Grande Rio leva o Manguebeat para a Sapucaí com toque paraense no samba-enredo
Terceira a se apresentar nesta terça (17), agremiação tem entre autores do samba-enredo os compositores Ailson Picanço e Marcelo Moraes
A cultura da periferia das cidades do Nordeste e do Norte do Brasil, traduzida pelo Movimento Manguebeat, é tema da escola de samba Acadêmicos da Grande Rio, que se apresenta no desfile oficial da capital carioca nesta Terça-Feira de Carnaval no Rio de Janeiro, com um toque paraense. O samba-enredo “A Nação do Mangue” reúne os compositores paraenses Ailson Picanço e Marcelo Moraes em parceria com Marquinho Paloma, Davison Wendel, Xande Pieroni.
Em 2025, a escola de samba desfilou na avenida com o samba-enredo “Pororocas Parawaras: As Águas dos Meus Encantos nas Contas dos Curimbós", de autoria de Mestre Damasceno, Ailson Picanço, Davison Jaime, Tay Coelho e Marcelo Moraes. A escola mostrou os encantos do Pará em plena Amazônia e conquistou o vice-campeonato.
Mestre Damasceno, um dos autores desse samba, faleceu em 26 de agosto de 2025, aos 71 anos de idade e com todo um legado à cultura amazônica. Já Ailson Picanço e Marcelo Moraes tornaram-se bicampeões de samba-enredo na escola de samba em 2026.
“Este ano está completando dez anos que eu disputo samba-enredo, especialmente na Beija-Flor, no Porto da Pedra e mais recentemente no Acadêmicos da Grande Rio. Iniciei na Beija-Flor para o Carnaval de 2017, enredo de “Iracema”, muito apoiado e aprendendo muito com saudoso Laíla, naquela ocasião”, ressalta Ailson Picanço.
O sambista conta que permaneceu em 2018 Ailson começou a disputar pela escola Porto da Pedra, e por três oportunidades ele e os amigos compositores sagraram-se campeões: no enredo sobre Mãe Stella; no retorno da escola ao Grupo Especial com “Lunário Perpétuo” e no enredo sobre Fordlândia.
“Na Beija-Flor, vencemos no ano passado, fomos campeões do Carnaval e conquistamos o prêmio máximo de samba-enredo, que é o Estandarte de Ouro. Somos atualmente bicampeões de samba-enredo da Acadêmicos da Grande Rio. No ano passado, falamos sobre o Estado do Pará, o ‘Pororoca Parawaras’ e, este ano, sobre ‘A Nação do Mangue’, movimento mangue beat, para o Carnaval de 2026”, diz Ailson Picanço.
Revolução
Para Marcelo Moraes, existem diferenças e grandes similaridades também nos enredos da Grande Rio em 2025 e em 2026. “Saímos de um enredo ‘Pororocas Parawaras’ , que embora também tenha sido desenvolvido em sua essência, num processo de oralidade, ele aborda uma história que navega pelo misticismo, pela religiosidade e a sua influência nos nossos ritmos amazônicos. Já o enredo ‘A Nação do Mangue’ nos levou para um processo de criação tendo como foco um samba em forma de manifesto, processo este que passa pelos manguezais sagrados de Pernambuco e sua relação com o surgimento do Movimento Manguebeat”, destaca Marcelo Moraes.
“Constrói-se aqui uma narrativa pautada na vida de agentes importantes que habitam as margens desses manguezais, cenário extremamente desigual, passando também pelos seus festejos e ritmos, e, por fim, como essa temática é reprocessada pelo movimento, num discurso altamente crítico que tem a cultura periférica, como figura central como símbolo de transformação política e social do nosso povo”.
Os compositores tiveram de trabalhar a partir dessa sonoridade híbrida e ‘parabólica do Mangubeat para a métrica de um samba-enredo. O samba-enredo buscou evidenciar imagens e gírias do Manguebeat, para evidenciar “a identidade e a magia que o enredo pede”. Assim, surgem na letra do samba: “Eu sou do mangue” , “filho da periferia”, e “Manamauê Maracatu” que simboliza uma saudação ao Manguebeat - “Manamauê” é uma expressão muito utilizada na canção “Maracatu Atômico” gravada por Chico e Nação Zumbi em 1996, composta por Jorge Mautner e Nelson Jacobina.
Outra expressão no samba-enredo é “A revolução já começou”. “Inserimos a expressão com o objetivo de ratificar toda a linguagem e a mensagem trazida pelo Movimento Manguebeat , destacando a importância da cultura periférica como agente transformador da nossa realidade política e social” finaliza Marcelo Moraes, no Carnaval do Rio, com dois sambas vencedores no Porta da Pedra. Para esse compositor, vencer na escolha do samba-enredo da Grande Rio pela segunda vez, disputando com gente como Xanddy de Pilares, Diogo Nogueira e Arlindinho, resulta de a composição ter a identidade que o enredo pede, o caráter crítico (manifesto) que a letra evidencia”.
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