Loulu, filha de João Gilberto, estreia álbum e revela sua bossa no canto
Álbum ‘Loulu Gilberto’ já pode ser conferido nas plataformas digitais a partir desta quinta (21)
O canto expressa muitas vozes, muitas faces de uma pessoa. E isso se encontra de forma profunda e verdadeira no disco de estreia da cantora carioca Loulu Gilberto, 21 anos, filha mais nova do inesquecível João Gilberto (1931-2019), um dos maiores nomes da música brasileira, ou seja, o cara que deu o tom da Bossa Nova, com uma batida de violão inconfundível. Como não poderia ser diferente, Loulu (Luísa Carolina Gilberto) trouxe para o álbum intitulado com o nome dela toda a atmosfera da relação, da intimidade com o pai e da própria Bossa e outros ritmos como o samba-canção, o jazz (standards), o baião e cantigas de ninar, seja no jeito de cantar, seja nos arranjos que coroam as 13 faixas do disco. O disco “Loulu Gilberto” já pode ser conferido a partir desta quinta-feira (21) nas plataformas digitais.
Além disso, esse projeto de Loulu reforça o encontro que as novas gerações de talentos brasileiros e no mundo têm com esse gênero musical que reuniu gente como Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Ronaldo Bôscoli, Nara Leão, Astrud Gilberto, Carlos Lyra, Roberto Menescal e Maysa. Em outras palavras, novas vozes descobrem a Bossa e ela revela novos tons musicais.
Em "Loulu Gilberto" (pela gravadora Sonny), com produção musical de Cézar Mendes e Mario Adnet, a cantora mostra, por meio do repertório do álbum, muito do que se solidificou nela a partir da convivência com o pai, falecido há sete anos, aos 88 anos de idade. São canções que falam da memória paterna e o aprendizado na infância. Quando menina, Loulu foi acompanhada pelo violão de João, seu primeiro mestre, inúmeras vezes.
A respeito da motivação para lançar o disco, Loulu diz: "Tenho razões para acreditar que esse disco foi encomendado por forças maiores, daquelas que nossa vã filosofia nem sonha explicar. Falo da Estrela Dalva que daqui se mira. Essa, por sua vez, esperava ansiosa para que os astros se alinhassem de forma perfeita. Garanto, foi encomendação dela. Cezinha e Mario Adnet, os produtores do disco, foram seus agentes. Meu pai me dizia 'Vai ser cantora na América!'. Eu fazia cara feia, dizia que não, tentava fugir de todo jeito. Foi só quando ele partiu que percebi o quanto gostava de cantar, quanta falta me fazia. Era maior que eu. Você vê, os infalíveis e incontornáveis caminhos da vida. Ele me dizia e eu custava a crer".
"Cantar foi a forma que encontrei de manter a memória do meu pai viva em mim. Essas canções que escolhi falam dele, de mim, e da nossa história", destaca a cantora, para, em seguida, descrever a relação musical com João. "Ele era a música. Para viver com ele, tinha de viver a música junto. Eram seres indissociáveis".
Loulu considera que a Bossa Nova é mal compreendida. "Muita gente acha que é um movimento musical ou uma levada no violão, mas eu acredito que é algo maior que isso: é um estado de espírito. Quem entende isso, entende tudo". A cantora pretende sair em turnê no segundo semestre.
Ela avalia a primeira experiência de colocar a voz em um microfone em estúdio e, depois, ver esse trabalho em disco. "Foi mágico. Faz um ano e já me vejo diferente da menina que entrou pela primeira vez num estúdio de gravação e se apaixonou pelo barato de ouvir a voz saindo macia do microfone no pé do ouvido. Um ano. Eu tinha cabelos longos e cacheados, hoje está mais liso porque uso estilo Joãozinho. Cantar foi a forma que encontrei de cultivar em mim a memória, é muito especial poder dividir isso com as pessoas", ressalta.
