A Caminhada pela Justiça e Liberdade
Nikolas caminhava à frente, colete à prova de balas no peito, símbolo cruel dos tempos em que um deputado eleito pelo voto popular, sente que precisa se proteger para exercer a própria voz e representar o clamor silencioso do povo brasileiro. Não era apenas autoproteção; era metáfora. Um Brasil em que a política se tornou campo minado, onde opiniões custam caro e a liberdade parece cercada por grades invisíveis.
Ao longo de quase 240 quilômetros, o que começou como um gesto solitário virou multidão. Parlamentares, eleitores, famílias inteiras, gente do bem se somaram. Gente comum. O povo que trabalha, paga tantos impostos e assiste, impotente, à sensação de que a lei pesa mais para uns do que para outros. Cada parada virava comício espontâneo. Cada aplauso, um desabafo coletivo.
Do outro lado da cena, o Supremo Tribunal Federal. Imponente, silencioso, distante. A decisão do ministro Alexandre de Moraes de impedir manifestações no entorno da Papuda foi lida por muitos não como medida de segurança, mas como mais um limite imposto ao direito constitucional de reunião pacífica. A Constituição é clara: o povo pode se manifestar. Quando o Estado começa a definir onde a indignação pode ou não existir, algo se rompe.
Há uma contradição que salta aos olhos de parte da sociedade e que alimenta a indignação nas ruas: quando surgem denúncias de grandes fraudes financeiras, como as envolvendo o Banco Master, ou esquemas que lesam aposentados e pensionistas do INSS, o STF é lento, distante ou silencioso, enquanto processos se arrastam sem respostas claras.
Porém, quando o tema é limitar o direito de reunião pacífica, garantido expressamente pela Constituição, a reação parece imediata, dura e acompanhada de ameaças de prisão. Para muitos brasileiros, o contraste levanta uma pergunta incômoda: por que o rigor máximo recai com rapidez sobre cidadãos que caminham e protestam, mas não se mostra com a mesma urgência, diante de crimes que drenam bilhões e destroem a dignidade de idosos?
Grades também surgiram no Planalto, estaria Lula sentindo a pressão que vem das ruas? Barreiras físicas para conter um sentimento que já transbordou há tempos. O governo fala em prevenção; o povo enxerga medo. Medo da voz das ruas. Medo de uma sociedade cansada de corrupção, impunidade e decisões tomadas longe do alcance do cidadão comum.
A caminhada não era apenas sobre um nome ou um processo. Era sobre quem manda no Brasil. Sobre até onde vai o poder de autoridades que não passaram pelo crivo das urnas. Sobre um Judiciário que, aos olhos de muitos, deixou de ser árbitro para se tornar protagonista político.
Ao chegar a Brasília, Nikolas não trouxe respostas fáceis. Trouxe perguntas incômodas. E talvez seja isso que mais assuste: um povo caminhando, acordado, disposto a lembrar que democracia não é silêncio obediente é confronto de ideias, é rua, é voz.
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