Mutações do pensar ganham vida em ‘Ontem disseram que o mundo ia acabar’, novo livro de Ney Paiva
Livro será lançado nesta quarta (19), em Belém, no Núcleo de Criações Na Figueiredo, a partir das 20h
Pensar, refletir, apresenta-se como algo fora da ordem mundial, fora da caixinha nestes tempos de muita pressa, palavras abreviadas em sucessão nas redes sociais, violências contra todos e ausência notória de liberdade ou perseguição mercadológica em escala mundial. Portanto, mais do que nunca, pensar é um ato de liberdade. E é nesse contexto que chega o novo livro do poeta e artista visual paraense Ney Ferraz Paiva. O lançamento será nesta quarta-feira (18), a partir das 20h, no Núcleo de Conexões Na Figueiredo, em Belém.
Formado em Letras (UFPA), Ney Paiva nasceu em Belém e atua também como curador independente. Ele já publicou os livros de poesia: “Não era suicídio sobre a relva” (2000; 2023), “Nave do Nada” (2004), “Arrastar um landau debaixo d’água” (2015), “Poemas para Max Martins – Para ler depois da chuva (2017)” e “O desastre toma conta de tudo” (2019),. E, agora, publica “Ontem disseram que o mundo ia acabar” (2026).
Ney realizou as exposições “Um mundo onde Foucault possa reclinar a cabeça” (Belém: Galeria Theodoro Braga, 2014) e “A Hora Herzog” (Belém: Núcleo de Conexões Na Figueredo, 2022; Galeria Semente, Casa Na Mata, 2023). Como curador, organizou exposições de diversos artistas paraenses, incluindo Paulo Ponte Souza, Luiz Pinto, Petchó Silveira, Jair Tagore, Marinaldo Santos, Werner Souza e Dannoelly Cardoso.
Imagens
Esse artista das imagens explica o título de seu novo livro. “O livro ‘Ontem disseram que o mundo ia acabar’ não deixa de ser uma caixa onde tento recuperar imagens ‘fracassadas’ da filosofia de pós-guerra, da literatura combatente de Manuel Bandeira, Max Martins, Carolina Maria de Jesus, do Tropicalismo da arte performática de Hélio Oiticica. Tudo isso torna-se a matéria-prima para novas composições de uma poesia erma, mas que quer combate — transformando fragmentos descartados em histórias frescas contadas por meio de traços, objetos e conexões visuais inesperadas”.
O livro sai pela Mezanino Editorial, do poeta Marcílio Caldas Costa. “O livro é dividido em duas partes. A primeira parte inclui o livro ‘Ontem disseram que o mundo ia acabar’, que contém 38 poemas, seguido de ‘Heliocânticos Heliocênticos’, no qual reúno labirintos, palíndromos e emblemas relacionados à obra do artista plástico Hélio Oiticica, além de aspectos significativos que discuto sobre o Tropicalismo. Essa segunda parte contém 21 poemas”, detalha Ney.
Essa obra foi escrita no período de 2017 a 2022. “Fase de ascensão do fascismo no Brasil e no mundo. Esse aspecto político, para o artista, está presente desde o primeiro poema do livro, por meio de uma passagem forçada por onde ele não podia mais estar: “não vou conseguir chegar até você/ tem toque de recolher no bairro/ não quero a piedade do leitor/ encenando uma situação de vítima”. Esse pertencimento dos “problemas nacionais” e seus desdobramentos foram se tornando mais evidentes nos poemas, aos poucos foram ganhando tons agudos na perspectiva de quem não pertencia ao que, naquele momento, representava o senso comum e o recrudescimento do país”, conta o autor.
Pelo que se observa no mundo as pessoas dão mostras de estarem perdendo a capacidade de refletir, evitam ficar em silêncio para se ouvir e para ouvir o mundo, e seguem padronizadas e controladas, quase autômatas. O poeta compartilha dessa constatação.
“Há fortes indícios sociológicos, psicológicos e tecnológicos que sustentam essa observação. A sociedade contemporânea vive uma crise de atenção e reflexão, impulsionada pelo excesso de estímulos digitais e uma cultura de ‘piloto automático’. Essa condição tem paralelos claros tanto com a vigilância e manipulação de informações de ‘1984’ (George Orwell) quanto com a alienação prazerosa de ‘Admirável Mundo Novo’ ‘(Aldous Huxley)”.
Como pontua o autor, “a busca por prazer imediato, dopamina fácil nas redes sociais, entretenimento constante e o uso de substâncias ou distrações para evitar a reflexão sobre o ‘eu’ assemelha-se ao condicionamento e uso do ‘soma’ no livro, criando uma sociedade que se autocontrola através da superficialidade”.
“A vigilância não é apenas externa (estado/empresas), mas também interna e social, com a manipulação da verdade nas redes sociais e a ‘espiral do silêncio’, onde indivíduos se calam por medo de divergir da opinião padronizada”, acrescenta Ney Paiva.
Ele ressalta que “dados indicam um declínio na compreensão leitora e um aumento do analfabetismo funcional, com o cérebro acostumado a estímulos visuais rápidos, o que prejudica a reflexão de longo prazo que o poema suscita”.
Entretanto, como diz o poeta sobre o novo livro: “De poema a poema procuro encarar o fim como mutações intensas, e o colapso de formas antigas de vida e poder, de cultura que subsiste ou desaparece, tudo muitas vezes descrito como um ‘pós-apocalipse’ contínuo entre o século XX e o XXI onde a criação de novos modos de existência seja possível”.
Confira um dos poemas do livro:
enquanto caetano compõe alegria alegria
quando caetano e paulinho da viola se encontravam no solar da fossa/ eu estava na primeira fila para ouvir o choro e o samba/ dos quais não se safam os próprios marginais/ de ter a sensação de estripar uma galinha/ era um lugar incrível para se estar/ a música convocava aos riscos e abismos/ ferventes mensagens estatelavam os ouvidos/ com a voz de quem pretende parir/ no princípio as mulheres eram estrelas/ ou qualquer coisa de intermédio/ progredindo nas fileiras do poema/ profanatórias incidem nos excessos dos amantes/ estimulam evocam outros mistérios/ eu deveria estar atento ao tropicáustico movimento de ser quase dezembro/ a chuva caindo sobre nossas cabeças/ tem um jeito especial de entrar nos ossos/ corações páginas riscadas falas vãs/ explodiam ventos óvulos veias/ à espera de conversar com algum ditirambo dionisíaco/ que não vai aparecer/ senhoras e senhores coloco uma pedra sobre o assunto/ marilyn caminhando contra o vento/ nunca mais vamos ser vistos juntos/ nunca mais o retrato dela na carteira
Serviço:
Lançamento do livro “Ontem disseram que o mundo ia acabar”,
do poeta Ney Ferraz Paiva
Em 18 de março de 2026, às 20h
No Núcleo de Conexões Na Figueiredo,
na av. Gentil Bittencourt, 449, Belém (PA)
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