Entrega
Nota-se no disco que o jeito de cantar e Loulu lembra o de João, como não poderia deixar de ser. E isso é um indicativo, um ponto de partida para novos voos a partir desse primeiro trabalho, contextualizado pelo amor da artista pelo ato de cantar. Assim, o samba-canção "Manias" (Flávio Cavalcanti/Celso Cavalcanti), gravada pela saudosa Dolores Duran em 1955, figura entre os destaques do disco. Sobre essa canção, Loulu diz: "É uma canção-cinema. Me provoca imagens vivas".
Como resgate de uma obra guardada da parceria entre Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli, a inédita "O Amor nos Encontrou" é marcante no álbum. Antes deste primeiro registro em estúdio, havia apenas uma gravação privada de João Gilberto. A canção exalta um enlace amoroso radiante, fiel à estética da Bossa Nova. Loulu canta músicas que aprendeu muito cedo em casa: os standards "Tea for Two" (Irving Caesar/Vincent Youmans) e "Mr. Sandman" (Pat Ballard), ou "Joujoux e Balangandãs" (Lamartine Babo), "Cuidado com o Andor" (Mario Lago/Marino Pinto) e "Dorme Que Eu Velo por Ti" (Mário Rossi/Roberto Martins).
As canções "O Amor Nos Encontrou", "Qui Nem Jiló" (Luiz Gonzaga/Humberto Teixeira), "Manias", "Duas Contas" (Garoto) e "Beija-me" (Mário Rossi/Roberto Martins) foram escolhidas a partir de uma pesquisa de gravações raras de João Gilberto descobertas na internet ou registradas por amigos e familiares. "Essas músicas estão num lugar da minha memória. Ele cantava e eu ouvia. Quando encontrei as gravações, para montar o repertório, soaram familiares", conta Loulu.
Essa evocação da infância fica ainda mais evidente com a gravação das cantigas populares "Cavalo-Marinho" e "Bicho Curutu", no final do disco. João cantava para ela à beira da cama, para niná-la. Loulu conta que a segunda cantiga contém palavras originais de João em torno de motivos folclóricos da Bahia. A cantora revela de vez sua admiração pelo álbum "Domingo" (1967), de Gal Costa e Caetano Veloso, dois fãs e seguidores musicais de João. Ela gravou, então, “Avarandado”, com um feat. de João.
Esse diálogo sonoro e repleto de recordações com o pai João Gilberto se evidencia desde a primeira faixa, "João", de Cézar Mendes e Arnaldo Antunes, com versos do quilate de: "Como se a rotação da terra fosse então/ Essa voz e esse violão", para traduzir a poética desse bom baiano bom de Bossa. "Loulu Gilberto" acaba sendo um mergulho em tudo o qeu a levou a amar canções e deseja ser cantora. "Se meu mundo tivesse um som, seria o som desse disco", destaca Loulu, nascida em 2004, filha de João com a jornalista Cláudia Faissol.
Ela perdeu o pai quando tinha 15 anos de idade. Porém, mas já tinha a sua sensibilidade musical estimulada pelo pai. Loulu relembra: "Quando ele faleceu, parei de cantar. Porque eu cantava com ele. E aquilo foi me fazendo uma falta tremenda. Pouco tempo antes de falecer, ele me levou ao Cezinha Mendes, porque queria que eu fizesse aula de violão. Eu não queria aprender violão de jeito nenhum".
Depois da morte de João, ela procurou o violonista e compositor Cézar Mendes (Grammy Latino 2021). Cézar a encaminhou para uma professora de canto. Loulu falou, certa feita, a Cézar que queria cantar e, depois, eles tiveram a ideia do disco. Foi quando, então, chamaram Mario Adnet, vencedor de dois Grammys Latinos e oito Prêmios da Música Brasileira, para pensar os arranjos. Ela conta que a decisão de cantar não foi algo fácil, ainda que os pais quisessem muito isso.