e com ajuda do Psica. Onze, um dos guitarristas do grupo, conta que com o dinheiro do edital conseguiram gravar um single, um clipe e uma live que serão disponibilizados na internet nas próximas semanas.

“Os artistas, na maioria das vezes, não são capacitados para lidar com a escrita burocrática de um edital ou nem mesmo possuem conhecimento sobre a existência desses recursos. Isso tem muito a ver com quem acessa de fato os privilégios da informação”, critica. É aí que entra o trabalho proposto pela produtora: encurtar a distância entre os recursos e a criativa produção artística periférica.

É um caminho para virar o jogo e propor uma melhor divisão dos recursos de investimento em cultura. Onze tem uma visão bem definida sobre essa “régua” de privilégios de quem acessa os editais e quem bate de cara na porta. Para ele, sim, tem uma questão geográfica. Os artistas dos bairros centrais têm mais acesso a informações e recursos para abocanhar os editais que conseguem guinar carreiras, ele pontua.

O argumento deles é de que a cultura periférica vive um paradoxo: ao mesmo tempo que é fértil em criatividade, é ignorada pelo mercado paraense. “É abundante quando se fala em inovação, diversidade e criatividade, agora do ponto de vista do mercado, é precário apesar de ter muito potencial. Existe esse atraso histórico da periferia em relação ao centro, quando se trata de informação, acesso ao capital”, defende Jeft.

Mas eles não estão sozinhos nessa corrente. Citam como parceiros de movimento, eventos como o Festival EXU, o Festival Jardim Elétrico em Castanhal, o Abaeté Crew, o Telas Em Movimento, Cine TF, Palco Negro Autoral, entre outras ações de resistência.

Para chegar em 2021 com 50 projetos aprovados em diferentes editais, os criadores do Psica percorreram 10 anos de “corre”, levantando projetos sem nenhum investimento direto, mas sim desenvolvendo modelos próprios para financiar um festival de médio porte que misturava indie, heavy metal e brega numa só noite.

E mais: eles ofereciam entrada gratuita nas primeiras horas de festival, feito que deixava todo produtor de eventos boquiaberto com a postura. Zek Nascimento, produtor cultural que hoje é amigo e parceiro do Psica, lembra das “vaquinhas”, financiamentos coletivos que reunia doações de parceiros e amigos que investiam na ideia, com a expectativa de serem reembolsados no final. Zek foi um dos que apostou verdinhas no que pra muitos parecia loucura, mas que pra ele soava como uma proposta que merecia mais atenção.

“Aquilo que começou lá atrás, com um grupo de amigos fazendo o rolê que gosta, só conseguiu se tornar o movimento que é hoje com muita determinação e certeza do que tá a fim de fazer. O público e os artistas conseguem perceber na Psica, no Jeft, no Gerson, pessoas que amam a música, a arte, amam a produção cultural paraense”, explica Zek, traduzindo o conceito motivador que fez com que o Mongoloid, antigo nome do festival Psica, feito ao lado da produtora “This is Radio Trash”, se transformasse em um dos movimentos mais ativos da cultura paraense.

O destaque não é exagero. Cerca de 100 artistas estão sendo diretamente impactados em 2021 com projetos aprovados pela equipe Psica, uma rede que se expandiu e é formada por muito mais produtores periféricos além dos irmãos Dias.

São cinco festivais no forno, incluindo o Festival Norte Side, Batalha de São Bráz,  Festival Psica, edição especial do Psica em SP e Festival Bambata Brothers, além de uma série de 15 lançamentos de artistas da periferia da região metropolitana de Belém e do interior do estado, com novos discos, EPs, videoclipes e lives no decorrer de três meses deste primeiro semestre.

“Estamos compartilhando conhecimento que demoramos mais de 10 anos para acumular. Então, a gente tá encurtando o caminho de vários artistas e produtores que sonham em se manter nessa cadeia e o resultado é maravilhoso. Estamos proporcionando que artistas em início de carreira consigam um aporte financeiro para se manter e para investir na sua arte. Estamos mostrando pra eles como funciona uma cadeia produtiva e a importância de cada profissional envolvido no processo. Hoje, os artistas que trabalham diretamente com a gente já podem acreditar que é possível viver de arte, para alguns deles isso já é uma realidade”, confirma Jeft.

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