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Raízes do Sol celebra 20 anos com tradição, títulos e muito trabalho nos bastidores do São João

Os ensaios que duram de janeiro a janeiro estão em ritmo acelerado

Patrícia Baía

Em Castanhal, quando o mês de junho se aproxima, um grupo já está pronto há muito tempo. Entre passos marcados, figurinos detalhados e muita dedicação, a quadrilha roceira Raízes do Sol mostra que o brilho do São João começa bem antes das apresentações.

Em 2026, a Raízes do Sol celebra duas décadas de história. Fundada em 2006 pelos idealizadores João Lisboa, Ailton Oliveira e Fabrício Neves, a quadrilha nasceu como um grupo de quadrilha moderna, segmento que na época dominava os grandes concursos juninos. Após uma pausa, retornou em 2010 já no estilo roceiro que é a identidade que mantém até hoje.

À frente da quadrilha, o presidente Renato Estevão acompanha de perto essa trajetória de crescimento e conquistas. “A gente começou com um sonho, com pessoas que acreditavam na cultura. Hoje, completar 20 anos é motivo de muito orgulho”, destaca.

Com o passar dos anos, a Raízes do Sol se consolidou como uma das quadrilhas mais premiadas do Pará, especialmente a partir de 2019, quando a coleção de títulos começou a crescer de forma significativa. Entre as conquistas recentes estão vitórias em concursos tradicionais e o título no Arraial de Belém, considerado um dos mais importantes do estado.

Mas por trás de cada troféu existe uma rotina intensa. Diferente do que muita gente imagina, o trabalho não se resume aos meses juninos. Na Raízes do Sol, o calendário é praticamente anual.

Os ensaios começam de forma leve ainda no fim do ano, com os chamados “esquentas”, encontros sem coreografia para preparar o grupo. Já em janeiro, a rotina se intensifica. No início, os encontros acontecem de terça a sexta. Com a proximidade das apresentações, os ensaios passam a ser quase diários.

“É trabalho de janeiro a janeiro. Quando termina uma temporada, a gente já começa a pensar na próxima. Não é fácil liderar 40, 50 pessoas, organizar tudo, mas é a dedicação que faz dar certo”, explica Renato.

Hoje, a quadrilha entra em cena com cerca de 21 pares, incluindo reservas, além de marcador, equipe de produção e coordenação. Ao todo, mais de 60 pessoas estão envolvidas diretamente no espetáculo.

O grupo reúne perfis diversos: estudantes, autônomos, empreendedores e veteranos que carregam anos de experiência na dança. É nesse ambiente coletivo que muitos encontram mais do que um espaço cultural.

“Eu faço parte da Raízes do Sol desde 2019, e fazer parte da quadrilha pra mim é ter uma casa, uma família, um lugar onde dividir essa paixão que eu tenho pelo São João”, conta o brincante Júnior do Vale.

Ele explica que, além de integrar o elenco, neste ano passou a contribuir também nos bastidores dos ensaios. “Eu sou só brincante, faço parte do elenco, mas esse ano fiquei um pouco mais à frente, como assistente de coreografia, ajudando na passagem, na execução dos movimentos, na limpeza coreográfica. É mais por conta da minha aptidão com a dança”, afirma.

E antes mesmo de junho, a Raízes já começa a sentir o gostinho da disputa. Em maio, o grupo participa dos chamados “concursos de ensaio”, uma espécie de prévia das apresentações oficiais.

“É quando a gente mostra parte do espetáculo, ainda sem o figurino completo, mas já com o tema. É uma preparação importante pro São João”, explica Renato.

Falando em tema, para 2026 a quadrilha promete um espetáculo cheio de cor e identidade cultural: “O Cortejo do Maracatu”. A ideia surgiu de forma inesperada, durante uma pesquisa nas redes sociais.

“Meu marido viu um vídeo de maracatu e perguntou por que a gente não falava disso. Fui pesquisar e quanto mais a gente estudava, mais se apaixonava. Vimos que tinha tudo a ver com o São João”, conta Renato.

A partir daí, o projeto ganhou forma e foi aprovado pela coordenação. A coreografia e o figurino levam a assinatura de Jackson Danilo, responsável por transformar a pesquisa em espetáculo.

Mas montar tudo isso tem custo que não é baixo. Segundo Renato, para colocar a quadrilha na quadra são necessários entre R$ 70 mil e R$ 80 mil por ano, podendo chegar a R$ 100 mil com viagens.

Para viabilizar o projeto, o grupo aposta em rifas, eventos, bingos e busca por patrocinadores. “A gente corre atrás o ano inteiro. Muitas vezes o apoio da prefeitura chega quando a gente já fez dívida. Se viesse antes, ajudaria muito”, pontua.

Mesmo diante das dificuldades, a motivação segue firme especialmente pelo reconhecimento do público. Em Castanhal, cidade marcada pela forte influência nordestina, as quadrilhas são mais do que entretenimento: são parte da identidade cultural.

“É uma honra representar Castanhal. A gente dança em vários concursos, ganha títulos, mas não tem nada melhor do que se apresentar aqui, pro nosso público. É isso que faz tudo valer a pena”, afirma Renato.