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Julio Le Parc, pioneiro da arte cinética, morre aos 97 anos

Ao longo de uma trajetória de quase sete décadas, Le Parc rompeu com convenções tradicionais ao propor obras que exigiam a participação ativa do espectador

Estadão Conteúdo

A arte contemporânea perdeu neste sábado, 30, um de seus nomes mais influentes. Morreu aos 97 anos o artista argentino Julio Le Parc, reconhecido internacionalmente por suas pesquisas com luz, cor e movimento e por sua contribuição decisiva para o desenvolvimento da arte cinética e óptica. A informação foi confirmada pela Galeria Nara Roesler, que representava o artista no Brasil desde 2001.

Em comunicado, a galeria destacou que Le Parc deixa um legado que "alterou profundamente a maneira como o público se relaciona com a arte", ressaltando sua importância na construção de novas formas de experiência artística e sua influência sobre gerações de artistas contemporâneos.

Ao longo de uma trajetória de quase sete décadas, Le Parc rompeu com convenções tradicionais ao propor obras que exigiam a participação ativa do espectador. Mais do que observar, o público era convidado a experimentar, interagir e se tornar parte da própria obra.

A da morte não foi divulgada, mas o artista enfrentava problemas de saúde nos últimos anos, incluindo internações recorrentes por insuficiência respiratória e as sequelas de um acidente vascular cerebral (AVC).

Um pioneiro da arte cinética

Nascido em Mendoza, na Argentina, em 23 de setembro de 1928, Julio viveu uma infância simples antes de iniciar sua formação artística em Buenos Aires. No final da década de 1950, mudou-se para Paris, cidade que se tornaria sua casa e o principal centro de sua produção criativa.

Foi na capital francesa que o artista se consolidou como uma das vozes mais inovadoras da vanguarda europeia. Em 1960, participou da fundação do Groupe de Recherche dArt Visuel (GRAV), coletivo que buscava desafiar os modelos tradicionais da arte e estimular uma relação mais dinâmica entre obra e espectador.

O grupo defendia a democratização da experiência artística e acreditava que a arte deveria ser acessível a todos, rompendo barreiras entre criadores e público.

Grande parte da produção de Le Parc foi dedicada à investigação das possibilidades visuais da luz, da cor e do movimento. Inicialmente trabalhando com pinturas e guaches, o artista passou a desenvolver estruturas cada vez mais complexas, incorporando materiais industriais, elementos suspensos e instalações imersivas.

Suas obras exploravam a instabilidade da percepção humana por meio de formas geométricas, reflexos e deslocamentos luminosos. Muitas delas criavam efeitos ópticos que mudavam conforme a posição do observador, transformando a experiência de cada visitante em algo único.

Com forte caráter experimental, seus trabalhos também carregavam uma dimensão lúdica, aproximando pessoas sem formação artística do universo da arte contemporânea.

Reconhecimento internacional

A relevância de sua produção foi reconhecida mundialmente em 1966, quando recebeu o Grande Prêmio Internacional de Pintura da Bienal de Veneza, uma das mais importantes distinções do circuito artístico global.

Ao longo das décadas seguintes, suas obras passaram a integrar importantes coleções e foram exibidas em instituições de referência, como o Centre Pompidou, em Paris, o Museum of Modern Art (MoMA), em Nova York, e a Tate, em Londres.

Nos últimos anos, grandes retrospectivas revisitaram sua trajetória, incluindo a exposição Julio Le Parc: Da Forma à Ação, realizada no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, em 2017, além de mostras no Met Breuer, em Nova York, e na Serpentine Galleries, em Londres.

A relação com o Brasil

A presença de Le Parc no cenário artístico brasileiro foi fortalecida a partir de sua parceria com a galerista Nara Roesler, iniciada em 1999 e oficializada em 2001.

Desde então, a galeria realizou 18 exposições dedicadas ao artista em São Paulo, Rio de Janeiro e Nova York, contribuindo para ampliar sua visibilidade junto ao público brasileiro.

"Julio não era apenas um mestre da arte cinética, mas também uma alma generosa que inspirou e guiou aqueles ao seu redor. Sua paixão pela criatividade e sua habilidade em transformar luz e movimento em experiências visuais inesquecíveis tocaram a vida de muitos", afirmou.

Mesmo aos 97 anos, Le Parc seguia envolvido em projetos importantes. Uma grande retrospectiva de sua obra, intitulada Julio Le Parc: Light. Colour. Action., tem abertura prevista para este mês na Tate Modern, em Londres, reunindo trabalhos produzidos ao longo de sua extensa carreira.