Política para Mulheres

Natasha Vasconcelos

Advogada, ativista e aluna do PPGCP/UFPA. Criadora do Política para Mulheres; co-fundadora da Tenda Vermelha; integrante da Rede de Juristas Feministas (DeFemde); do Cidade para Mulheres; e da Nova Rede de Pesquisas em Feminismos e Política.

Política para mulheres

Kéfera, o feminismo e os estereótipos feministas.

Natasha Vasconcelos

No dia 13 de dezembro de 2018 a atriz e youtuber Kéfera Buchmann protagonizou um debate polêmico no programa Encontro que gerou uma enorme repercussão sobre um assunto que estamos cansadas de presenciar e sobre adjetivos que estamos ainda mais cansadas de ouvir: feministas são grosseiras. 

Grosseria no dicionário consta como uma falta de educação um comportamento que expressa descortesia. A educação e a cortesia talvez sejam os nossos primeiros contatos com a operacionalização do patriarcado. Não fale alto, não responda, não fale palavrão, seja educada, cruzes as pernas, fique calada, mantenha a postura, seja benquista. Esses são aprendizados que até um determinado momento da vida são indissociáveis para meninos e meninas, mas com o avançar dos anos eles se intensificam nos corpos e no agir das mulheres. É tão intenso que se torna critério de validação matrimonial: fulana é uma boa mulher para casar, ela sabe o seu lugar, ela sabe se portar.

O livro Sejamos Todos Feministas da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie é praticamente um alerta sobre essa forma de educação, de comportamento. Nele a autora conta como se sentiu a primeira vez que a chamaram de feminista e propõe a reflexão o que é ser feminista no século XXI? Talvez esses escritos nos ajude a analisar o que vou chamar aqui de Caso Kéfera, a propósito, esta seria uma boa oportunidade de esclarecer alguns termos em inglês que a atriz utiliza na sua fala, mas fugiria demais do debate mais importante: estereótipos feministas. Então deixa eu focar aqui na Chimamanda.

A autora conta que determinado momento precisou se declarar uma feminista feliz e africana que não odeia homens, e que gosta de usar batom e salto alto para si mesma, e não para homens. Tudo isso para fugir do estereótipo da feminista que odeia os homens, odeia sutiã, odeia a cultura africana, acha que as mulheres devem mandar nos homens, que não se pinta, não se depila, está sempre zangada, não tem senso de humor e não usa desodorante.

Djamila Ribeiro nos diz que estereótipos são generalizações impostas a grupos sociais específicos. Em Quem tem medo de feminismo negro? A autora denuncia a culpabilização do grupo como uma prática comum de deslegitimação. Que é basicamente a imagem que o rapaz da plateia tenta reproduzir sobre feministas para tentar explicar o que é feminismo.

O estereótipo imediato é o da aparência. Essa é uma armadilha que muitas mulheres que se consideram feministas caem comumente e temos diversos exemplos recentes circulando nas plataformas digitais tal como a comparação entre Fernanda Lima (a feminista) e Damares (a anti-feminista) onde neste caso a linda, bem-amada, bem relacionada, símbolo de sucesso é a feminista. Veicular material desse tipo é um desespero, que é compreensível, mas não é correto, porque o feminismo, não o midiático, o movimento político tá na rua para exigir direitos e para romper com os padrões que a sociedade patriarcal nos impõe e cujo mito da beleza é um deles.

Dito isso, voltemos para o Caso Kéfera, cuja aparência está midiaticamente e socialmente nos padrões. Até aí, ok ser feminista. Até que ela, as demais mulheres que estavam no programa, as milhares de telespectadoras e a escritora Heloisa Buarque de Hollanda, que acabou de lançar o livro Explosão feminista, num programa sobre o feminismo, são submetidas a pior das opiniões sobre o tema: o reforço dos estereótipos da feminista agressiva. Ela então se posiciona firmemente na tentativa de impedir que tenha eco uma visão totalmente deturpada e generalizada de feminismo e rompe com toda permissividade de sua aparência com sua autoridade.

