2020: um ano marcado pela saudade no mundo das artes
OLiberal.com homenageia aqueles que engradeceram nossa vida com sua arte
Em um ano em que o luto foi amplificado no mundo todo pelas perdas de pessoas queridas devido à uma pandemia, o Dia dos Mortos tem um peso diferente, além do já habitual. Para o paraense, algumas despedidas foram ainda mais sentidas, pois 2020 levou embora alguns nomes que marcaram nossas vidas por meio de sua arte, que engrandeciam o espírito e projetavam luz a esses tempos difíceis.
Luto ainda dói
Sem dúvida, uma das que mais fazem falta é justamente a rainha da saudade, Cleide Moraes. A perda da cantora foi ainda mais dolorosa por causa da brusquidão, já que Cleide teve a vida tirada em um trágico acidente de trânsito, morrendo aos 59 anos na noite de 26 de julho. Ela iria completar 40 anos de carreira agora em novembro e planejava celebrar a data com shows, mas teve esse sonho interrompido.
“Esse ano vai ser mais sofrido que nunca, não só pra minha família, mas também para as inúmeras pessoas que vem me apoiando. Nas redes sociais, as pessoas ainda me mandam vídeos, fotos com minha mãe. Ela não era só a artista, mas era uma pessoa fantástica, generosa. Tudo que tinha, ela dividia”, conta Brenda Moraes, que disse que o principal objetivo de sua família agora é manter o legado de sua mãe vivo.
Para nós do Grupo Liberal, outra saudade que nos atinge com força nesse dia é a deixada por Ary Souza, fotógrafo que por meio de suas lentes deixou uma marca indelével não apenas no jornalismo da Amazônia, mas na produção artística. Ele foi vencedor de prêmios internacionais e nacionais, sendo laureado no Itaú Cultural de São Paulo, nos anos 90, e na Bienal de Fotojornalismo, em São Paulo. Ary foi homenageado no Arte Pará em 1997, salão onde brilhou com vários outros prêmios. Especialista em extrair arte do cotidiano de pessoas comuns, Ary Souza lutava contra um câncer e nos deixou em 20 de abril.
Nos palcos, quem saiu de cena sob aplausos foi Nilza Maria, grande nome do teatro paraense. A atriz referência começou sua trajetória nas novelas de rádio, veículo de comunicação mais popular do país entre os anos 40 e 50. Sendo a artista gigante que era, Nilza logo também fez sucesso no cinema e no teatro. Ela morreu aos 97 anos, em sua casa, em 15 de maio.
O nome de Maria Sylvia Nunes já está marcado no cotidiano do paraense, não apenas por ter sido homenageado no teatro da Estação das Docas, mas por tudo que ela fez pela cultura do Estado. Professora Emérita da Universidade Federal do Pará (UFPA), Maria Sylvia criou e dirigiu o Grupo Norte Teatro Escola do Pará e recebeu diversas homenagens de instituições acadêmicas e governamentais. Atuou intensamente na difusão da arte e da cultura no Estado do Pará, tendo contribuído para a criação e sucessivas edições do Festival de Ópera do Theatro da Paz. Foi casada com o filósofo Benedito Nunes, sendo agraciada em 2019 com a distinção por seu trabalho prestado à cultura. Ela nos deixou aos 90 anos, em 5 de março.
Canções que ainda emocionam
O cantor e compositor Alcyr Guimarães morreu aos 68 anos de idade em 09 de fevereiro, após dias de internação. Biomédico por formação, ele lecionou na UFPA e atuou como pesquisador da Organização Mundial da Saúde (OMS), mas foi na música que viveu sua paixão. Teve como parceiro musical o compositor Vital Farias e tocou com artistas como Sivuca, Hermeto Pascoal, Jorge Aragão, Paulinho da Viola e Emílio Santiago. Ele deixou de presente para o mundo mais de 500 composições autorais.
Ainda no mundo da música, os batuques do carimbó tiveram um ritmo triste ao anunciarem a morte de Mestra Mimi e Mestre Dico Boi. De Santarém Novo, o mestre da Irmandade de Carimbó de São Benedito e do grupo de Carimbó "Os Quentes da Madrugada" era perito no curimbó, um dos instrumentos mais tradicionais do ritmo. Ele morreu em 21 de agosto, aos 76 anos.
Quatro dias depois, Julia Freire, nome de batismo da mestra Mimi, também nos deixou, morrendo em sua casa, em Marapanim. Ela era uma das fundadoras do grupo Sereias do Mar, primeiro grupo de carimbó formado majoritariamente por mulheres. Ela faleceu em sua cama, devido a uma insuficiência cardíaca.
Alguns outros nomes que nos deixaram ainda em 2020 foram Lassance Maya, considerado um dos maiores nomes das artes plásticas do Pará, e o trompista, professor e historiador Antonio Augusto. A vida de Lassance, que se encerrou em 19 de julho, foi caracterizada pela pesquisa, com o uso das mais variadas técnicas para abordar temas de nossa região e religiosidade. Ele foi ainda professor de desenho geométrico, artístico e arquitetônico, desenhista do Museu Emílio Goeldi, designer e arquiteto de interiores.
Já Antonio Augusto morreu em 02 de fevereiro, por conta de um câncer no pulmão. Ele era professor de música de câmara Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e durante muitos anos, foi professor de trompa no Curso de Bacharelado em Música da Fundação Carlos Gomes, que lamentou profundamente a morte do músico.
A todos esses que partiram, fica aqui a homenagem e a promessa de manter acesa toda a beleza que eles nos trouxeram por meio de sua arte.
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