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Antes tudo era nada, vazio primordial

Océlio de Morais

Eu sempre penso na  profundidade teológica e no espanto filosófico sobre a nossa própria existência. Qualquer explicação materialista da existência, seja de qual filósofo for,  não responde à minha saciedade sobre o espírito, o espírito teológico e filosófico da  vida humana. 

Isso é muito profundo. É muito reflexivo. É muito extraordinário, pois oferece questões existenciais para além do senso comum da propriedade material das coisas e da natureza espiritual da pessoa humana

 Se pensarmos na condição de que o planeta Terra é a casa humana móvel na infinitude do cosmos (kósmos) como um sistema  ordenado e regido por leis físicas, certamente, os questionamentos irão fervilhar sobre a origem e a beleza do Universo  e sobre o propósito da humanidade  (mergulhada em múltiplas culturas) nesta “nave” comum, que não pára nessa viagem intergalática, em busca de um sentido à vida,  cujo destino não o sabemos e quase nada sobre a nossa vizinhança cósmica.

“No começo” (Bereshit no hebraic) é a primeira composição de palavras no  livro de Gênesis. “No começo” indica a origem da criação: “No princípio, Deus criou os céus e a terra”. Essa locução adverbial de tempo (“No começo” indica o momento ou o início dos Céus  (enquanto cosmos) e da Terra (planeta da vida possível).

Antes tudo era nada. O  vazio primordial, o nada que antecede à arquitetura do cosmos onde a Terra era sem forma e vazia,  com trevas  que co­briam a face do abismo. Tudo era um abismo sem fim. (Gn. 1:2)

“No começo” indica o cenário metafísico da criação do universo, onde o caos absoluto aguarda a ordenação da inteligência suprema. É o instante em que a transcendência decide se inclinar para inaugurar a imanência da nossa história. 

E depois, no ritmo da criação, vieram luz,  água,  peixes, vegetação, animais  e, por fim, o homem e a mulher para que fossem felizes, mediante a procriação:  “Deus os abençoou e lhes disse: "Sejam férteis e multipliquem-se! “ (Gn. 1:28)

“No começo”, teologicamente, afirma que o universo não é um acidente eterno, mas possui uma origem intencional e amorosa. Filosoficamente, ele responde ao eterno espanto humano, porque passa a existir o  existir o ser.  

Na criação, há um propósito, um bom propósito. Ao mesmo tempo que  a  locução adverbial de tempo “No começo” aponta para a própria temporalidade, indicando que a pessoa humana é um ser histórico, também indica o propósito, que é  a perpetuidade humana, através da  geração da vida humana: “Sejam férteis e multipliquem-se!“ (Gn. 1:28).

 O ser histórico tem de ter domínio sobre  tudo o que existe na terra: “Domine ele sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os grandes animais de toda a terra e sobre todos os pequenos animais ­que se movem rente ao chão"(Gn. 1:25).

Todavia, o domínio sobre a criação, não é uma carta branca  para a exploração tirânica.  Nenhum ser humano pode ser o tirano do outro. O princípio da igual imagem e da idêntica semelhança de Deus impede isso. O domínio sobre a criação é  uma vocação de regência amorosa, um chamado ao cuidado e ao cultivo (majestade servidora). 

Isso é muito profundo, em termos filosóficos:  o “domínio” confere à pessoa humana a responsabilidade existencial da humanidade como guardiã e administradora cósmica do  grande lar e da grande família que Deus estruturou. 

O propósito mais do que especial  e desafiador é o  espiritual, precisamente porque o homem e a mulher são a imagem e são a semelhança de Deus. Por outras palavras:  um Ser constituído como "imagem e semelhança" confere ao homem e à mulher uma dignidade ontológica singular, transfigurando-o em um espelho finito que reflete e participa da Transcendência infinita no horizonte do mundo. 

Esse é o elemento intrínseco da bênção da procriação - “Sejam férteis e multipliquem-se!: na procriação, reflete-se a imagem de Deus,  na exata semelhança de  Deus.

Em suma:  essa espécie de selo divino faz do homem e da mulher  parceiros da criação,   dotado de autoconsciência, liberdade e capacidade de amar.

“No começo” (a abertura de Gênesis) não é um relato cosmológico. É  o fundamento da nossa dignidade ontológica. O início da Bíblia é, fundamentalmente, o abraço inicial amoroso do Criador que chama à vida.

Observemos a primeira e a última nativas da Bíblia Sagrada estão entrelaçadas: “No começo” (no princípio, na origem) indica “o despertar do Ser”. O ínicio da vida. A Última Palavra (Amém) indica  o  Selo da Esperança. A consumação dos tempos. 

“Amém” (Assim seja) , no livro do Apocalipse, é a  palavra que encerra definitivamente o cânone bíblico cristão. O contexto é a consumação dos tempos, a revelação da Nova Jerusalém e o consolo definitivo após as tribulações da história. 

O evangelista João escreve de uma ilha de exílio, Patmos, sob o peso da opressão romana e do sofrimento das primeiras comunidades. O ambiente é de profunda expectativa escatológica, onde a dor presente clama pela restauração futura.

Na perspectiva  teológica, o “Amém” funciona como a assinatura da fidelidade inabalável de Deus, que cumpre integralmente a Sua aliança com os homens. É a certeza de que a última palavra sobre a história não pertence ao mal, mas à vitória do Cordeiro. 

Já numa visão filosófica, a palavra “Amém” resgata o homem da angústia do absurdo e do medo do aniquilamento e do esquecimento eterno.  O Amém valida toda a trajetória humana, afirmando que nossas dores e buscas encontram um porto seguro no infinito. 

O fim da Escritura não é uma destruição niilista, mas a plenitude de um sentido alcançado. Ela é pronunciada por João, o discípulo amado, que atua como a voz litúrgica e responsiva de toda a humanidade redimida. É a resposta humana que ecoa e sela a promessa divina de que o Cristo voltará.

Portanto, ao fechar o livro sagrado com um consentimento solene, a fé cristã coroa a existência com um sim definitivo. É a confissão de fé na existência de Deus, naquela perspectiva da criação: que seja à nossa imagem e semelhança.  Sela-se a comunhão entre o Divino e o humano, através da fé. A última palavra da Bíblia Sagrada é uma declaração real de confiança que ecoa pela eternidade.

E como Jesus se encaixa nisso tudo? Entre o princípio e o fim?  Vamos recordar Jesus como o Alfa e o Ômega

A primeira palavra (No começo = Bereshit) e a última (Amém) se relacionam como o arco perfeito da existência, unindo a origem e o destino da humanidade em um único sopro de significado. 

O "No princípio" plantou a semente da vida no solo do tempo, enquanto o "Assim seja" colhe os frutos dessa criação transfigurada pela graça divina. 

Sob o ponto de vista filosófico, essa conexão cura a fragmentação da alma humana e revela  que nossa jornada terrena não é sem propósito.  Não é um acaso,  mas é uma espécie de peregrinação que retorna consciente e amada para a sua fonte original.

Jesus  veio ajudar a humanidade nesse propósito. Ele manifesta-se historicamente como o Messias que personifica o início criador e o fim consumador do homem. 

Como o Logos primordial, Ele estava lá no início, dando forma ao ser; como o Cristo ressuscitado, Ele é o Amém definitivo de Deus à nossa dolorosa realidade. 

Com Jesus e em Jesus, as promessas da Aliança encontram sua aplicação e cumprimento perfeito, transformando a nossa fragilidade existencial em uma eternidade habitada por Sua presença salvadora, o verdadeiro sentido de sermos humanos.