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Vozes originais na tela: talento amazônico dá vida a personagens

Atores e atrizes fazem a festa do público de filmes de animação, protagonizando o som da fala de quem vive histórias no vídeo

Eduardo Rocha

Personagens de filmes de animação são capazes de conquistar o público por um elemento que, juntamente com o roteiro e design, marca de vez o espaço deles na trama: a voz. O Dia do Dublador é celebrado anualmente em 29 de junho, e essa data serve para homenagear os atores e atrizes que dão voz a personagens em filmes, séries e animações. A dublagem brasileira é considerada uma das melhores do mundo. Em Belém, esse trabalho artístico é desenvolvido por profissionais que garantem o som da fala original de protagonistas de histórias que surgem nas telas.

São “heróis” e “heroínas” que se dedicam a encantar plateias com um trabalho sutil e criativo, que costumam garantir boas gargalhadas e ótimos momentos para gente de todas as idades. Um desses profissionais, inclusive muito conhecido em Belém, é AJota Takashi. Ele explica que quem atua com essa atividade é chamado de ator/atriz de voz, por ser quem cria a voz e a interpretação. “Quando o ator ou atriz tem que fazer a interpretação em português de um personagem que já existe,  chamamos de dublagem. E é totalmente diferente da voz original”, diz AJota.

Esse paraibano de nascença, mas paraense de alma e coração (veio para Belém aos 6 anos de idade), conta que “desde cedo, sempre tive o desejo de dublar um desenho animado”. “Mas, morando aqui no norte do país, o desejo era quase impossível! Porém, em 2013, conheci o estúdio Iluminuras, que me deu a primeira oportunidade”.

AJota sabe bem o que é fundamental para esse fazer artístico. “A pessoa que deseja trabalhar nesse meio tem que ser ator/atriz. É impossível trabalhar nessa área se não for ator/atriz. Ter uma excelente dicção, articulação e versatilidade de timbres para criar as vozes mais diferentes, falar o texto o mais natural possível e não precisar mudar o sotaque”, pontua.

“O mercado de voz original, regional e nacional quer ver originalidade! Não é necessário ter uma voz bonita. Saber interpretar com ela é o mais importante. Por isso é necessário que a pessoa interessada faça um curso de teatro para ter o registro DRT. Procurar cursos, oficinas de voz, dublagem e voz original para sempre estar pronto para os personagens que aparecerem”, acrescenta.

Ele mesmo é ator formado pela Escola de Teatro e Dança da UFPA e continua fazendo cursos de voz original e dublagem, a fim de estar atualizado e ter novos conteúdos para passar para os alunos e também para aplicar nos trabalhos que faz. AJota  ministra oficinas no Curro Velho e na Casa da Linguagem, “que são os únicos espaços aqui em Belém que levam esse conteúdo para o público paraense”. Com a popularização dos filmes animes no Brasil, os jovens criaram esse desejo de dublar, criar vozes para desenho, e aqui em Belém não é diferente, como revela AJota.

Em Belém, não há um estúdio especializado em trabalhos de voz. O Iluminuras, Muirak e Lusko Fusko são estúdios de animação que fazem chamadas para atores de voz para suas animações. Os atores normalmente gravam em estúdios de gravação de música e ensaio, como o GS Studio, Estúdio Fabrika e o Estúdio Z ou em home studios.

Falas

O trabalho desses artistas é bem conhecido pelo cineasta paraense Cássio Tavernard, autor de 20 obras. Cássio é autor da trilogia da “Turma da Pororoca”. São eles: “A Onda - Festa na Pororoca”, “O Rapto do Peixe-boi” e “Allegro pero no mucho”.

“A experiência com os atores que deram as vozes para os personagens foi maravilhosa, artistas de quem eu já era fã, todos do teatro, que se tornaram meus amigos. E eles são absolutamente a alma dos personagens. Artistas como Adriano Barroso, Ester Sá, Ailson Braga, André Mardock, Adriana Cruz e outros trouxeram vida aos personagens da ‘Turma da Pororoca’ “, detalha Tavernard.

Ele destaca que é a voz que “cria a alma, o espírito do personagem; ela define o tom, a característica do personagem”. “É possível se identificar o personagem apenas ouvindo sua voz”, acrescenta, adiantando que mais animações estão vindo por aí.

E é assim mesmo para a paraense Ester Sá, conhecida pelo seu talento em dar voz a personagens. Ela conta que seu primeiro trabalho nesse ramo foi no filme “A Onda - Festa na Paroroca”, que, como diz Ester, foi o primeiro filme de animação feito no Pará. 

Na prática, a voz original de um personagem é feita assim: “Conhecemos o texto e os desenhos dos personagens. Ensaiamos no coletivo, sempre que possível, e depois gravamos. O diretor participa dos ensaios, orientando. As gravações são feitas em separado, principalmente se o elenco for grande”, como explica Ester.

Ela diz que a voz original é um trabalho de atores, e, então, todo o trabalho do ator se faz necessário para a criação de uma voz. “O trabalho do ator é feito em jogo, então a disponibilidade para experimentar e brincar é fundamental para encontrar a voz adequada. O estudo, conhecimento sobre as possibilidades da voz e conhecimento da intenção de cada fala são importantes também”, ressalta.

Entre os trabalhos feitos por Ester Sá, figuram também: “O Rapto do Peixe-Boi”, “Allegro, pero no mucho”, “Nossa Senhora dos Miritis”, “As Icamiabas”, “Os Dinâmicos” e “Vilabarca”. Essa atriz, contadora de histórias, cantora, escritora e produtora gosta muito dos personagens “Camarão” e “Tia Filica”.

Outra pessoa dedicada a essa arte da voz original é o jornalista, ator e escritor Ailson Braga. Em 2005, ele fez seu primeiro trabalho de dar voz a um personagem, ou seja, há mais de 20 anos. No caso, o personagem Caranguejo, do curta “A Onda - Festa na Pororoca”. Na verdade, Ailson atuou também nos dois outros títulos da trilogia: “O Rapto do Peixe-boi” (2009) e “Allegro Pero non Mucho” (2019).  

“Também fiz uma animação do saudoso Biratan Porto (jornalista, artista gráfico, compositor e músico). No qual fiz um duende protetor da natureza. A animação foi lançada em 2006 e se chama ‘Cadê o Verde que Estava Aqui?”, conta Ailson.

Ele conta que o trabalho como ator tem sido fundamental para sua atuação como fazedor de voz. “Tanto que nos ensaios e até nas gravações, os animadores usavam nosso gestual e expressões na animação, nas expressões dos personagens. O desafio foi colocar apenas na voz todas as intenções e subtextos dos personagens”. “Eu amo demais fazer esse tipo de trabalho. E é preciso destacar aqui o chamado do Cássio Tavernard,  que foi quem me fez descobrir essa vertente do trabalho de ator”, arremata Ailson Braga.