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Arte Pará 2026 celebra a atitude de criar imagens na Amazônia

Itatiane Moraes, Flori Jacamo e Maurileno Sanches são alguns dos 25 artistas selecionados para a 42ª edição dessa mostra promovida pelo Grupo Liberal, a ser aberta em 5 de novembro próximo em Belém

Eduardo Rocha
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Pode ser agora ou um pouco mais tarde. Mas o diálogo, a interação entre a vida, a arte e o tempo, nunca é algo despercebido para quem cria imagens. Assim, um simples pedaço de madeira ou uma tela em branco passam a abrigar criações, propostas artísticas que marcam a trajetória de pessoas pelo mundo. Símbolos imperecíveis de uma existência em forma de arte. Na Amazônia, em Belém do Pará, não é diferente. E o resultado de muitos desses processos criativos o público vai poder conferir por meio dos trabalhos de 25 artistas visuais expositores no Arte Pará 2026. Essa mostra, promovida pelo Grupo Liberal, será aberta na capital paraense em 5 de novembro próximo, no Museu do Estado do Pará (MEP). No conjunto desses artistas sediados no Pará, na Amazônia, estão Maurileno Sanches, Itatiane Moraes e Flori Jacamo, revelando suas vivências artísticas ao público.

A arte de Flori Jacamo, 68 anos, nascida em Valparaíso, no Chile, morando em Belém há 23 anos, funde-se de forma intensa com a vida, como ela mesma explica. "Minha relação com as artes é contínua e permanente, como a própria vida, seja no desenho, na pintura, na fotografia, na poesia, na narrativa ou nos círculos do feminino sagrado. É possível separar a prática artística do contínuo da vida? Para mim não, porque a expressão artística acompanha e responde ao sentir e ao acontecer humano. É a possibilidade de se declarar viva e oferecer, no melhor dos casos, beleza, crítica, voz e ternura".

Flori diz que se expressa principalmente por meio da fotografia e da pintura em acrílico, entre outras linguagens. "Busco qualquer técnica que permita a expressão humana: essa captura sensível que registra uma presença e, ao mesmo tempo, desperta a imaginação infinita".

A artista não esconde sua expectativa em participar do Arte Pará 2026. "É um privilégio e uma honra ser selecionada para o Arte Pará. Estar em uma mostra de tamanha relevância me traz uma alegria profunda, que enche o coração de primavera", destaca.

Espaço no tempo

Fruto do empreendedorismo de Romulo Maiorana (1922-1986), idealizador e fundador do Grupo Liberal, e de Déa Maiorana (1934-2026 ), o Arte Pará chega este ano a sua 42ª edição. Em 1982, esse casal concretizou a proposta de viabilizar um espaço para valorizar e dar visibilidade à produção artística do Pará, da Amazônia. A curadoria do Arte Pará 2026 está a cargo da artista visual Keyla Sobral.

Esse projeto, em 2026, é viabilizado por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet)  e conta com o patrocínio da Phebo e da Vale. A mostra terá uma sala especial dedicada à produção da artista Carmen Sousa, a grande homenageada no evento. 

Dar vida a ideias

Artista negra e ribeirinha da Amazônia, natural de Cametá, município no nordeste do Pará, aos 43 anos, Itatiane Moraes iniciou sua trajetória nas artes em 2004, quando se mudou para Belém e passou a participar de oficinas na Fundação Curro Velho. “A  escultura surgiu para mim de uma forma muito natural. Foi por meio das oficinas na Fundação Curro Velho, com os mestres Feliciano e Maurileno Sanches, que descobri a possibilidade de transformar materiais em formas e dar vida às minhas ideias. 

“A escultura também me permite trabalhar muito com a memória, com as minhas raízes e com a identidade amazônica. É uma linguagem que me permite tocar, transformar e ressignificar aquilo que faz parte da minha história”, ressalta.

Itatiane conta que, ao longo de sua trajetória, já trabalhou com madeira, papel-machê, isopor e buchas de miriti, “Mas hoje minha pesquisa tem como foco principalmente o nó do taperebazeiro. É um material que tem uma conexão muito forte com a identidade ribeirinha da minha região”, revela a artista.

“Meu processo criativo parte muito da observação, da memória e das experiências que carrego desde a infância em Cametá. O material também participa desse processo: observo suas formas, seus veios e suas possibilidades e, a partir disso, vou descobrindo a escultura. Busco preservar a força e a identidade do material, mas também experimentar novas formas e possibilidades”, destaca Itatiane Moraes.

