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Belém conhece de perto as formas da arte de Véio na Caixa Cultural

Duzentas obras do artista visual Cícero Alves dos Santos, natural de Sergipe, abordam a vida no sertão nordestino e alertam para a necessidade de preservação do meio ambiente

Eduardo Rocha

Como se costuma dizer no mundo das artes e da comunicação, tudo é design (formas). E não é para menos. O artista visual sergipano Cícero Alves dos Santos encontrou a sua forma para expressar as formas do mundo, precisamente a cultura e a vida do nordeste brasileiro. Esse é o conteúdo de cerca de 200 obras (esculturas) que Cícero mostra em Belém por meio da exposição  “A forma viva na arte de Véio”,  com entrada gratuita ao público, na Caixa Cultural Belém, no Porto Futuro II, a ser aberta às 18h desta terça-feira (3). A mostra pode ser visitada até o dia 31 de maio. 

Mas quem é o Véio? Esse é o apelido carinhoso que Cícero ganhou ainda menino, porque ficava horas estudando as histórias de seus antepassados. Ele, um filho de agricultores da caatinga nordestina, nascido em 12 de maio de 1947 em Nossa Senhora da Glória, no sertão do Estado de Sergipe. E o público em Belém vai ter o privilégio de conversar diretamente com Véio.

Esse artista cresceu, inclusive, em um universo repleto de galhos secos e troncos caídos, diante da vida dura de quem trabalha na roça e enfrenta dificuldades diversas.  Ele ouvia os causos sertanejos ao entardecer. Já nos  intervalos do trabalho rural, Véio modelava pequenas figuras com cera de abelha. Com o tempo, começou a aproveitar a madeira regional da caatinga como matéria-prima para sua arte e nunca mais parou de criar formas. Sua escultura nasce da percepção da matéria, do tempo das coisas e de uma imaginação que mistura humano, bicho, planta e mito.

 Esse artista visual vem a Belém na companhia da filha dele, Julia Katiene, autora do livro “Bonecos de Pau: A felicidade de Véio”, e o curador da exposição, André Parente. Na mostra que pode ser visitada de terça a domingo, das 10h às 21h, o público é convidado a fazer uma passeio pelo trabalho artístico de Véio, marcado por uma linguagem própria, sem se enquadrar em rótulos fixos. É um percurso imersivo pela diversidade formal e poética do artista por meio de obras de diferentes escalas e períodos. A exposição tem produção e expografia do Estúdio Sauá. 

Dar vida 

“Dou vida ao que já está morto”, destaca Cícero Alves dos Santos. Essa colocação dele fundamenta-se em que Véio desenvolveu, ao longo do tempo, uma técnica de esculpir a madeira encontrada na mata, ou seja, esse artista transforma restos da vegetação em esculturas coloridas.  

Assim, poderão ser conferidas na mostra em Belém desde miniaturas até esculturas de presença monumental, frutos de um processo artístico singular de utilização de materiais e técnicas desde a madeira crua à pintura  em cores vibrantes. Tudo a conduzir o visitante por camadas de leitura, entre forma, narrativa e espiritualidade, já que muito do universo cultural do nordeste do Brasil se traduz nas esculturas de Véio. Arte essa que dialoga em múltiplos significados com as artes vivenciadas na Amazônia. 

A dualidade entre “tronco fechado” e “tronco aberto”, dois modos de criação recorrentes na prática de Veio, figura entre os eixos conceituais da mostra. Em “tronco fechado”, a intervenção do artista é mínima: ele acompanha a natureza do tronco, preservando sua verticalidade e deixando emergir as chamadas “formas vivas”, que apenas existem. Já em “tronco aberto”’, ele penetra a madeira, escava, entalha e constrói figuras e cenas reconhecíveis, que remontam memórias do sertão brasileiro, do trabalho e do cotidiano.

O processo de concepção e montagem da mostra será abordado pelo curador André Parente na quarta-feira (4), às 18h, em uma visita mediada e conversa com o público visitante. Já às 19h, os visitantes vão poder participar de uma vivência com Véio e sua filha, Julia Katiene. Esse encontro  amplia o diálogo sobre a trajetória e o universo criativo do artista.

O artista Cícero Alves dos Santos foi reconhecido em 1986 pelo Guinness World Records como o maior miniaturista do Brasil. Ele consolidou ao longo das décadas uma trajetória que articula arte, preservação ambiental e memória cultural.

Véio também desenvolveu um intenso trabalho de preservação cultural e ambiental. Criou o Museu do Homem do Sertão, localizado no Sítio Soarte, entre os municípios de Feira Nova e Nossa Senhora da Glória, Sergipe- PI. Nesse espaço, ao longo de décadas, foram reunidos milhares de objetos, ferramentas e utensílios ligados aos modos de vida sertanejo, em um importante acervo de memória material.

Esse artista visual adquiriu e preserva uma área de mata nativa da Caatinga, onde fica o Sítio Soarte. Essa iniciativa serve para reafirmar o compromisso dele com a preservação da natureza e com uma relação ética com a matéria-prima de seu trabalho, utilizando exclusivamente madeira morta ou descartada.

Ao longo de sua trajetória, Véio recebeu diversos prêmios, títulos e homenagens, como o Prêmio Itaú Cultural 30 Anos – Categoria Criar (2018), o Título de Mestre dos Saberes (2022) e o Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal de Sergipe (2024). Sua obra integra importantes coleções públicas e privadas no Brasil e no exterior e é amplamente discutida em livros, catálogos, pesquisas acadêmicas e documentários.

Serviço

[Artes Visuais] 'Exposição ‘A forma viva na arte de Véio’

Local: Caixa Cultural Belém – Galerias 2 e 3. Complexo Porto Futuro II, Av. Marechal Hermes, s/n, próximo à Estação das Docas

Abertura: terça-feira, 3 de março, às 18h, com visita mediada e bate-papo com o artista e o curador

Visitação: 3 de março a 31 de maio de 2026

Horário: de terça-feira a domingo, das 10h às 21h

Entrada gratuita

Classificação: livre para todos os públicos

Informações: Belém | CAIXA Cultural| @caixaculturalbelem

Programação especial

Encontro com o curador - visita mediada seguida de conversa sobre o processo de concepção e montagem da exposição

Data e horário: quarta-feira 4 de março, às 18h

Encontro com o artista - vivência com Véio e sua filha, Julia Katiene, autora do livro “Bonecos de Pau: A felicidade de Véio”

Data e horário: quarta-feira 4 de março, às 19h