A falta de paciência para lidar com certos temas independe de você ser feminista ou não, ser mulher ou homem, ser criança ou adulto, as vezes você simplesmente não tem paciência. Reduzir um debate sobre feminismo ao tópico estereotipo é o maior desserviço que uma pauta pode cometer. Esse é o feminismo mainstsream aquele que a gente conhece através da mídia ora comercial ora raivoso. E é aqui que nos cabe o alerta NÃO PODEMOS PERMITR QUE O DEBATE SE REDUZA A ISSO.

Feminismo é luta por direitos. Por liberdade sobre o corpo, a mente e o coração. Em apenas três semanas, mais de cem feminicídios ou tentativas do crime foram registrados no país, este é um dado assustador e rotineiro da vida das mulheres no Brasil e no mundo e essa é a maior luta dos movimentos feministas contemporâneos: a vida das mulheres, a luta por uma vida sem violência de gênero. É isso que importa.

Dito isto, recorro a leitura obrigatória Mulheres e Poder: um manifesto, onde a historiadora Mary Beard nos fala sobre a voz pública das mulheres na cultura ocidental e traz o silenciamento de mulheres como uma herança do mundo dos antigos gregos e romanos, ou seja, uma prática milenar. Como resultado cultural disso temos, sim, até os dias atuais a noção do discurso como coisa de homem, e não só isso, a autora nos revela que discurso público e oratória eram próprios definidores da masculinidade enquanto gênero.

Em cima disso toda uma educação e um comportamento se molda. O discurso público de mulheres era considerado uma aberração. Ao ponto de nem ser considerada mulher aquela que discursava em público. E as exceções eram raras e setoriais, isto é, somente poderiam falar em defesa dos seus próprios interesses ou na condição de vítimas. O que para Beard ainda permanece forte nos dias atuais, principalmente na esfera política. Mas é importante que saibamos ir além desse padrão que mais parece uma sentença tal como alerta Beard quando diz Espero que a tal visão de longo alcance nos ajude a ir além do simples diagnóstico de “misoginia” em que, com alguma preguiça, tendemos, a reincidir.

O pedido da autora é: precisamos refletir com mais profundidade sobre as regras de nossas operações retóricas. No caso Kéfera isso se reflete, a meu ver, em: 1) Aproveitou que detectou um anti-feminista e ao invés de permitir que ele reduzisse o debate sobre feminismo pautou conceitos de silenciamento, interrupção e explicação; e 2) falou com firmeza e autoridade, evitando que fosse mais um diálogo completamente aleatório com base em achismo. E aqui um exercício que nos cabe é como aprendemos a ouvir as contribuições de mulheres?

Em Quem tem medo de feminismo Negro? A filósofa feminista Djamila Ribeiro nos convida a lutar contra o racismo, o machismo e o achismo! Logo, assistir calada a reprodução de estereótipos como se devemos esclarecer o tempo todo o que é o feminismo de fato não é mais uma opção. A luta feminista é pela vida das mulheres, de acordo com o Mapa da violência de 2015 o número de assassinatos de mulheres negras aumentou em quase 55%; 1 mulher é vitima de estupro a cada 9 MINUTOS; 3 são vitimas de feminicídio a cada DIA; a cada dois dias uma pessoa trans. é assassinada; a cada 2 MINUTOS uma mulher registra agressão sob a Lei Maria da Penha (ver Agência Patrícia Galvão).

Diante disso resta trazer a fala do documentário She’s Beautiful When She’s Angry (“Ela fica linda quando está com raiva”) que resgata a história do movimento feminista dos Estados Unidos nas décadas de 1960 e 1970 e traz no palanque: Estamos furiosas porque faz tempo que lutamos por direitos muito básicos. Então lembrem-se, a luta feminista não se resume a aparência, nem a raiva, essa associação além de equivocada é reduzida, então tentem não aguçar a revolta que mora em nós de ainda ter que lutar por direitos básicos. 

Sobre feminicídio acesse: https://dossies.agenciapatriciagalvao.org.br/feminicidio/

Natasha Vasconcelos