Dia do Cinema Brasileiro: hora e vez da tela amazônica
Em meio a desafios gigantescos, cineastas paraenses não esmorecem na proposta de contar histórias da região para o mundo
Quem acompanha a trajetória do cinema do Brasil já deve ter percebido que, nas últimas décadas, a produção amazônica tem conquistado visibilidade cada vez maior no cenário nacional e internacional. Claro que os desafios para que filmes confeccionados no Pará e em outros pontos do bioma ainda são gigantescos, mas não maiores que a vontade, a persistência e o amor à arte por parte dos cineastas da região. No Dia do Cinema Brasileiro, neste 19 de junho, vale a pena refletir sobre esses artistas abnegados que constroem trabalhos enfocando a realidade de quem vive sob a égide da grande na floresta e nunca desistem de contar histórias emocionantes nas telas.
Em atividade intensa com diversas áreas, incluindo cinema e audiovisual, desde 2014, o cineasta, escritor e jornalista paraense Ismael Machado está envolvido na edição da série documental “Moda Sustentável na Amazônia, um projeto feito em parceria com Andreia Rezende e que obteve patrocínio da Lei Aldir Blanc. Ele também atua na finalização de seu primeiro longa-metragem de ficção, o “Flashdance TF”, previsto para ir para os cinemas no ano que vem.
Ismael observa que os cineastas do Pará e da Amazônia buscam uma linguagem própria, “uma voz própria que se diferencie dentro desse manancial de produções que existem no Brasil”.
“A gente precisa contar nossas histórias”, enfatiza Ismael Machado. Ele constata dois caminhos do cinema na Amazônia. “Tem um grupo que está correndo muito por essas histórias das tradições, dos mitos, das lendas, das histórias fantásticas, dessa Amazônia mítica, imaginária. E tem outro grupo correndo atrás das questões contemporâneas, territoriais, agrárias, urbanas, tentando colocar aí essas questões dentro de uma filmografia”, destaca Ismael. Falar do seu território, da sua gente, em um filme é a conquista maior, como pontua esse cineasta. É um desafio para o cinema regional alcançar outros mercados, outros recursos, para viabilizar produções.
A Amazônia mostra-se como um terreno fértil, uma várzea, para a arte cinematográfica, com suas nuances históricas e culturais. Ismael Machado ressalta que “a Amazônia é o único lugar do mundo em que eu acho que a história ainda está sendo contada”. “A história, quando eu digo assim, a história em termos de sociedade, é o único lugar do mundo”. Essa região, como diz o cineasta, “é o único lugar onde a centralidade das discussões históricas, climáticas, ambientais, sociais e outras, onde o futuro da humanidade se centraliza”. “A Amazônia é o terreno mais fértil para esse tipo de história. Então, assim, a Amazônia é o centro do mundo e deveria estar no centro do mundo, entre outras coisas, na produção cultural”, acrescenta, defendendo o protagonismo dos amazônidas em contar as suas próprias histórias.
Construção
E essas histórias começam pelos próprios cineastas, como é o caso de Adriana de Faria. Ela sempre gostou de escrever e enquanto estava no curso de Publicidade fez cursos de roteiro e se interessou por essa área. “Aí, quando eu terminei a faculdade, eu já estava dentro de um estágio na Marahu Filmes, que é uma das produtoras aqui de Belém. Então, eu comecei sendo roteirista e, depois de uns quatro anos, eu comecei a dirigir minhas próprias obras e produzir as minhas obras também”, conta Adriana.
Ela já dirigiu três curtas-metragens e uma série documental. “E atualmente eu estou escrevendo o meu primeiro longa-metragem de ficção e também o primeiro longa-metragem de ficção da Marahu Filmes”, destaca Adriana de Faria.
Para essa cineasta da Amazônia, o principal desafio para se fazer cinema é o financiamento das obras, a captação de recursos. “Nós não temos tantas políticas públicas, nós não temos fundo de cultura estadual, nem lei do audiovisual, que seria a Lei Milton Mendonça. Ela está há dez anos para ser regulamentada. Então, isso cria uma grande distância entre o nosso e os demais estados, por exemplo, do Nordeste, ou do próprio eixo, o Rio-São Paulo, que já tem uma política pública consolidada, não só para o audiovisual, mas para a cultura como um todo”.
“Eu acredito que, para superar esse desafio, a gente precisa se unir enquanto setor, se envolver politicamente, se organizar, para a gente, enquanto sociedade civil, poder reivindicar essas políticas, poder estruturar, estar próximo, organizando os editais, fiscalizando assim que saem os editais. Para entender se eles estão cumprindo os critérios necessários, se eles estão fazendo boas divisões das categorias que abarquem os diferentes níveis de carreira”, pontua Adriana.
“Então, é uma construção que já vem de muito tempo, de pelo menos 25 anos. A gente está falando das primeiras gerações do cinema paraense, mas que agora a gente está conseguindo. Tivemos a Aldir Blanc, a Lei Paulo Gustavo, e a ideia é continuar lutando politicamente para que a gente possa desenvolver nosso trabalho e mostrar o quanto a indústria cinematográfica é um grande gerador de símbolos culturais, mas também de geração de renda, de trabalho, de fazer movimentar a economia, que eu acho que essa é uma visão que os nossos governantes ainda não possuem”, conclui a cineasta.
A cara da gente
A cineasta Jorane Castro destaca que, ao se fazer um filme na Amazônia, “a gente leva junto com o que a gente constrói a narrativa, o universo, o personagem, o diálogo, a gente leva também a história da Amazônia, a gente leva o lugar da gente junto”. “Então, essa é que é a nossa realidade, a importância de fazer cinema”.
Jorane ressalta ser importante nesse processo não cair nos estereótipos, de ver a Amazônia como sempre um lugar de mazelas, de coisas ruins, de histórias trágicas. Desse modo, trata-se de ver a Amazônia sob outro prisma. “E só o cinema feito na Amazônia ajuda a gente a mudar um pouquinho essa visão estereotipada que se diz ainda aqui da região”, diz Jorane.
Essa cineasta fez seu primeiro filme profissional em 2000. Ela responde por inúmeros curtas-metragens, ficção, documentário e seis longas-metragens . Em 2026, Jorane vai filmar o seu próximo longa-metragem: “Leona - Nasce Uma Estrela”, baseado na história da Leona Vingativa, uma mulher trans que se notabiliza como influencer e atriz paraense.
Jorane repassa que o público pode conferir filmes nacionais na Tela Brasil, plataforma aberta pelo Governo Federal. Os trabalhos dessa cineasta podem ser conferidos no Canal Cabloca Filmes no YouTube. Jorane diz que não se vê fazendo outra coisa do que dirigindo filmes. Assim como ela, muitos outros cineastas amazônicos, brasileiros. Ainda bem.
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