Filme ‘Quem Quer?’ expõe em Belém a saga de ser cidadão indígena no Brasil
Curta-metragem será exibido pela primeira vez, na UFPA, nesta quarta (11) e trata do apagamento da identidade indígena e da política de cotas para ingresso no ensino superior
Um povo tem como parâmetro estrutural a sua identidade que é formada por tudo que diferencia essas pessoas de outras no mundo, ou seja, a sua cultura. E, então, o que fazer quando essa identidade, essa cultura, está ameaçada? É sobre isso que trata do curta-metragem “Quem quer?”, da cineasta indígena paraense Célia Maracajá, que terá sua primeira exibição pública na Universidade Federal do Pará (UFPA) nesta quarta-feira (11), às 16h, na Sala de Projeção da Faculdade de Artes Visuais do Instituto de Ciências das Artes.
Esse filme-manifesto, realizado com recursos do edital estadual da Lei Paulo Gustavo, traz uma reflexão urgente sobre o apagamento do pertencimento étnico-racial das populações indígenas que sobrevivem fora dos territórios demarcados e se propõe a discutir a política de cotas e o estatuto da igualdade racial, a partir da perspectiva do movimento indígena de retomada no contexto urbano.
Isso em meio à controvérsia sobre a tentativa do Governo de Santa Catarina de proibir as cotas raciais, medida revogada por decisão da Justiça do Estado apenas cinco dias após ser promulgada pelo governador Jorginho Melo (PL). E ainda o aumento de casos como o de Luiz Gustavo Borges, estudante de ascendência indígena de 18 anos, desclassificado pela banca de heteroidentificação do vestibular para o curso de Educação Física da Universidade Federal do Mato Grosso, ao tentar concorrer às cotas para pardos.
Finalizado em 2025, “Quem quer?” insere-se no contexto de que em 2023 a Lei Paulo Gustavo disponibilizou um investimento de R$ 165,3 milhões para a execução de ações e projetos culturais por todo o Estado do Pará, sendo R$ 91,7 milhões gerenciados diretamente pelo governo estadual, por meio da Secretaria de Cultura, e outros R$ 73,6 milhões pelos municípios paraenses, como repassa a produção do filme. Trabalho esse que busca contribuir como os debates públicos sobre letramento racial, promoção da igualdade e a luta dos povos indígenas.
Invisibilizados
O filme narra a história em que Dandara (Jéssica Lorena) é uma jovem indígena desaldeada que, por ter nascido e crescido na periferia da cidade, vivencia um dilema entre a afirmação de sua ancestralidade e a sonhada vaga em uma universidade pública.
“ ‘Quem Quer?’ vem contribuir para que a sociedade brasileira entenda que as identidades indígenas não se definem apenas pela sua localização territorial, mas, também, pela nossa ancestralidade, cultura e história”, ressalta a diretora Célia Maracajá.
Já Porakê Munduruku, que assina o roteiro do filme, diz: “ A legislação brasileira considera pessoas pardas como parte da população negra e, na prática, restringe a identidade indígena ao vínculo com os territórios demarcados. Essa situação resulta no fato de que a ampla maioria das pessoas que se reconhecem indígenas no Brasil não conseguem acessar políticas afirmativas por não possuírem vínculo formal com territórios demarcados e por não serem negras, uma vez que, segundo o Censo do IBGE de 2022, 63,27% dos indígenas brasileiros residem fora dos territórios indígenas reconhecidos pelo Estado Brasileiro”.
“Os avanços do movimento negro nas últimas décadas demonstra a importância e a eficácia das politicas afirmativas na redução das desigualdades e na promoção do acesso à educação, trabalho e outros direitos fundamentais. Infelizmente, tais avanços não se replicam de forma automática para nós, pessoas indígenas. O Censo do IBGE de 2022, por exemplo, revelou também que o rendimento nominal mensal de trabalhadores indígenas é 18,34% menor do que a renda de trabalhadores pretos”, enfatiza Munduruku.
“Além disso, o recorte populacional indígena concentra o maior índice de pessoas sem acesso a serviços básicos de saneamento, saúde e educação, que se refletem nos piores indicadores de alfabetização, mortalidade infantil e expectativa de vida dentre todas as categorias raciais brasileiras. Inspirados pelas lutas e conquistas do movimento negro, nós, indígenas em retomada no contexto urbano também estamos nos mobilizando para exigir do poder público políticas afirmativas como as cotas”, complementa o roteirista de “Quem Quer?”.
Moradora da comunidade do Riacho Doce, Jéssica Lorena, atriz e protagonista do curta, participará da exibição do curta na UFPA. Logo após a projeção do filme, será realizada uma roda de conversa para discussão acerca de questões como o acesso da população periférica à universidade e, ainda, sobre a invisibilidade da população indígena que reside na periferia de Belém.
Célia Maracajá é cineasta, atriz e produtora. Iniciou sua carreira na década de 1970. Ela é uma das precursoras da produção teatral e audiovisual indígena no Brasil. Possui uma trajetória profundamente ligada às lutas sociais, à cultura amazônica e ao fortalecimento do cinema e do teatro na região.
Serviço:
Exibição gratuita e aberta ao público do curta “Quem Quer?”
Em 11 de fevereiro de 2026, às 16h
Na Sala de Projeção da Faculdade de
Artes Visuais do Campus da UFPA,
no bairro do Guamá
Seguida por roda de conversa
com a presença de Porakê Munduruku,
roteirista do projeto, e Jéssica Lorena,
protagonista do curta-metragem.
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