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Álbum 'Elis' de 1973, de Elis Regina, ganha remasterização digital em alusão aos 81 anos da cantora

Filho de Elis Regina, João Marcello Bôscoli, e engenheiro Ricardo Camera revisitam clássico de 53 anos para nova experiência sonora

O Liberal

O clássico álbum "Elis", de 1973, da cantora Elis Regina, foi recentemente remasterizado e relançado com tecnologia Dolby Atmos, proporcionando uma qualidade sonora inédita. O projeto, liderado pelo produtor João Marcello Bôscoli, filho da artista, e pelo engenheiro de som Ricardo Camera, conta com apoio da Universal Music Brasil e visa modernizar a audição de um dos discos mais icônicos da Música Popular Brasileira (MPB). Escute aqui.

Em um cenário atual onde a alta fidelidade sonora é crucial para o consumo de música em plataformas de streaming, não seria justo que a "maior voz" da MPB soasse abaixo do seu potencial. Ouvi-la hoje com a clareza de um disco contemporâneo, após 53 anos do lançamento original, representa um ato histórico e necessário para preservar o legado de Elis Regina. Lançado em 1973 pela então gravadora Phonogram, o álbum já era reconhecido por fãs como uma obra-prima, apesar das limitações acústicas da época.

A esperança por uma nova versão aumentou após a remasterização de "Elis 72" em 2021, conduzida por João Marcello Bôscoli e o engenheiro de som Carlos Freitas. Agora, ele repetiu o processo com o álbum de 1973, trabalhando faixa a faixa ao lado de Ricardo Camera, engenheiro premiado com três Grammy® em 2025. O objetivo foi aproximar a sonoridade do álbum à de uma gravação contemporânea de Elis Regina.

A nova audição do disco incorpora a avançada tecnologia Dolby Atmos, que cria um "palco sonoro" imersivo. Instrumentos e vocais emergem de posições específicas ao redor do ouvinte, simulando a presença dos músicos. A versão em LP do relançamento está prevista para o final do ano.

Ricardo Camera explicou que a ideia foi respeitar a gravação original, mas posicionar a voz de Elis "dentro da cabeça de quem a ouve", tornando-a ainda mais confidente. Para João Marcello Bôscoli, a restauração era uma questão de honra, pois ele sempre considerou o áudio original "muito estranho", percepção compartilhada por muitos fãs que o procuravam.

Repertório Introspectivo e Colaborações

"Elis 73" destaca-se pelas escolhas mais introspectivas da artista, diferente do tom de canções como "Águas de Março" e "Casa no Campo" do ano anterior. Com exceção dos sambas "Ladeira da Preguiça" e "Meio de Campo", de Gilberto Gil, o repertório explora temas densos.

O álbum é dividido entre composições de Gilberto Gil, que também assina "Oriente" e "Doente Morena" (parceria com Duda Machado), e da dupla João Bosco e Aldir Blanc. Destacam-se as faixas "O Caçador de Esmeralda" (com Claudio Tolomei), "Agnus Sei", "Cabaré" e "Comadre". Outras exceções notáveis são o samba lento "É com Esse Que Eu Vou", de Pedro Caetano, e a clássica "Folhas Secas", de Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito.

Desafios Técnicos e Soluções

O trabalho de remasterização, conduzido por João Marcello e Ricardo Camera, levou quase dois anos para ser concluído. Ao analisar as faixas originais, eles identificaram problemas na captação dos instrumentos em oito canais. Um dos principais era a gravação da bateria, realizada com apenas um microfone.

Esse método resultava no vazamento do som da bateria para o piano, criando um ruído indesejado. "Tivemos de separar os sons das peças da bateria e retirar os vazamentos", explicou Camera, detalhando os desafios para isolar e limpar os elementos da gravação.

O procedimento garantiu que nenhuma nota ou intenção artística de Elis e seu grupo, dirigido pelo então marido da cantora, Cesar Camargo Mariano, fosse alterada. A sensação é de que um véu foi retirado das canções. A voz de Elis Regina agora ganha profundidade acústica e se posiciona à frente, revelando detalhes dos arranjos que antes passavam despercebidos.

"Elis 73": Críticas e a Percepção Atual

À época do lançamento original, em 1973, alguns críticos consideraram a interpretação de Elis "fria e técnica". A própria cantora riu ao ser confrontada com a opinião. Hoje, seu filho, João Marcello, refuta veementemente: "Foi a coisa mais estúpida escrita na história da crítica mundial".

Embora a percepção possa não condizer com a sensibilidade de canções como "Folhas Secas" ou "Cabaré", ela existiu. Duas hipóteses para isso são levantadas: a escolha de canções mais densas ou o próprio embaçamento do áudio original, que comprometia a clareza da gravação.

Legado de Elis Regina Mantido e Modernizado

A restauração de "Elis 73" foi tratada com um respeito quase arqueológico, atuando como uma mediação entre eras. O canto de Elis Regina, um legado que não pode ser represado no tempo-espaço histórico ou tecnológico, exige que qualquer limitação seja transposta com o que a humanidade criar de melhor. É o mínimo a ser devolvido à artista que entregou a própria vida em cada canção.

Repertório do e-álbum "Elis 73" (nova mixagem):

  • "Oriente" (Gilberto Gil)
  • "O Caçador de Esmeralda" (João Bosco / Aldir Blanc / Claudio Tolomei)
  • "Doente, Morena" (Duda Machado / Gilberto Gil)
  • "Agnus Sei" (João Bosco / Aldir Blanc)
  • "Meio de Campo" (Gilberto Gil)
  • "Cabaré" (João Bosco / Aldir Blanc)
  • "Ladeira da Preguiça" (Gilberto Gil)
  • "Folhas Secas" (Guilherme de Brito / Nelson Cavaquinho)
  • "Comadre" (João Bosco / Aldir Blanc)
  • "É Com Esse Que Eu Vou" (Pedro Caetano)