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Reality shows influenciam comportamento, consumo e linguagem dos brasileiros

Fenômeno impulsionado por programas como o Big Brother Brasil ganha força com as redes sociais, molda hábitos, inspira estilos e levanta reflexões sobre identidade e relações sociais

O Liberal

Os reality shows deixaram de ser apenas entretenimento para se tornarem fenômenos capazes de influenciar comportamentos, consumo e até a forma como as pessoas se expressam no dia a dia. No Brasil, o Big Brother Brasil, especialmente em edições marcantes como a atual, mobiliza milhões de espectadores que não apenas assistem, mas participam ativamente das narrativas, incorporando elementos do programa à própria rotina.

A assistente social Sillienne Bianca Silva é uma dessas espectadoras. Ela conta que acompanha realities, mas destaca o BBB como o mais envolvente. “O meu atrativo é ver a interação social entre os participantes, como é que eles vão se comportar emocionalmente dentro do programa”, afirma. Para ela, o programa vai além do entretenimento e levanta discussões importantes. “Para que nós possamos reavaliar nossas condutas para fora do reality”, diz, citando temas como cancelamento e questões sociais.

Essa ligação com o público se reflete diretamente no comportamento fora da tela. Segundo Sillienne, é comum que expressões e gírias usadas pelos participantes passem a fazer parte do cotidiano. “É pouco improvável que a gente não possa estar falando gírias, agregando algumas dentro das nossas relações interpessoais”, explica. Ela exemplifica com apelidos e bordões que rapidamente ganham força entre os fãs. Além da linguagem, o estilo também influencia, como Ana Paula Renault, que surge como uma mulher empoderada, autêntica e fora do padrão.

Do ponto de vista da comunicação, o engajamento do público é cuidadosamente construído. A jornalista e professora Arcângela Sena explica que a dinâmica dos realities cria envolvimento emocional contínuo. “O público não acompanha só um programa, ele acompanha histórias em construção, com conflitos, alianças, identificação e rejeição”, afirma. Esse processo é potencializado pelas redes sociais, que funcionam como uma extensão do programa. “É nelas que surgem memes, cortes de cenas e a viralização de falas e comportamentos”, destaca.

A especialista também observa uma mudança no papel do espectador. “Hoje ele comenta em tempo real, cria narrativas paralelas e até pressiona decisões. Não quer só consumir, quer interferir”, diz. Esse cenário contribui para que os realities influenciem diretamente a comunicação cotidiana. “A gente percebe isso nas gírias, nos bordões e até na forma de reagir a conflitos”, completa, ao definir o programa como um “espelho coletivo” de comportamentos.

Oportunidades

Além da influência social e cultural, os realities também se tornaram potentes ferramentas de mercado. Para a professora de marketing Cláudia Monteiro, esses programas oferecem uma experiência imersiva para o público e para as marcas. “Ali o público está imersivo na onipresença de uma marca, em tempo real”, explica. Segundo ela, a identificação com os participantes contribui para aproximar o consumidor dos produtos. “Ele vai amando esse personagem e amando também as marcas que o compõem”, afirma.

Cláudia destaca ainda que o envolvimento é tão intenso que ultrapassa a tela. “As pessoas querem experimentar o que os participantes estão experimentando”, diz. Esse movimento é potencializado por estratégias como inserções naturais de produtos e até ferramentas de compra imediata, como QR Codes. Mesmo situações negativas, como conflitos ou polêmicas, acabam gerando visibilidade. “É o que a gente chama de efeito residual. Independentemente disso, há uma presença da marca, e para as marcas isso é sempre bom”, analisa.

Psicologia

Sob a ótica da psicologia, o impacto vai ainda mais fundo. A psicóloga e psicanalista Rafaela Guedes explica que os realities são estruturados para intensificar conflitos humanos universais. “Os reality shows são estruturados de forma a gerar conflitos que são da natureza humana, que envolvem rejeição, rivalidade e desejo de reconhecimento do outro”, afirma. Segundo ela, a exposição contínua dos participantes cria uma sensação de proximidade com o público. “Essas vivências experienciadas 24 horas por dia criam uma relação de intimidade. Eles começam a se conhecer, se reconhecer no outro”, diz.

Esse processo favorece a identificação e até a imitação de comportamentos. “Ao mimetizar, ao imitar aquele comportamento, eu me sinto também como ele, como parte desse ideal que ele representa para mim”, explica. No entanto, a especialista alerta para possíveis impactos, especialmente entre jovens. “Podem influenciar a construção da identidade e, de fato, influenciam uma identidade frágil, porque você está se identificando com o outro em uma situação de estresse”, pontua.

Rafaela também chama atenção para a forma como o público tende a julgar os participantes. “O grupo maior elege de forma dicotômica quem é 100% bom e quem é 100% mal, em um movimento infantil”, afirma. Segundo ela, isso pode levar à desumanização do outro. “Ele deixa de ser um semelhante com pontos fortes e fragilidades e passa a ser um objeto completamente ruim”, completa.

Entre os riscos, a psicóloga destaca o deslocamento de conflitos pessoais para os participantes e a dificuldade de reflexão mais profunda. “Há uma descarga emocional sem muito pensamento simbólico sobre a situação, o que causa um empobrecimento da nossa capacidade de analisar”, explica. Para ela, é fundamental reconhecer a complexidade humana. “Seres humanos são totais e complexos, com forças e fragilidades. É isso que a gente precisa sustentar na vida”, conclui.