Para ela, “a arte é memória, identidade e transformação”. “É uma maneira de contar histórias e de expressar aquilo que muitas vezes não conseguimos colocar em palavras. A arte também é uma forma de manter vivas nossas raízes e, ao mesmo tempo, criar novas possibilidades. No meu trabalho, procuro fazer com que a minha história e a história de outras mulheres, minha vivência ribeirinha e a Amazônia estejam presentes”, acrescenta.

Itatiane Moraes afirma que ter sido selecionada para o Arte Pará 2026 é uma conquista muito importante para ela e representa um reconhecimento de toda uma trajetória construída com muito trabalho, pesquisa e persistência. “Como mulher artista e amazônida, estar entre os artistas selecionados significa também ocupar um espaço importante na cena artística e poder apresentar um trabalho que nasce das minhas raízes, e da minha relação com a Amazônia”.

“É uma oportunidade de ampliar o alcance da minha pesquisa com o nó do taperebazeiro e mostrar que um material tão ligado à nossa vivência pode ganhar novos significados dentro da arte contemporânea”, arremata a artista.

Esteios

As esculturas sempre estiveram e estão presentes na vida e na trajetória artística do belenense Maurileno Sanches, 49 anos, artista visual com 31 anos de carreira. “Minha trajetória começou muito cedo, ainda dentro das oficinas da minha família, em contato direto com a madeira e com a produção de imagens sacras. Ao longo desses anos, também atuei como escultor, restaurador e arte-educador, desenvolvendo trabalhos em diferentes comunidades e espaços de formação artística”, relata.

Maurileno diz que a escultura é uma das principais linguagens da sua produção e está diretamente ligada a sua história familiar. “Sou filho do Mestre Feliciano e sobrinho do Mestre Mauriz, ambos da cidade de Cametá e mestres na produção de imagens de santos barrocos. Essa tradição está presente na minha família há mais de 80 anos”.

“Desde os 10 anos de idade comecei a ter contato com esse universo. Cresci dentro das oficinas, observando e aprendendo com os mestres da minha família. Foi nesse ambiente que nasceu minha relação com a madeira e com a escultura”, detalha o artista.

Ele trabalha principalmente com cedro e acapu, madeiras características da Amazônia. Hoje, além da tradição familiar, procura construir sua própria linguagem, estabelecendo uma relação entre a memória, a ancestralidade e o território.

“A arte sacra é uma referência muito importante na minha formação, mas minha produção atual também busca dialogar com outras questões. Um exemplo são as obras realizadas a partir do reaproveitamento de esteios das antigas palafitas da Vila da Barca. Essa madeira carrega uma história e uma memória do lugar, e transformá-la em escultura é uma maneira de ressignificar essa matéria e preservar parte dessa memória”, pontua Maurileno.

Para ele, “a arte é a maneira que encontrei de contar a minha própria história e, ao mesmo tempo, dialogar com a história do lugar de onde venho”. “Ela traduz minha ancestralidade, minha memória e meu sentimento de pertencimento. A madeira é muito importante nesse processo porque ela carrega marcas do tempo e histórias que muitas vezes não estão escritas”.

“Quando trabalho com os esteios das antigas palafitas da Vila da Barca, por exemplo, não estou apenas reaproveitando uma madeira. Estou trabalhando com uma matéria que já fez parte da vida de pessoas e de uma comunidade. Transformá-la em obra é dar a essa matéria uma nova existência e uma nova possibilidade de contar sua história”.

Maurileno Sanches festeja estar entre os artistas selecionados para o Arte Pará 2026, como “um reconhecimento muito importante para minha trajetória de 31 anos nas artes”. Ele já havia sido selecionado para o Arte Pará em 1999, no início da sua trajetória.” Retornar agora, em 2026, depois de 27 anos, tem um significado muito especial para mim. É como reencontrar uma parte importante da minha história e perceber o quanto caminhei e amadureci como artista ao longo desse tempo. Valoriza a história dos mestres escultores da minha família e toda essa tradição de mais de 80 anos. Poder apresentar meu trabalho nesse espaço é uma forma de levar comigo essa ancestralidade e mostrar como ela continua viva, mas também se transforma por meio do meu olhar”.

”O Arte Pará é um lugar de encontro entre diferentes gerações e linguagens e uma oportunidade de mostrar que a arte produzida no Pará tem força, identidade e muitas histórias para contar”, arremata Maurileno.





 

 

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