Trilhas sonoras
Com quantas notas musicais poderão ser criadas trilhas sonoras capazes de tornar audíveis ruídos que incomodam aos ouvidos sensíveis, preocupados em primar pelos toque agradáveis ao viver e funcionar? Os malfeitos que assolam o país desde o descobrimento são um desafio a quantos têm qualquer relação com o mundo os sons e possam tornar assimilável coisas que fazem mal aos tímpanos, mesmo aos menos sensíveis aos “bate-estacas” das roubalheiras cada ez mais vultosas.
Algumas sutilezas da vida política e administrativa do Brasil, outras, como na atualidade, nem tanto sutis, tem longa história de inspiração musical, em alguns casos remontando ao descobrimento, a exemplo daquela repetindo que “...foi seu Cabral ...” no embalo de temas carnavalescos. Mas sempre existiram aquelas contendo críticas contundentes a episódios e protagonismos que, por isso, marcaram épocas e foram recordistas em vendas de discos e consequente ressonância na vida nacional.
Em 1984, por exemplo, no fim do regime militar no país, Caetano Veloso lançou “Podres poderes”, título que continuaria fazendo sucesso nos tempos atuais, mais de quatro décadas depois. Classificada como “música de resistência”, incorporava uma espécie de “grito de protesto e a crença na capacidade transformadora da arte contra a tirania, corrupção e passividade social”, unindo multidões de brasileiros que clamavam por mudanças políticas. Qualquer semelhança poderá não ser mera coincidência.
Qualquer pesquisa, mesmo que superficial, revela um repertório farto em ao menos 50 produções musicais com alguma forma de denúncia crítica sobre as agruras nacionais. Ainda nos anos de 1980, o álbum “Que país é este” da Legião Urbana, viria inspirar a Cazuza e Gal Costa a fazerem soar pelo Brasil afora o mesmo drama nacional de todos os tempos, cantando “... Brasil, mostra tua cara / quero ver quem paga / pra gente ficar assim / Brasil / qual é o teu negócio? / o nome do teu sócio? / confia em mim ...” .
Temas e oportunidades acompanham a multiplicidade dos problemas que se avolumam em todas as áreas da vida brasileira, ampliando e piorando as formas e em novos personagens envolvidos, em cifras que não param de brotar das investigações e prisões. Maços de dinheiro, empilhados em espaços tão improvisados que parecem reagir aos absurdos de tanto dinheiro, propiciando avaliações do quanto seriam oportunos para que milhões de brasileiros tenham amenizados os sofrimentos de cada dia.
Provavelmente, não serão os mesmos críticos musicais dos tempos passados, porque já se foram a outros planos da vida ou, simplesmente, mudaram de ideia, adormecidos pelas tetas leitosas da “Lei Rouanet”. Ou, ainda, passaram a comungar da filosofia sarcástica do saudoso “Stanislaw Ponte Preta”, apregoando que “... nos locupletemos todos ...” e confirmando a mordacidade generalizada que já ultrapassou as fronteiras de Brasília e se espraiou por todo o país de que todos são cumplices e são culpados.
Linomar Bahia é jornalista e escritor, membro da Academia Paraense de Letras e da Academia Paraense de Jornalismo.