Rafael Prado mostra em Belém memórias e apagamentos na Floresta Amazônica
Público celebra 84 anos de história do Banco do Amazônia e confere uma mostra instigante do artista Rafael Prado (RO) sobre o amor e defesa desse bioma
A trajetória da Amazônia é feita por meio de memórias e pagamentos, como mostra o artista plástico rondoniense Rafael Prado na exposição “Povos Amazônicos Não Morrem, Viram Semente”, a ser aberta nesta sexta-feira (10), no Centro Cultural Banco da Amazônia, no centro de Belém. A exposição integra as comemorações dos 84 anos do Banco e reúne trabalhos que resgatam histórias de personagens amazônicos que dedicaram suas vidas à defesa da floresta e de seus modos de existir.
Essa mostra tem curadoria de Shannon Botelho, pesquisador, crítico de arte e professor do Departamento de Artes Visuais do Colégio Pedro II, e produção executiva assinada por Natalia Azevedo, da Abstrata Produções. “A exposição parte de uma ideia muito feliz: na floresta, nada desaparece completamente. O trabalho do Rafael nos lembra que aqueles que defenderam a Amazônia seguem presentes em suas histórias, em seus territórios e na memória coletiva. Suas pinturas transformam essas presenças em imagens de força, continuidade e esperança”, explica Shannon Botelho.
A mostra foi um dos projetos selecionados no I Edital de Ocupação do Centro Cultural Banco da Amazônia 2026/2027.
Origens
Em entrevista à Reportagem do Grupo Liberal, Rafael Prado conta que a mostra surgiu a partir de uma série que ele desenvolve desde 2022, “a partir de um resgate, de uma memória de infância”. A reforma da estrada de ferro Madeira-Mamoré, uma construção do começo do Século XX, quando ele tinha por volta de cinco anos de idade, disse muito ao artista.
“Ela saía do porto de Porto Velho até a capela. Originalmente, ela ia até a Bolívia, mas o ponto restaurado foi até a Capela de Santo Antônio, uma capela terminada de construir em 1912. E aí, lá na década de 90, quando eu estava indo, esse trilho margeia o rio Madeira, entra na floresta, a gente cruza ela e termina nessa igreja, que fica no alto de um pequeno morro, e na época era descampado esse morro. Quando eu cheguei nessa capela, eu tive a sensação de ter estado naquele lugar antes, em um sonho, uma memória. E na minha memória, tinha árvores gigantes, enormes, centenárias em volta dessa capela, que meio que moldurava essa capela. E quando eu cheguei, na década de 90, não tinha mais isso”.
“Eu sempre tive essa imagem, essa ideia, e, depois, mais velho, pesquisando sobre a origem ali daquela região, existiam realmente essas árvores, à beira do rio, essas árvores centenárias. E foi pensando muito sobre essa construção, essa ocupação da região e dessas árvores que foram cortadas e o que foi preciso fazer para se ocupar dessa região. A exposição nasce com essa luta centenária de muitas pessoas protegendo esse território e de como é que eles, ao mesmo tempo, fazem parte do território”, enfatiza o artista.
Pessoas, como frisa Rafael, que foram assassinadas, silenciadas. Esse modo de Rafael abordar essa temática tão cara aos povos da floresta tem um simbolismo expressivo e uma relação com as encantarias amazônicas. Trata-se de renascimento, do “plantar” dessas pessoas, de ressurgir e trazê-las “como uma árvore, como protetores de árvores”, de vez que “a gente se alimenta dos frutos, a gente colhe esses frutos que eles deixaram, a gente se alimenta deles”.
Rafael pontua que as pessoas na Amazônia encontram-se “no centro do mundo, mas na periferia do Brasil”, isto é, as abordagens sobre o bioma não se aprofundam sobre “o que acontece por aqui”. “E esses trabalhos surgem justamente para falar dos nossos costumes, da nossa maneira de pensar, das pessoas que estão aqui pisando e defendendo o território lá dentro”, diz ele. “A pesquisa surge a partir da necessidade de contar a história do chão”, ou seja, contar, de “uma forma enraizada mesmo”, histórias que não são contadas.
Como parte da programação da exposição "Povos amazônicos não morrem, viram semente", o artista Rafael Prado realiza no domingo (12), a oficina "Coletando Memórias: Workshop de Frotagem e Colagem Artística", no Centro Cultural Banco da Amazônia. A atividade usará a técnica frotagem (frottage), que consiste em captar relevos e texturas de diferentes superfícies por meio da fricção do papel com grafite ou giz de cera. As inscrições são gratuitas e podem ser realizadas pelo e-mail contato@abstrataproducoes.com.br, copiando ainda o e-mail centrocultural@basa.com.br.
Serviço:
“Exposição ‘Povos Amazônicos Não Morrem, Viram Semente’
No Centro Cultural Banco da Amazônia,
Na av. Presidente Vargas, 725-761, Campina, Belém-PA
Abertura em 10 de julho de 2026
Horários de visitação – Terça a sexta, das 10h às 16h. Sábado, domingo e feriados, das 10h às 14h
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