Eduardo Barbosa conta no ‘Mangueirosamente’ como flui a seiva da música na Amazônia
Produtor cultural conversa com o apresentador Ismaelino Pinto acerca do contrabando de discos vindos do Caribe para Belém e discorre sobre a produção musical nos bairros de Belém, entre outros assuntos
Em um bate-papo descontraído, mas, sobretudo, musical, o músico e produtor cultural Eduardo Barbosa, do Lambada Social Club, conhecido pelos projetos Noites de Lambada e Roda de Lambada, é o entrevistado do videocast ‘Mangueirosamente’ no Portal OLiberal.com e no Canal O Liberal no Youtube, a partir das 19h desta sexta-feira (10). Ao apresentador Ismaelino Pinto, Eduardo fala da relação intensa dele com a música. Tanto que faz mestrado em “Música da Amazônia”, com foco no contrabando de discos em vinil no Porto de Belém criado no contexto da Belle Époque. No começo do Século XX, com a chegada dos barbadianos para trabalhar na capital paraense e a movimentação de saída de marinheiros de Belém para trabalhar no Caribe e vice-versa, chegavam, então, ao Pará discos da América Central.
Alguns controlistas, antigos DJs, gostaram e disseram para os marinheiros trazerem mais discos mediante pagamento. Vinha, então, muito merengue, mambo, bolero. Eduardo conta que Belém tem dois caribes: o primeiro hispânico, com bolero, merengue e mambo; e um segundo, chamado de “francófono”, com zouk, cadence lipso e konpa.
O pesquisador aprofunda o trabalho dele justamente sobre essa troca cultural. Na conversa com Ismaelino Pinto, o produtor cultural destaca que naquela época não havia produção fonográfica de carimbó. Esse gênero musical começou a ser gravado nos anos 1970, por intermédio de Verequete, com um carimbó marcado por um sotaque africano, e Pinduca, com um som mais eletrificado que abriu fronteiras para a música paraense.
Eduardo Barbosa, formado em Música pela Universidade do Estado do Pará (Uepa), repassa que está focado de corpo e alma no mestrado. “O título é ‘O Contrabando de Discos nos Portos de Belém durante o século XX, a construção de um imaginário caribenho’.
“Eu estou querendo apontar nessa pesquisa que estou iniciando que o contrabando foi o principal vetor dessa música do Caribe que se alocou aqui nas periferias, que se espalhou pelos bailes e começou a modificar a dança, começou a fazer a gente pensar a música de uma maneira diferente, influenciando artistas, produtores, frequentadores de festas, controlistas. Então, assim, como esse Caribe chegou?”, interroga o músico.
Fora a divulgação pelas rádios da música vinda do Caribe aos belenenses, Eduardo pesquisa sobre como esse material acabava tocando em festas na cidade, pois, para isso, era necessário ter discos. Essa interação com os ritmos caribenhos influenciou toda a sonoridade paraense.
Sons das entranhas
A música produzida e vivenciada por gente que mora nos bairros periféricos de Belém mexe com Eduardo Barbosa. Ele fala no videocast sobre essa cultura que invade as sedes como espaços de shows e de socialização e geral entre os moradores das áreas. Essa cultura é disseminada entre pessoas de várias gerações, inclusive, desde os tempos dos sonoros, precursores das aparelhagens. Um dos artistas emblemáticos nesse processo foi Oswaldo Oliveira, o conhecidíssimo Vavá da Matinha. Ele foi o primeiro a gravar merengue, como conta Eduardo Barbosa.
Ao discorrer sobre o brega, um gênero musical que identifica de cara o paraense, Eduardo ressalta: “O brega é um cancioneiro popular, né? É uma canção que narra o cotidiano do trabalhador. E eu acho que é por isso também que tem muita aderência, porque é uma música feita de trabalhador para trabalhador”.
Eduardo pontua que a lambada é “o nosso maior gênero musical”. Ele diz que, quando a lambada estourou no Brasil e no mundo, surgiram vários “pais”. Mas, para esse pesquisador, a lambada “é um gênero musical paraense”. Ele aponta que o primeiro registro que se tem de lambada é de ‘1976, com um álbum de Pinduca, e o segundo, em 1978, de Mestre Vieira com o álbum “Lambadas das Quebradas”. Entre outros tópicos, o pesquisador conta como Mestre Vieira montou uma guitarra com pedaços do instrumento e criou o gênero musical, a guitarrada. Essas e outras histórias sobre a música produzida na Amazônia, o público pode conferir no “Mangueirosamente” a partir das 19h desta sexta-feira (10) no Portal OLiberal.com e no Canal O Liberal no YouTube.
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