Santos e festas juninas têm relação ancestral em Belém
Devoção aos ‘santos juninos’ aquece a temporada de festas neste mês entre os paraenses
Em junho, para onde se olha, tem festa junina, seja em casas, em escolas, em sede de clubes e em espaços públicos, mobilizando gente de todas as idades. Essas festas têm uma relação direta com os santos da Igreja Católica, os chamados "Santos Juninos", personificados em Santo Antônio no dia 13; São João no dia 24, e São Pedro/São Paulo no dia 29. Essa referência religiosa em sua trajetória histórica e cultural é mais forte do que se costuma pensar e contribui de forma singular para reforçar a identidade amazônica. Por isso, desde o começo e até o final deste mês, a festança de mãos dadas com a religiosidade dos paraenses é intensa.
Começa pelo apelido de "Festa de São João" para os eventos em junho. Inserido nesse clima festivo e religioso,o diácono Sílvio Ataíde, da Igreja de São João Batista, no bairro da Cidade Velha, veste-se de caipira para coordenar as atrações e atuar como anfitrião dos participantes da festividade do santo.
“A festa em homenagem a São João neste mês de junho é comemorada de forma alegre e contagiante, pois se faz memória à data de seu nascimento. João, quando ainda no ventre de sua mãe, Izabel, pula de alegria ao perceber a presença de Jesus no ventre de Maria, quando ela se colocou prestativa à prima. E, dentro desse contexto, nós também comemoramos de forma alegre e divertida essa data, transmitindo aos que vêm participar da festa o amor contagiante de Cristo”.
Há cerca de 20 anos se realiza a festa nos arredores da Capela de São João, porém a devoção religiosa já vem desde a fundação de Belém. A cada ano, Sílvio busca, junto com os demais organizadores, proporcionar paz, alegria e esperança, “imitando São João em sua missão de anunciar Cristo em sua plenitude”.
O diácono não tem dúvida de que o cunho festivo da programação em louvor ao santo padroeiro realça a relação das pessoas com a Igreja e a renova a fé em São João. No caso, São João Batista, aquele que veio anunciar Jesus Cristo na Terra. “Ao unir fé, esperança e caridade, o evento faz com que pessoas de diversas idades participem como uma única família, unida dentro e fora da Igreja, pois, na oração realizada pela celebração litúrgica, todos vêm ao espaço religioso agradecer pelas graças alcançadas e pedir por aí e pelos outros que São João interceda ao seu primo Jesus bênçãos abundantes”.
“E, após esse momento sagrado, todos se reúnem na praça com familiares e amigos, buscando um encontro com velhos amigos e outras pessoas na pracinha em frente à capela”, completa Sílvio Ataíde.
Santos e festas
O historiador e professor doutor em História Social da Amazônia, Elielton Gomes, estuda os festejos religiosos na região desde 2010. Ele detalha como se dá a relação entre a devoção popular aos santos da Igreja Católica com as festas juninas. "Quando pensamos em festas juninas, no Pará, as principais referências dessas celebrações encontram-se ancoradas a três principais santos da Igreja Católica, celebrados no mês de junho, que seriam Santo Antônio (13), São João (24) e São Pedro (29). Em algumas localidades do estado, por muito tempo, celebrava-se São Marçal (30); no entanto, atualmente, em relação aos três primeiros santos, esse não apresenta tanto destaque, sobretudo no meio urbano, quando se fala em festejos juninos".
“Nesse sentido, pensar a relação dos santos juninos com essas experiências festivas é pensar que esses elementos sacros devem ser vistos enquanto base simbólica e devocional que definem e legitimam essas celebrações dentro do calendário da Igreja Católica, incorporando, ao mesmo tempo, tradições populares que, direta ou indiretamente, ultrapassam o campo religioso. Logo, essas festas, embora apresentem simbologias e ritualísticas do catolicismo, tornam-se espaços de sociabilidades, nas quais as identidades regionais são construídas e reafirmadas a cada ano", ressalta o professor Elielton Gomes.
Como destaca esse pesquisador, "as festas juninas têm raízes nas celebrações relacionadas aos ciclos agrícolas e ao solstício de verão no Hemisfério Norte, vistas por muitos pesquisadores como rituais pagãos, antes do advento do cristianismo". "Porém, com o avanço da Igreja Católica, ao longo do tempo, muitos elementos pagãos foram ressignificados e passaram a compor os ritos e dogmas dessa instituição. Logo, a Igreja Católica associou essas celebrações pagãs à devoção dos santos juninos, celebrados no período em que aquele solstício era festejado, antigamente", salienta.
"Com isso, muitos elementos que antes eram vistos como negativos passaram a compor esse momento festivo, como, por exemplo, o fogo, associado anteriormente à devassidão e que, frente à ressignificação da Igreja, passa a ser visto como purificação e representado, nas festas juninas, pela fogueira", acrescenta o professor.
Coexistência
Elielton Gomes destaca a particularidade das festas juninas no Estado do Pará. "Pensar em festejos juninos, no Pará, é pensar em culturas e experiências religiosas da Amazônia, nas quais se percebem elementos da religiosidade cristã católica imbricados a elementos afro-indígenas. Os santos católicos (Santo Antônio, São João e São Pedro, principalmente) apresentam destaques nesse cenário religioso e sociocultural do estado; no entanto, outros componentes passam a fazer parte desse cenário festivo, a exemplo das práticas e crenças indígenas e africanas presentes em banhos atrativos, em simpatias e também no sincretismo religioso".
"Talvez esses sejam um dos principais diferenciais das festas juninas no Pará para aqueles experimentados no Nordeste do país. Mas é importante frisar que o modo de festejar dos nordestinos, desde pelo menos a segunda metade do século XIX, frente ao fluxo migratório desses, durante a economia gomífera, para a Amazônia, teve importância grandiosa no modo de festejar daqueles que aqui viviam e vivem", completa o professor.
Acaba que os santos são referências para as festas juninas. "Pensar em festas juninas é também pensar nos santos festejados no mês de junho! Embora vistas enquanto celebrações populares, o religioso, representado pelos santos juninos, indica a importância deles nessas experiências socioculturais. Não à toa é impossível ver ou viver uma festa junina sem, ao menos, ouvir os nomes de São Antônio, São João ou São Pedro. Seja na igreja, em espetáculos municipais, em terreiros ou em aniversários, esses santos, 'fisicamente', por meio de imagens, ou não, estarão ali, sendo apresentados como os 'donos' da festa", como ressalta o professor Elielton Gomes.
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