Projeto Nzinga promove cortejo feminino de tambores em Belém
Programação inclui oficinas ao longo da semana e apresentação aberta ao público no bairro da Cremação
Um cortejo de mulheres tocadoras de axé, parte do projeto Nzinga, percorrerá as ruas do bairro da Cremação, em Belém, neste sábado, 21 de março. A atividade, que reúne mais de 30 participantes da "Vivência Corpo: Dança, Canto e Tambores", terá concentração gratuita das 10h às 12h, com saída da Abuke - Terreiro da Mãe Matilde - Dr. Moraes, 1026 em direção ao Cedenpa.
O cortejo e as oficinas fazem parte da segunda etapa do projeto Nzinga. Criado em 2020 pela percussionista paraense Brena Corrêa, o foco é a formação de mulheres percussionistas nas tradições afro-brasileiras. Desde fevereiro deste ano, a iniciativa realiza iniciação musical com cerca de 50 mulheres em casas de axé da capital, além de apresentações em escolas e espaços culturais.
Intercâmbio e Referência com Ilú Obá de Min
Nesta etapa, o projeto promove intercâmbio com o grupo Ilú Obá de Min. Brena Corrêa destaca a importância do grupo paulistano como referência, existindo há 21 anos com 400 mulheres. "Isso é inédito, até pra cidades que têm tradição de música percussiva afro como Salvador", afirma a percussionista. Ela ressalta que é possível vencer o machismo no tambor, incentivando mulheres que já tocam em Belém, seja na música negra dos terreiros de candomblé ou em outros âmbitos percussivos.
Três integrantes do Ilú Obá de Min, associação fundada em 2004 em São Paulo, conduzem as atividades formativas. Os encontros abordam práticas de dança, canto e percussão ligadas aos orixás do candomblé, incluindo toques, cantos e elementos corporais. Ao final da programação, as participantes apresentam o repertório em um cortejo pelas ruas da Cremação.
O Tambor como Cura e Grito de Liberdade
A mestra Nega Duda, uma das facilitadoras, enfatiza a relevância do projeto. "O tambor é cura, mas também é um grito de liberdade. Ver mulheres negras ocupando esse espaço é ver a ancestralidade se movimentando", declara. Ela acrescenta que a cultura está viva, se renovando e sendo conduzida por mãos que sempre foram a base de sustentação das comunidades. A aproximação com os tambores ancestrais funciona como um espelho para o reconhecimento da mulher como parte de um fluxo contínuo de realeza e sabedoria africana.
Brena Corrêa também aborda a questão do acesso à prática instrumental. "Eu acho que formar mulheres para tocar axé, para tocar o tambor, não tem nada a ver com disputa com os homens. Todo mundo é livre pra fazer o que quer, porém as mulheres não conseguem ter a mesma oportunidade que eles no Candomblé, por exemplo", explica.
Pesquisa e Ampliação do Debate Cultural
Além das formações, o projeto realiza uma pesquisa cartográfica sobre a atuação de mulheres em terreiros e na música afro-brasileira no Pará. Este levantamento visa orientar novas etapas da iniciativa e ampliar o debate sobre música, gênero e cultura afro-brasileira na região.