Célia Maracajá conta ao ‘Mangueirosamente’ o que é ser uma cineasta indígena
Em conversa com o apresentador Ismaelino Pinto, a cineasta, produtora e atriz narra histórias do filme de sua vida
“Quando eu era criança, brincava de cinema”. A frase foi dita por Célia Maracajá, momentos antes de começar a ser entrevistada pelo jornalista Ismaelino Pinto no videocast “Mangueirosamente” que o público pode conferir nesta sexta-feira (5), a partir das 19h no portal OLiberal.com e no canal O Liberal no YouTube. A colocação de Célia revela toda relação umbilical que ela mantém com a chamada Sétima Arte. Essa mulher da etnia Paresi, nascida em Bela Vista (MS) apresenta-se de fato como uma “onça”, simbolizando o sobrenome “Maracajá”. Essa alusão ao felino vem desde os tempos da avó de Célia e foi reforçada quando a atriz chegou, certa vez, a uma aldeia do povo Gavião, no Sul do Pará. Mamãe Grande, liderança indígena avistou Célia e disse com relação a ela: “Krentire!”, que quer dizer “onça”. Essas imagens e outras imagens da vida Célia detalha a Ismaelino no programa, em um bate-papo de duas pessoas sempre apaixonadas por cinema.
Célia Maracajá atuou no filme “Ladrões de Cinema” (1977), do diretor Fernando Coni Campos, como ressalta Ismaelino Pinto ao participar do recente Festival de Cinema É Tudo Verdade. Entretanto, essa atuação de Célia dentro e fora das telas começou, na verdade, no teatro, como ela conta no “Mangueirosamente”. É uma trajetória de muito aprendizado com o Teatro de Arena, ainda com Augusto Boal e Heleny Guariba, e com o Teatro Oficina, trabalhando com José Celso Martinez Corrêa. Isso nos anos 1970.
Na sequência, Célia conhece o povo do cinema, em especial, Fernando Coni Campos, que a convida para filmar “Ladrões de Cinema”. Fernando teve uma vida breve, mas deixou um legado imorredouro ao cinema brasileiro. Célia lembra que esse cineasta chegou a vir a Belém há quando da exibição do filme “O Mágico e o Delegado” (1983), por iniciativa dessa amiga. Nessa época, Célia já estava em Belém e trabalhava na UFPA. E essa chegada de Célia à capital paraense se deu quando a atriz veio no elenco do espetáculo “A Ópera do Malandro”. Célia Maracajá conta que se encantou com a Cidade das Mangueiras e manifestou a intenção de não mais deixar a cidade.
Célia e amigos tinham mesmo como intenção seguir para Paris. Contudo, acabaram virando protagonistas de uma história surpreendente e curiosa; Eles seguiram em um avião de um desconhecido para Santarém, no oeste do Pará, e acabaram em um garimpo, em plenos anos 1980. Dessa ida para a terra do escritor Ruy Barata, Célia não esquece.
“Foi a primeira vez que eu vi, assim, o Rio Amazonas, do alto. Aquela floresta maravilhosa. Só tinha um um ipê amarelo, todo florido no meio daquele verde sensacional. Eu fiquei aos prantos quando eu vi aquilo que eu falei: ‘Meu Deus, que coisa mais linda’’. Me lembrava Villa Lobos, sabe, assim? A grandiosidade!”, revela a cineasta.
Vozes da floresta
Ao retornar a Belém, Célia Maracajá se enturmou de vez com quem fazia teatro e cinema na cidade. E foi construindo, cada vez mais, a sua obra no cinema nacional. O espírito aventureiro, andarilho ela herdou do pai. Ela morou fora de Belém e fez o caminho inverso de muita gente das artes, veio de malas e cuias para a capital paraense. Sem nunca abandonar o cinema, o teatro, a arte.
Nessas andanças de mulher intrépida, Célia faz o primeiro curso de cinema na UFPA. Ela conta como foi a prova nesse curso, ou seja, um momento de persistência dessa artista, que não deixa nunca de captar uma boa história ou uma imagem que contem o que é viver na Amazônia, no Brasil.
Célia chegou a trabalhar com o diretor alemão Werner Herzog na própria Amazônia, filmando “Cobra Verde” (1987). Essas e outras histórias e são de uma cineasta que respira as causas sociais na busca por justiça social. Quando o audiovisual indígena (cinema feito por cidadãos indígenas) ganha cada vez mais espaço no mundo, vale a pena lembrar que ainda criança Célia Maracajá brincava de fazer cinema e nunca mais parou de filmar e defender a vida. O “Mangueirosamente” com o brilho dessa artista pode ser conferido no Canal O Liberal no YouTube e no Portal OLiberal.com, a partir das 19h desta sexta-feira (5).