Nuances do Marajó ganham vida nas fotos de Karina Gaia
Jovem fotógrafa tem ensaio fotográfico pronto para ser revelado em Belém, no qual compartilha toda sua paixão pela arte da fotografia
Aos 27 anos de idade, Karina Gaia atinge um patamar na arte da fotografia que impressiona a quem tem contato com os trabalhos dessa jovem, que atua como uma porta-voz das belezas naturais e dos desafios sociais e ambientais do Arquipélago do Marajó, no norte do Estado do Pará, onde nasceu. Tanto que, após ter uma foto sua publicada no site da Vogue Itália, em 2020, Karina está prestes a revelar ao público, em Belém, um ensaio fotográfico sobre o projeto Maré Viva, do qual participa, bem próximo da mãe Ivone Gaia e de comunidades pesqueiras do Marajó.
Karina nasceu e cresceu no município de Soure, no Marajó. Depois, mudou-se para Belém a fim de fazer faculdade, no curso de Publicidade e Propaganda. Em sequência, passou cinco anos residindo no sul do Brasil e, agora, voltou a morar no Pará há cerca de nove meses.
“Eu sempre gostei de fotografar. Desde meus 14 anos, eu faço isso, mas eu comecei a levar mais a sério quando entrei na faculdade. Tive contato com a fotografia documental, que é o que mais gosto. Então, atuo profissionalmente desde 2019”, conta Karina.
Ela fotografa há mais de dez anos. “Fotografia é a maneira como posso mostrar para as pessoas como enxergo o mundo. Eu sou apaixonada por detalhes, seja nas pessoas ou nas coisas. Então, quando estou fotografando, eu quero que as pessoas tenham a visão que tive; mesmo que a percepção seja diferente, ainda quero que elas olhem com os meus olhos aquilo que possivelmente passaria despercebido”.
“Fotografar o Marajó é, acima de tudo, reafirmar o meu lugar. Quando chego em qualquer lugar, me apresento como marajoara, o que pra mim significa várias coisas. Então, fotografar o Marajó é só mais uma maneira de afirmar de onde eu vim, onde nasci, como e onde cresci e tudo que carrego da minha cultura”, destaca Karina.
A multidisciplinaridade e a relação entre comunicação, arte, cultura e identidade amazônica marcam a trajetória dessa artista cultural, fotógrafa documental, ilustradora e diretora de arte. Karina atua profissionalmente na área de direção de arte e design.
Ela tem o foco de sua produção no registro documental do cotidiano marajoara. Em 2020, Karina teve uma de suas fotografias publicada no site da Vogue Itália - uma imagem produzida na Praia do Céu, em uma comunidade pesqueira de Soure. Trata-se de um registro em preto e branco, ou seja, uma mão segurando uma rede de pesca — um detalhe do cotidiano que revela a relação entre o trabalho, o território e os modos de vida das comunidades pesqueiras do Marajó.
Como nem só de fotografia vive a mulher, ela desenvolve projetos de ilustração e estamparia inspirados na Amazônia e na cultura marajoara, como o Amazônia em Traços, que transforma referências visuais do bioma em criações contemporâneas.
Maré Viva
Ivone Gaia, mãe de Karina, é pedagoga, articuladora social, escritora e pesquisadora de saberes culturais na Amazônia. Ivone idealizou e colocou em prática o projeto Maré Viva. Essa iniciativa é voltada para mulheres e jovens das comunidades pesqueiras do Céu e do Caju-Una, em Soure, no Marajó. O projeto é uma ação do Ministério da Pesca, com a coordenação da Fundação de Amparo e Desenvolvimento da Pesquisa (Fadesp) em articulação com a Universidade Federal do Pará (UFPA).
O Maré Viva dialoga com temas relacionados às comunidades tradicionais de pescadores artesanais, às mulheres e à juventude, além dos impactos do racismo ambiental e das mudanças climáticas que afetam essas comunidades. Para isso, o ponto de partida das ações são os próprios saberes locais e a compreensão de que existe uma relação de interdependência entre as pessoas e o meio ambiente. Desse modo, a terra, o mangue e o mar não são vistos apenas como espaços físicos, mas como territórios fundamentais para a manutenção da vida, da cultura e das relações comunitárias.
E, como parte da metodologia do projeto, os jovens participaram de um circular de etnofotografias, atividade voltada à identificação dos territórios de pesca das comunidades do Céu e do Caju-Una e à compreensão da importância desses espaços para a vida das populações locais. O Maré Viva conta com a participação das pesquisadoras: professora doutora Graça Silva (Uepa) e da professora mestra Karem Gaia, doutoranda da Uepa.
Para Karem Gaia, participar do Maré Viva "é a oportunidade de colocar lado a lado a ancestralidade e a continuidade da cultura, valorizando os saberes, as práticas e os modos de vida que atravessam gerações". "As comunidades do Céu e do Caju-Una constituem um patrimônio vivo de Soure. Preservar suas histórias, fortalecer suas identidades e reconhecer a riqueza de seus conhecimentos tradicionais é contribuir para que as futuras gerações continuem encontrando, na pesca artesanal, não apenas um meio de subsistência, mas também uma forma de existir, de pertencer e de manter viva a memória e a cultura marajoara", acrescenta.
Já a professora Graça Silva destaca que "na relação direta com a natureza — referenciados pelo mundo das águas, pelo fluxo das marés, pelo mangue como uma entidade da natureza e pela terra como um lugar da vida — essas comunidades reproduzem a existência e fazem sua formação humana". Ela pontua ainda: "Nessa convivência dialógica foi possível perceber a preocupação deles com as questões socioambientais, com os resíduos sólidos, com a estética de suas moradias, todas com pinturas coloridas, fazendo daqueles espaços uma paisagem dinâmica e alegre. Graça ouviu de Dona Madalena, moradora da comunidade do Céu, esta síntese do contexto marajoara: "O mangue faz parte dos nossos quintais".
O envolvimento de Karina Gaia com essa realidade e manancial de conhecimentos ancestrais nas comunidades pesqueiras se deu, de modo especial, por causa do engajamento de sua mãe, Ivone Gaia. Assim, Karina realizou junto aos jovens das comunidades um circular fotográfico em 16 de julho de 2026. Foi, então, construído um olhar compartilhado com os jovens que vivem e conhecem aquele lugar.
Essas fotos fundamentam o projeto Maré Viva, projeto fotográfico de Karina Gaia, formado por dez fotografias documentais. A ação artística é um desdobramento visual e autoral da iniciativa social, comunitária e de pesquisa criada por Dona Ivone Gaia. “O ensaio fotográfico busca olhar para o Marajó não de fora, mas a partir de uma perspectiva de pertencimento”, como ressalta Karina Gaia. O projeto foi inscrito em um edital do Sesc Pará, como uma possibilidade de ampliar a circulação das imagens e levar esse trabalho para Belém. Enquanto as comunidades seguem nas águas e terras do Marajó, Karina Gaia prossegue fotografando a vida que grassa a partir do encontro entre seres humanos e o meio ambiente todos os dias.
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