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Artista paraense PV Dias investiga memória e samba na mostra 'Modos de comungar'

Pintor propõe diálogo entre territórios, histórias e disputas culturais a partir de acervo afro-brasileiro no Rio de Janeiro

O Liberal

A exposição Modos de comungar, do artista PV Dias, está em cartaz até 21 de junho no Museu da História e da Cultura Afro-Brasileira (Muhcab). Natural do Pará, com vínculos familiares em Cametá e Igarapé-Miri, o artista aborda em sua produção deslocamentos, memórias e pertencimentos que transitam entre o Norte e o Sudeste do país.

Vivendo no Rio de Janeiro desde 2016, PV Dias mantém uma relação constante com sua terra natal, para onde retorna com frequência. Esse trânsito entre territórios aparece de forma sensível em sua pesquisa artística.

Trajetória e Identidade Artística

A pesquisa artística de PV Dias investiga como histórias e identidades se constroem a partir de experiências compartilhadas e de tensões. Ele leva para o centro de sua produção um olhar atravessado por suas origens.

Para esta exposição, o artista mergulhou no acervo do Teatro Experimental do Negro (TEN), criado por Abdias Nascimento. As fotografias da companhia revelam cenas do cotidiano carioca e do universo mítico.

Essas imagens despertaram o interesse do artista por personagens históricos e simbólicos. Figuras como o malandro e pessoas ligadas ao samba, sujeitos que ainda hoje enfrentam diferentes formas de repressão, são centrais em sua obra.

“Minha pintura busca histórias do passado para fabular questões do presente”, afirma PV Dias. A declaração evidencia o modo como o artista articula memória e contemporaneidade em suas obras.

Diálogo com o Teatro Experimental do Negro

Um dos núcleos da mostra se estrutura a partir da famosa disputa entre Noel Rosa e Wilson Batista nos anos 1930. O embate foi travado em forma de sambas, expondo visões distintas sobre a malandragem.

Essa disputa histórica também revelou diferentes percepções sobre o papel do gênero musical na sociedade brasileira. Ao revisitar o episódio, PV Dias estabelece paralelos com o presente.

Disputa Histórica e Ecos Atuais

Para o artista, as disputas em torno do samba ecoam nas tensões vividas hoje por gêneros periféricos. O funk e o tecnobrega são exemplos desses gêneros.

O tecnobrega, em particular, está profundamente ligado à cultura paraense. “São dinâmicas que se repetem, em que esses gêneros entram em disputa para poder continuar existindo”, observa PV Dias.

Permanência das Raízes Amazônicas

A presença do tecnobrega no raciocínio do artista não é casual. Ela reforça a permanência de suas referências amazônicas, mesmo quando a investigação se volta para o contexto carioca.

Nesse sentido, Modos de comungar constrói uma ponte entre diferentes paisagens culturais. A exposição revela continuidades entre experiências aparentemente distantes.

As obras também ressaltam como os gêneros musicais estão intrinsecamente ligados aos seus territórios de origem. Carregam contradições, resistências e possibilidades de conciliação.

É nesse campo que PV Dias desenvolve sua pintura, buscando compreender as tensões que estruturam a vida social.

O Significado de Comungar

O título da exposição aponta para um gesto de aproximação. “Comungar é pensar o que é comum entre duas ou mais partes”, explica o artista.

A ideia surge da observação de conflitos que encontram resolução. Um exemplo é o caso de Noel Rosa e Wilson Batista, que encerraram sua disputa com uma composição conjunta.

Afinidades em Vila Isabel

Mais do que narrar embates, PV Dias se interessa pelo que pode emergir deles: acordos, afetos e compartilhamentos. A partir dessa perspectiva, o artista volta seu olhar para Vila Isabel.

O bairro onde ele vive é marcado pela forte presença simbólica de Noel Rosa. Em vez de enfatizar diferenças entre sua origem paraense e o cotidiano carioca, ele opta por investigar afinidades.

“Quis perceber o que eu comungava com essas pessoas”, afirma o artista. Entre o apreço pelo passado, pelas histórias míticas e pela música, PV Dias encontra pontos de convergência que orientam sua produção.

Ao reunir referências amazônicas e cariocas, memórias pessoais e narrativas coletivas, Modos de comungar convida o público a refletir sobre o que nos aproxima. Entre tensões, disputas e afetos, a exposição sugere que no reconhecimento do comum se constroem novas formas de convivência.