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Memórias, história e cultura navegam em 'Esse rio é minha rua', de Ruy Antônio Barata

Livro de estreia desse filho do saudoso poeta Ruy Barata será na sexta-feira (6), às 18h, no Complexo dos Mercedários, no Centro Histórico de Belém

Eduardo Rocha

O verso “esse rio é minha rua”, do saudoso poeta santareno Ruy Barata (1920-1990) ganhou, além da versão impressa, uma amplitude transcontinental ao virar canção por Paulo André Barata (1946-2023, filho de Ruy) e ser imortalizada no primeiro álbum da cantora Fafá de Belém, o “Tamba-Tajá”. O disco foi lançado em 1976, em pleno período da Ditadura Militar no Brasil. Agora, são 50 anos do álbum com o verso musicado que serve de mote para um lançamento emblemático em Belém na próxima sexta-feira (6), às 18h, na Livraria da UFPA, no Complexo dos Mercedários, no centro histórico de Belém. É o livro ‘Esse rio é minha rua”, de autoria do médico Ruy Antônio Barata, filho de Ruy e irmão de Paulo André, que sai pela editora Paka-Tatu. 

Essa obra de estreia de Ruy funciona como uma espécie de autobiografia da Família Barata e da própria Cidade de Belém nas últimas décadas, com suas histórias culturais e políticas que emergem das páginas e surpreendem os leitores com imagens bem expressivas. E o fio condutor dessa narrativa é a sensibilidade de Ruy Antônio Barata, moldada desde cedo na casa dele, na convivência com quem sempre gostou de ler e de escrever sobre o mundo. 

"Fui criado numa casa entre livros e escritas de versos e prosa. O envolvimento de minha família nos teares da política e da cultura do Pará foi uma constante em nossa vida, entre golpes e contragolpes políticos e militares, desde a rebelião dos tenentes em 1924. O relato dessa experiência é o motor desta longa crônica de vida", afirma o autor.

No lançamento do livro, Ruy Antônio vai protagonizar uma sessão de autógrafos e um bate-papo com o público. Esse encontro vai servir como uma bela oportunidade para todos os cidadãos interessados em história, memória e literatura regional. Entretanto, a conversa principal mesmo vai ser a de cada leitor com o livro a partir de uma edição refinada.

Por falar no livro, nele Ruy se vale da arte literária para entrelaçar vivências pessoais e fatos que marcaram a história do Pará em 50 anos.  As memórias de família se expressam, então, em imagens que reúnem personagens, ruas, prédios, praças de Belém e pessoas, como os próprios Barata que transitam por vários espaços e paisagens do território amazônico.   

Ruy Antônio assume, então, a missão de contador de histórias: a participação da família dele nas lutas políticas, como à Ditadura Militar e às reminiscências do Baratismo. Nesse ofício, Ruy Antônio Barata mostra sua autonomia em um estilo refinado de escrita, sempre em sintonia com os saberes compartilhados com outros membros da família umbilicalmente relacionada às artes. 

“Havia nos rios, nas ruas e nas estantes da minha casa uma força silenciosa e sublime. Cada verso, cada discussão política, cada noite em que a cidade fervilhava de música, poesia e debate, alimentava um olhar que buscava compreender não apenas os fatos, mas a essência do tempo”, conta ele. “Crescemos entre a beleza da palavra e o peso da perseguição, e foi desse entrelaçamento que nasceu minha consciência de cidadão e escritor”, detalha o autor.

E o rio segue …

Com raízes em Óbidos (onde nasceu em 1944), Santarém e Belém, Ruy Antônio mostra com desenvoltura que o encontro entre as memórias afetiva e histórica pode e sempre gera ótimas histórias para se escrever e ler ou, de modo inverso, ler e escrever. A vivência pessoal pode coexistir com a experiência coletiva, como um rio volumoso a passar no tempo.

Ao ter Belém como companheira inspiradora e ouvinte não tão silenciosa de memórias agora reveladas, Ruy Antônio Barata destaca duas figuras centrais da família: o pai Ruy, poeta e militante comunista, e o irmão Paulo André, cantor e compositor de mão cheia. As vidas desses dois se abraçam com movimentos sociais e culturais no Pará, na Amazônia. Porta-vozes de uma família profundamente inserida na história regional.

“O Alarico (avô de Ruy Antônio) esteve sempre no olho do furacão. Foi perseguido pelos tenentes no Baixo Amazonas, quando a luta política se polarizava entre Magalhães Barata e o jornalista Paulo Maranhão, dono do jornal Folha do Norte, de Belém”, relata Ruy.

“Meu pai também teve participação intensa nos acontecimentos do Golpe Militar de 1964. Preso e perseguido pelos golpistas no Pará, foi demitido da Universidade Federal do Pará, onde lecionava na Faculdade de Filosofia, e também do cargo vitalício de escrivão do Cartório do 4° Ofício Cível de Belém. Ele teve que procurar outros meios de remuneração para sobreviver”, acrescenta o médico e escritor.

Ruy Antônio tem uma explicação meio lacônica sobre o título do livro. " ’Esse Rio é Minha Rua’ é um verso da canção de mesmo nome de autoria de meu pai Ruy Guilherme Barata em parceria com meu irmão, Paulo André Barata, e seu significado por si se explica". Em outras palavras, o verso traduz a Amazônia e toda sua vastidão em apenas cinco palavras. E mais: o livro de Ruy Antônio traz no título a palavra “rio” em vermelho de sangue e de luta, por exemplo. 

Ruy está certo. Versos não se explicam, são lacônicos mesmo. Mas dizem muito por meio das imagens sugeridas. Uma delas, como se depreende do livro, é a imagem poética de homenagear à família, à Cidade de Belém, ao amor e à liberdade. Todos nesse rio a seguir sempre na Amazônia do mundo e da vida.

 

Serviço:

Lançamento do livro ‘Esse rio é minha rua’, de Ruy Antônio Barata, com sessão de autógrafos

Dia: sexta-feira, 6 de março de 2026

Hora: a partir das 18h

Local: Espaço da Livraria da Editora UFPA, no Complexo dos Mercedários, em frente à Estação das Docas, em Belém.

Entrada franca