'Day After' da COP 30: debate do Lib Talks focou em bioeconomia e urbanismo
Encontro no Grupo Liberal reuniu especialistas para analisar legados reais e expectativas para a Amazônia após o evento climático global
O Grupo Liberal promoveu, nesta quinta (22), o segundo Lib Talks de 2026 em sua sede, no bairro do Marco, em Belém. Com o tema “O ‘Day After’ da COP 30: Legado Real vs. Expectativa”, o debate reuniu especialistas para analisar as transformações estruturais, os riscos ambientais e as oportunidades de negócios sustentáveis na região dois meses após o encerramento da conferência da ONU. O painel foi mediado por Ney Messias Jr., diretor de Marketing do grupo Liberal .
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O arquiteto, urbanista e professor da Universidade Federal do Pará (UFPA), Juliano Ximenes, iniciou o painel questionando a idealização de uma “nova Belle Époque” na capital paraense. Para o especialista, as intervenções urbanas deixadas pelo evento devem ser analisadas sob a ótica da qualidade e do objetivo social, evitando repetir exclusões históricas do início do século XX.
“Eu me lembro de um dono de pousada falando assim: 'Nós estamos vivendo a nova Belle Époque'. É muito engraçado, porque teve uma expectativa por uma coisa que as pessoas não sabem nem o que é. Essa ideia da 'bela época' foi uma coisa inventada posteriormente. Tem uma idealização muito grande dessa virada do século XIX para o XX, como se tivesse sido um período todo maravilhoso. Teve coisas muito ruins: racismo, discriminação da nossa população cabocla, espancamento, expulsão, negação da nossa identidade, do carimbó... enfim, foi terrível”, analisou Ximenes.
Construção civil e saúde ambiental
Ximenes também alertou para o impacto ambiental do setor de construção, que responde por 35% das emissões globais de gases de efeito estufa. Ele criticou o modelo de obras de macrodrenagem que privilegiam o asfalto e o concreto em detrimento de soluções mais vegetadas e saudáveis para o clima local.
“O problema ambiental do Brasil, no sentido da mudança do clima, não é de matriz energética majoritariamente, mas sim de uso da terra. Falta reforma agrária, há grilagem de terra, desmatamento ilegal, passa por aí. Isso, junto com o fato de a gente constatar que 35% das emissões decorrem da construção civil, dá um estatuto de gravidade para essas intervenções urbanísticas, porque você acaba desmatando, concretando, asfaltando e demandando esses materiais terríveis e generalizados no mundo, que são o asfalto e o concreto. A gente tem uma tendência a fazer obras muito rentáveis para o empreendedor do setor, mas que são de mau desempenho ambiental”, detalhou o arquiteto.
Potencial farmacêutico da Amazônia
A bioeconomia foi defendida como o caminho para o desenvolvimento de longo prazo. Paulo Reis, presidente da Assobio (Associação dos Negócios da Sociobioeconomia da Amazônia), destacou que o setor de fármacos é o "próximo ouro" da floresta, citando plantas como jaborandi e ibogaína para tratamentos oftalmológicos e de vícios.
“Esse é o meu maior medo: que a população local não se aproprie daquilo que foi a COP. A gente se animou com o momento. Depois do dia 23 de novembro, o meu medo é que a gente esqueça completamente e trate como se fosse a torcida indo para a Copa do Mundo. Repensar que tipo de negócio, de indústria e de dinheiro a gente consegue ir atrás na Amazônia. Hoje, a nossa matriz ou é de coisas muito básicas, ou é de uma economia que é um tiro no pé: essa economia do desmatamento e de exploração infinita dos recursos naturais”, explicou Reis.
Mamorana
Mediando o debate, Ney Messias Jr. apresentou a mamorana, fruto comum no Combu conhecido como "falso cacau", como exemplo de ativo regenerativo. Segundo ele, o fruto supera o açaí e o cacau em propriedades antioxidantes, mas ainda é ignorado pelo mercado formal de bioeconomia.
“A mamorana é riquíssima em antioxidantes. Eu uso, não falta em casa. Eu pego as amêndoas, asso no forno, bato no liquidificador, coo. Aquilo me dá um pó, um achocolatado maravilhoso com notas de amendoim. Ninguém da bioeconomia conhece a mamorana. Ela tem muito mais antioxidantes do que o açaí e o cacau. Tem muita coisa ainda que não conhecemos desse bioma e que tem um alto poder econômico e regenerativo de tecidos nossos”, concluiu o mediador.
SERVIÇO - PRÓXIMO LIB TALKS
- Data: 29/01/26 (próxima quinta-feira)
- Horário: 17h
- Local: Sede do Grupo Liberal, na avenida Romulo Maiorana / Transmissão ao vivo no YouTube @OLiberalPA
- Tema: “Eleições 2026: Direita e Esquerda, quem ganha?”
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