Gilberto Gil se apresenta em Belém com turnê 'Tempo Rei'
O penúltimo show da turnê de despedida do compositor une história e emoção e traz participação surpresa
Griô, nas culturas africanas, é a palavra que define o contador de histórias da sociedade, a figura responsável pela transmissão de conhecimentos. O cantor e compositor Gilberto Gil, com mais de 60 anos de carreira musical, encarna poeticamente essa figura no espetáculo da turnê de sua despedida das grandes excursões. Tempo Rei, que chega a Belém neste sábado, 21, às 21h, no Hangar – Centro de Convenções, pode ser entendido como uma grande narrativa sobre o caminho de um poeta.
Com canções de diversas fases de sua obra, Gil volta a Belém após 16 anos – a última vez foi em 2010, com o show “Fé na Festa” – e traz ao palco os filhos, netos, companheiros músicos e uma participação especial surpresa, como fez em todas as cidades por onde passou. Belém receberá o penúltimo show da circulação, que encerra em São Paulo, no dia 28 de março.
Chris Fuscaldo, jornalista e escritora, e Jotabê Medeiros, também autor e jornalista, são dois dos mais respeitados profissionais da imprensa do Brasil na área de cultura, e falaram com exclusividade ao Grupo Liberal sobre a turnê e os significados da trajetória artística do baiano.
Chris, que é autora do livro “Refazenda – O interior floresce na abertura da fase ‘Re’ de Gilberto Gil”, e curadora do museu virtual "O Ritmo de Gil", lançado no Google Arts & Culture em 2022, afirma que o show faz o público pensar sobre o Brasil a partir de um artista que é “a cara” do país. "A turnê Tempo Rei leva a gente de volta ao interior da Bahia - onde Gil cresceu -, aos tempos da ditadura - que atingiu ele diretamente -, aos tempos modernos... Sim, é um show que nos faz repensar o Brasil a partir da história de um artista que é a cara do Brasil. Homem preto, nordestino, músico, ativista, político”, define a escritora.
“Atemporal”, para Chris Fuscaldo, é a palavra que explica a relevância do compositor ao longo das décadas de trabalho. “Sua música conversa com todo tipo de gente, atende a todo tipo de gosto. Ele experimentou vários estilos musicais, abordou diversos temas e foi do amor à política, passando pela ciência e pela tecnologia. Não tem como não se identificar com alguma fase ou disco dele. Eu, particularmente, me identifico com todas (as fases) e todos (os discos)”, diz a jornalista.
Sobre o formato da turnê, ela avalia que a inspiração pode ter vindo de outro grande nome da música brasileira: o amigo e parceiro Milton Nascimento. “Lá nos anos 1980, a banda RPM já subia ao palco com luzes e equipamentos de ponta para seus shows. Nos anos 1990/2000, Sandy & Junior catapultaram esse formato. E já faz tempo que nomes como Marisa Monte levam ao palco muito mais do que só música. Gil também já faz shows grandes e espetaculosos há muito tempo. Acho que o diferencial agora é ele estar fazendo uma retrospectiva de sua carreira em um show que se propõe a contar a sua história. Acho que o show de Milton Nascimento, uns três anos atrás, inspirou muitos dos nossos ícones”, avalia.
Jotabê Medeiros, autor de livros sobre nomes importantes da música, como Belchior (“Apenas um rapaz latino-americano”) e Raul Seixas (“Não diga que a canção está perdida”), enxerga como um destaque a marca de cerca de 700 mil espectadores que Gilberto Gil tem alcançado com Tempo Rei. “Do ponto de vista do mercado, é algo singular. Hoje, é possível contar nos dedos de uma mão os artistas brasileiros que conseguem reunir públicos superiores a 50 mil pessoas numa única noite. Gil está conseguindo chegar aos 700 mil espectadores aos 83 anos. É uma façanha”, analisa. Pelas características simbólicas do show, Jotabê vai longe na reflexão sobre os aspectos históricos e culturais que tomam o palco ao longo das 30 canções escolhidas, e explica a razão de Gil ser um griô.
"Gil apresenta a diáspora de sua música no interior da própria família. Ele apresenta uma utopia: a da música como elemento harmonioso do amálgama cultural. Reintroduz o mito do griô no ritmo da contemporaneidade, a figura do griô como transmissor da memória, guardião da ancestralidade, da potência das expressões da comunidade como força de coesão e democracia.Acredito que há um discurso sendo ‘lido’, sendo oferecido às distintas gerações das plateias, que podem a partir dali fazer disso um estribo para subir no novo bonde da hipertecnologia, sem esquecer os fundamentos do humanismo”, afirma Jotabê.
Repertório
No dia 18 de julho de 2025, a reportagem do Grupo Liberal entrevistou com exclusividade Gilberto Gil, por telefone. Dois dias antes do falecimento da filha Preta Gil, que seria o motivo para o adiamento do show em Belém (antes anunciado para o dia 9 de agosto daquele ano), Gil lembrou o principal critério para a formação do repertório: o sucesso. “A canção ‘Palco’. A canção ‘Toda menina baiana’ A canção ‘Andar com fé’. Por terem feito sucesso, marcaram fortemente a relação entre mim e o público. O sucesso é um sinal de que a canção chegou, que se estabeleceu, que foi absorvida, que foi apreciada pelo público. Eu mesmo tenho muitas canções que não foram grandes sucessos e que são preciosas para mim e que me interessam muito, por muitas razões, mas que não tinha condição de colocar todas elas em um show desse tipo. Um show que já é longo. Duas horas e meia. E, então, o primeiro critério mais prevalente foi esse: de canções que ganharam um espaço amplo no afeto popular, na receptividade do público”, explicou.
Com direção artística de Rafael Dragaud, direção musical de Bem Gil e José Gil, o show traz em sua banda: Bem Gil (guitarra/baixo), José Gil (bateria), João Gil (guitarra/baixo), Nara Gil (voz), Mariá Pinkusfeld (voz), Diogo Gomes (sopro), Thiago Oliveira (sopro), Marlon Sette (sopro), Danilo Andrade (teclado), Leonardo Reis (percussão), Gustavo Di Dalva (percussão), Mestrinho (sanfona) e ainda um quarteto de cordas.
SERVIÇO
Show da turnê Tempo Rei
Data: Hangar
Abertura dos portões: 18h
Início do show: 21h