'Murais Coletivos Amazônicos': a arte ensina a ver outros lados da vida
Projeto em Belém possibilita a que pessoas cegas e com baixa visão tenham não somente acesso à arte, mas, também, confeccionam trabalhos artísticos
À primeira vista, uma pessoa cega ou com baixa visão ou uma outra com diferentes deficiências não poderia criar um trabalho artístico, tipo uma pintura mural. Mas, como a arte pode ser considerada como a linguagem da vida, isso é possível. É o que o projeto “Arte que Transforma – Murais Coletivos Amazônicos”, coordenado pela artista plástica paraense Mama Quilla, tem concretizado neste mês de fevereiro, em sua primeira edição. O projeto é pioneiro em muralismo e conta com o patrocínio pela Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), com apoio do Ministério da Cultura e do Governo do Estado do Pará.
O muralismo, como explica Mama Quilla, é uma linguagem artística realizada diretamente em paredes e espaços públicos, dialogando com o território, com a comunidade e com a cultura local. “É uma forma de levar a arte para o cotidiano das pessoas, transformando os espaços urbanos em lugares de encontro, memória e identidade”.
Como parte do projeto, já foram realizadas três oficinas de arte. Duas delas, de forma inclusiva, na Escola Estadual Lauro Sodré, nos dias 6 e 9 deste mês de fevereiro. Foram realizadas oficinas de produção de murais táteis e muralismo (pintura mural), ministradas por Mama Quilla. Os participantes produziram seus próprios trabalhos. Foram, então, confeccionados dois murais táteis.
Um desses murais foi levado para a Unidade de Educação Especial José Álvares de Azevedo, focada no atendimento de pessoas cegas e com baixa visão. Os estudantes da unidade de ensino puderam, então, ter acesso a novas experiências a partir dessa criação artística. Eles contaram, ainda, com uma oficina sobre criação tátil em biscuit e Braille, coordenada pelo artista plástico paraense Hugo Figueiredo, no último dia 11. Eles criaram junto uma escultura, com cada aluno confeccionando partes do corpo humano.
“É interessante entender a relação do Braille, que vai da parte para o todo, e a oficina de biscuit, em que fizemos, cada um, uma parte do corpo e demos origem a um ser”, diz o aluno Ronaldo Alex Raiol, do Instituto José Álvares de Azevedo. Ronaldo conta que o mural tátil na unidade de ensino possibilitou a ele relembrar a aninga (planta da região) que ele conhecia quando tinha visão, e também proporciona a quem nunca pôde ver ter essa experiência sensorial. Mama Quilla salienta que a troca entre as pessoas típicas e não típicas é decisiva para facilitar o acesso aos processos artísticos. Quanto mais experiências desse tipo, de contato com a arte, maior o conhecimento e o voo da imaginação de pessoas com deficiência, como atesta Ronaldo Raiol.
“A quarta oficina (também gratuita) será destinada somente para pessoas cegas no Instituto José Álvares de Azevedo, no dia 24 de fevereiro. Será sobre arte e pintura de forma imersiva, trabalhando experiências sensoriais a partir do tato, olfato e audição. Os alunos vão confeccionar suas obras de arte”, destaca Mama Quilla. Além disso, será realizada a instalação dos murais táteis, com recursos de acessibilidade em Braille e audiodescrição, ampliando o acesso do público à experiência artística.
Arte e educação
Ela conta que o projeto surgiu a partir do fato de Mama ser mãe atípica. No caso, de um menino de oito anos de idade com autismo.
“A ideia nasceu da minha vontade de democratizar o acesso à arte e, ao mesmo tempo, valorizar a cultura amazônica. Sempre senti que muitas pessoas ficam de fora das experiências artísticas, especialmente pessoas cegas e de baixa visão. O projeto surge desse desejo de criar práticas inclusivas, onde a arte possa ser vivenciada por outros sentidos, como o tato, e onde a cultura local também esteja presente nos temas, imagens e narrativas dos murais”.
Essa iniciativa reforça que a cultura amazônica pode ser vivenciada por todos “quando adotamos recursos e estratégias que ampliam o acesso à experiência artística”, como frisa a artista plástica.
Mama Quilla explica como tem sido possível a criação de trabalhos artísticos por parte de pessoas com deficiências. “A gente vai orientando as pessoas. Na próxima oficina sobre pintura, iremos trabalhar como cheiros da região e outros elementos”.
“No processo todo, com assessoramento de profissionais, os alunos vão trabalhando formas a partir do seu próprio corpo, por exemplo, como fazer uma escultura a partir do seu próprio nariz; no caso de um triângulo, mostra-se essa figura geométrica para eles, e outras ações”, destaca a artista plástica.
Esse processo, como frisa Mama Quilla, fundamenta-se o poder transformador da prática artística. “Minha trajetória é construída a partir da prática artística e do trabalho com educação. Tenho experiência em ministrar oficinas em comunidades ribeirinhas e periféricas, o que ampliou muito meu olhar sobre a potência da arte como ferramenta de transformação social. Ao longo do tempo, fui entendendo a arte não só como produção estética, mas como um espaço de encontro, troca e construção coletiva, sempre em diálogo com os territórios e com a cultura local”.
Para o segundo semestre de 2026, Mama Quilla pretende organizar uma mostra dos trabalhos confeccionados como parte do projeto. Outra ação é chegar com as atividades a diferentes bairros e espaços públicos, sempre com a proposta de levar a arte até as pessoas de forma democrática e inclusiva. “Eu fico muito feliz com os primeiros resultados do projeto e grata a todos os estudantes que participaram das atividades, mas vamos seguir em frente, com ações nos bairros levando os murais táteis nas ruas de Belém, com foco na nossa cultura e com acesso a todos”, reforça Mama Quilla.
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