COP-30: O teste político da Amazônia e o juízo de Belém Rodolfo Marques 06.10.25 16h20 A cerca de 35 dias da COP-30, Belém começa a ocupar o centro do tabuleiro político e diplomático mundial. Entre os dias 10 e 21 de novembro, a capital paraense será o epicentro das discussões sobre o futuro do planeta — e, inevitavelmente, sobre o futuro do Brasil como liderança ambiental. A conferência da ONU sobre mudanças climáticas é mais do que um encontro de chefes de Estado e negociadores: é um espelho político, que refletirá o grau de coerência entre discurso e prática, promessa e entrega, tanto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT-SP) quanto do governador Helder Barbalho (MDB-PA). Desde que o Brasil foi confirmado como sede, a COP-30 passou a representar uma oportunidade de reposicionamento global. Lula aposta suas fichas na recuperação da imagem verde do país, abalada durante o governo anterior, e Helder vislumbra uma chance histórica de consolidar sua liderança nacional e internacional no tema amazônico. Ambos sabem que o evento é vitrine e campo de prova. Lula quer mostrar ao mundo que o Brasil voltou a ser protagonista climático; Helder quer mostrar ao país que a Amazônia é mais do que um território-problema – é um espaço de soluções. A mobilização política que antecede a conferência revela uma engrenagem complexa. De um lado, o governo federal tenta compatibilizar a agenda de crescimento econômico com o compromisso ambiental – um equilíbrio delicado que depende da credibilidade de suas políticas de desmatamento zero e da reindustrialização verde. De outro, o governo do Pará corre contra o tempo para preparar a infraestrutura de Belém e garantir que o evento não se transforme em vitrine de carências urbanas. Nesse sentido, a COP-30 é também uma prova de gestão e de coordenação federativa: o sucesso dependerá tanto da diplomacia quanto da logística. No plano simbólico, o evento coloca Belém no mapa das grandes decisões globais. Trata-se de um gesto político poderoso: a Amazônia, historicamente tratada como periferia, será, por alguns dias, o centro do mundo. Essa inversão geográfica tem profundo significado. É o reconhecimento de que as respostas à crise climática não virão dos centros tradicionais de poder, mas das regiões que concentram os maiores estoques de biodiversidade e vulnerabilidade. Para o Pará, é também uma oportunidade de redefinir sua narrativa histórica, frequentemente marcada por dependência e exclusão. No entanto, há riscos evidentes. A COP-30 pode se tornar um espetáculo de intenções se não for acompanhada por compromissos concretos. O Brasil precisa provar que sua política ambiental não é apenas retórica diplomática, mas instrumento de desenvolvimento sustentável real. E o Pará precisa evitar que a conferência se transforme em um evento “virtual” desconectado da vida cotidiana dos paraenses. A mobilização política será vã se o legado não for tangível – em infraestrutura, em governança ambiental e em participação social. Politicamente, a COP-30 servirá também como um rito de passagem. Para Lula, é a chance de reafirmar seu papel de estadista global, num momento em que busca consolidar sua terceira gestão e equilibrar o tabuleiro interno da política. Para Helder, é a oportunidade de projetar-se como liderança nacional – e até de se colocar como figura de sucessão no futuro político brasileiro. A pauta ambiental, neste contexto, não é apenas ecológica: é estratégica. E ambos parecem compreender que o capital político verde pode ser tão valioso quanto o capital econômico. No fim, a COP-30 será um teste duplo: de coerência e de visão. O mundo virá a Belém não apenas para discutir o clima, mas para observar como o Brasil se comporta diante de sua própria responsabilidade histórica. A Amazônia sempre foi o espelho do país, um reflexo de suas contradições e potencialidades. Se a conferência deixar um legado de integração, justiça climática e governança, Belém poderá ser lembrada não apenas como palco de um grande evento, mas como o ponto de inflexão onde o Brasil reencontrou seu papel no planeta. Caso contrário, a floresta continuará a arder – não só em chamas, mas em promessas. Assine O Liberal e confira mais conteúdos e colunistas. 🗞 Entre no nosso grupo de notícias no WhatsApp e Telegram 📱 Palavras-chave colunas Rodolfo Marques COMPARTILHE ESSA NOTÍCIA Rodolfo Marques . Desculpe pela interrupção. Detectamos que você possui um bloqueador de anúncios ativo! Oferecemos notícia e informação de graça, mas produzir conteúdo de qualidade não é. 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