Após o Dia da Mulher, artistas do Norte refletem sobre avanços e desafios na indústria da música
Presença feminina cresce nos palcos e nos bastidores, mas desigualdade ainda marca áreas de decisão
Em meio às discussões sobre igualdade de gênero, impulsionadas pelo Dia Internacional da Mulher (8 de março), o mercado musical brasileiro vê a crescente presença feminina nos palcos e plataformas digitais. No entanto, artistas e profissionais, especialmente da região Norte, alertam para a persistência de desafios em acesso a cargos de decisão, reconhecimento e remuneração no setor, evidenciando que a valorização da produção cultural amazônica ainda é uma questão em aberto.
Nos últimos anos, o aumento no número de cantoras, compositoras e produtoras tem ampliado a diversidade de vozes no cenário. Contudo, o olhar para os bastidores da indústria ainda revela desigualdades. Áreas estratégicas como direção artística, A&R, marketing, produção executiva, distribuição e gestão permanecem majoritariamente ocupadas por homens, principalmente em posições de liderança e tomada de decisão.
Desafios persistem em cargos de liderança
Para muitas artistas, construir uma carreira musical, sobretudo em contextos independentes, demanda o desenvolvimento de múltiplas funções dentro do próprio trabalho. A cantora Rebeca Lindsay destaca essa realidade e a necessidade de reinvenção diária na era digital, apesar das dificuldades enfrentadas.
“O mercado tem evidenciado cada vez mais o talento feminino. Hoje, principalmente, não vemos apenas mulheres cantoras; vemos também empreendedoras, assim como eu, que continuam se adaptando a todas as mudanças do mercado, especialmente nesta era digital que, apesar de abrir uma janela para o mundo, exige que você se reinvente todos os dias. Mas, quando alcançamos o êxito, a sensação é incrível. As dificuldades, com certeza, existem e batem à nossa porta todos os dias, principalmente quando você é uma artista independente. É quase um ‘superpoder’ ser mulher, mãe, artista, empresária e gestora da própria carreira, e ainda conseguir, de alguma forma, fazer tudo isso caminhar de maneira equilibrada. Hoje tenho orgulho de tudo o que já conquistei, considerando que eu era apenas uma garotinha de 15 anos quando comecei a cantar. Agora me vejo realizando sonhos que jamais imaginei viver”, afirma Lindsay.
Visibilidade regional é um dos desafios
Quando a discussão se volta para o recorte regional, artistas do Norte apontam o desafio de construir visibilidade em um mercado historicamente concentrado em outros centros do país. Contudo, elas reforçam a força cultural da região e o protagonismo feminino emergente na cena musical.
“Eu sou uma artista do norte do Brasil com muito orgulho, mas eu sei que essa caminhada tem muitos desafios e eu sei que eles se tornam ainda maiores quando a gente não tá no eixo principal do mercado. A nossa cultura é muito forte, as mulheres do norte têm mostrado cada vez mais potência e talento. Eu fico muito feliz com o espaço que o Brasil tem dado pra gente. Eu acho que a gente merece demais, nós somos mulheres fortes, talentosíssimas, uma potência à parte. Eu tenho muito orgulho de representar o Pará e o Norte. Espero que cada vez as mulheres se sintam mais fortes, que as meninas não deixem de sonhar e que elas acreditem no seu potencial porque a gente consegue tudo que a gente quiser e que a gente se propuser a fazer com muita entrega e com muito carinho. Espero que nós mulheres ocupemos mais espaço e que a gente tenha mais liberdade em todas as áreas. Um grande abraço a todas as mulheres, principalmente as artistas do norte”, comenta Manu Bahtidão.
A realidade do setor exige que o debate sobre equidade na música transcenda a representatividade artística. Para muitas profissionais, discutir igualdade no setor significa também falar sobre quem define estratégias, conduz projetos e investe em novos talentos. A cantora Aíla enfatiza essa perspectiva.
“Ser mulher na música ainda é lidar com muitos desafios diários, tanto no palco quanto nos bastidores, mas também é fazer parte de uma transformação fundamental. Cada vez mais mulheres ocupam espaços de criação e decisão, contando as suas próprias narrativas. Como artista do Norte, sinto a responsabilidade de mostrar que a Amazônia é um lugar de potência cultural com protagonismo feminino. Ainda há muito a avançar, mas cada mulher que conquista um espaço abre caminho para muitas outras”, reforça Aíla.
Dados do ECAD mostram disparidade financeira
O Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (ECAD) oferece dados que dimensionam o cenário de desigualdade no mercado. Segundo o relatório de panorama nacional do mercado feminino em 2025 da organização, embora o número de mulheres contempladas com direitos autorais de execução pública venha crescendo, elas ainda representam menos de 10% dos valores distribuídos no país. Este percentual reflete as desigualdades históricas no acesso a espaços de composição e produção musical.
Para artistas amazônidas, esse quadro se agrava pelos desafios históricos de reconhecimento da produção cultural da região. A cantora Gabriê detalha a invisibilidade enfrentada por ser mulher e artista da Amazônia.
“Por ser mulher, a gente enfrenta uma disparidade muito grande em relação aos homens em qualquer área, inclusive no mercado da música. É um terreno delicado onde a gente tem que aprender a se impor muito cedo. Sendo mulher amazônida, isso se intensifica, e eu falo por mim nesse momento, mas acredito que também por muitas, a gente sempre se sentiu invisibilizada em relação ao resto do país. Porque o Brasil não sabe o que esperar ainda da arte amazônica. Claro que eu me sinto mais esperançosa com esse movimento crescendo, mas ao mesmo tempo, é sempre uma luta, porque a própria sociedade patriarcal já tem regras muito bem estabelecidas. Então, quando a gente fala de um recorte, que é ser mulher e depois de ser mulher amazônida, artista, a gente muitas vezes está falando sobre remar contra uma maré”. Gabriê finaliza com uma mensagem forte: “A Amazônia é mulher. A Amazônia é sagrada. Nós somos sagradas. E quando eu penso no futuro da música, eu penso muito nas artistas amazônidas ocupando mais lugares e os lugares que elas realmente merecem”.
Incentivos e representatividade para a equidade
Em um setor em transformação, impulsionado por plataformas digitais e novas formas de produção cultural, a discussão sobre diversidade e inclusão se consolida como tema central para o futuro da música brasileira e ganha ainda mais relevância após o Dia Internacional da Mulher. A produtora Luli Braga reitera a necessidade de mudanças estruturais para garantir maior equidade.
“Minha percepção como mulher que trabalha há cinco anos no mercado da música é de que, mesmo com o avanço da presença feminina nos setores da cadeia produtiva, permanece a falta de equidade nos espaços de poder e decisão, que ainda são predominantemente comandados por homens. Artisticamente, isso muitas vezes nos condiciona a performances e a permanecer em locais que estão aquém da nossa real capacidade de criar e produzir. Para continuar avançando, acredito que os incentivos culturais precisam priorizar o fomento de iniciativas que visem a capacitar cada vez mais mulheres e que garantam um quórum mínimo de participação feminina nos espaços de decisão. Queremos mais incentivo, visibilidade e mulheres dos palcos aos estúdios e bastidores”, finaliza Braga.