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“Medusa” à brasileira

Linomar Bahia

Com quantas cabeças se faz uma eleição que, no Brasil, costuma rimar com confusão? Em condições normais, deveriam ser apenas as cabeças que representam a estrutura judiciária responsável pela realização do pleito, dos concorrentes aos postos disponibilizados à preferência dos eleitores e dos habilitados ao exercício do voto obrigatório. Entretanto, há tantos e oportunistas atores internos nas ramificações partidárias informais e palpiteiros de ocasião, com maior ou menor influência, fazendo lembrar a “Medusa”, a personagem da mitologia grega, antes bela e sedutora, com seus lindos cabelos encaracolados, depois transformados em serpentes horripilantes, para uso conforme as conveniências e circunstâncias a que devem se prestar. 

Versão brasileira simbólica do monstro mitológico retrata o que está acontecendo na vida política e institucional no país, transformando o período pré-eleitoral em perigoso serpentário, onde se multiplicam cobras criadas, dotadas de venenos com letalidade capaz de fazer temer como poderá ser o clima predominante antes, durante e depois da abertura das urnas e na proclamação dos eleitos. Os “Perseus” de agora poderão tanto utilizar as cabeças de suas “Medusas” como troféus de conquistas nos terrenos em que militam, como empunhar o órgão decapitado sob a forma de escudo protetor, reproduzindo nos campos de batalha eleitoral o simbolismo da capacidade de petrificar quem ousar lhe fixar o olhar, naquilo atualmente tipificado como “assédio”. 

Vale a pena uma visita aos anos 1550, onde o poeta romano Ovídio descreve haver sido “Medusa” uma bela donzela, sacerdotisa no templo de Atenas, “desejada por muitos pretendentes, mortais e imortais”. Passou a acreditar ser mais bela do que a deusa “Atena” que, inconformada, transformou os belos cabelos em serpentes e deixou seu rosto tão horrível, que a simples visão dela transformaria em pedra todos que a olhassem. Enquanto esperava um filho de Poseidon, o “Deus dos mares”, teria sido decapitada pelo herói Perseu, cumprindo missão do rei Polidetes de Sérifo, ao trazer sua cabeça como presente que, separada do pescoço, produziu o cavalo alado “Pégaso” e o gigante dourado “Crisaor”, passando a ser utilizada por “Atena” como escudo. 

Qualquer semelhança entre pessoas e fatos de agora e de antes, poderá não ser mera coincidência, quando se avalia o cenário e encontramos tantas cabeças e múltiplas serpentes, envenenando candidaturas e contaminando os procedimentos a favor e contra quase tudo, dependendo da visão que convêm do copo “meio cheio”, ou “meio vazio”. Tudo quanto estimula os prognósticos de uma campanha, eleição e desfechos tão imprevisíveis e nunca vistos, marcados por traições, golpes baixos e tantas outras formas existentes e por inventarem, artes no que a atividade política e seus protagonistas e coadjuvantes são especialistas, nos atos e práticas característicos de cobras engolindo cobras, podendo vencer quem tiver a “Medusa” mais venenosa. 

Linomar Bahia