PMs ameaçaram testemunha após matarem suspeito: 'vamos atrás de você'
O episódio ocorreu na noite da última segunda-feira (4/5) em Cidade Ademar, na zona sul de São Paulo
O homem que gravou policiais militares matando um suspeito rendido na noite da última segunda-feira (4/5) em Cidade Ademar, na zona sul de São Paulo, foi ameaçado pelos agentes.
Para o Metrópoles, o encarregado de obras Lucas Ferreira Tomaz, de 30 anos, relatou que os agentes entraram na casa dele após a morte do suspeito, tiraram fotos de suas tatuagens e disseram que iriam atrás dele, caso os vídeos “caíssem na mídia”.
Apesar do tom das ameaças, proferidas por agentes das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota) e do 22º Batalhão de Polícia Militar Metropolitano (BPM/M) da Força Tática, Lucas disse não ter medo, como a família dele e os familiares do rapaz morto têm.
“Eu falo: ‘não tenho medo não, pelo amor de Deus, fica em paz’. Estamos na mão de Deus. Não temos que abaixar a cabeça ou temer”, disse ao Metrópoles.
Ele prestou depoimento sobre a ocorrência no Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) e na Corregedoria da Polícia Militar. “Quanto mais eu fizer isso, eles (PMs) não vão encostar a mão em mim”, argumentou.
“Os moleques estavam fazendo coisa errada na hora, beleza, mas não precisava fazer o que fizeram. Ainda se eles tivessem atirado nos policiais, tivessem feito alguma ameaça pros policiais, tivessem trocado tiro e tudo mais… mas não foi isso que aconteceu. Ele (policial) simplesmente foi lá e atirou”, relatou.
Lucas relatou que, após a morte, os militares cercaram o local da ocorrência após o homicídio. “Começaram a ir no bar, na outra casa, começaram a ver as câmeras. Pediram para ver as câmeras e tudo mais. Fechar isso, fechar aquilo”, contou.
As intimidações não cessaram. Lucas contou ainda que os PMs tiraram fotos de suas tatuagens e de sua barriga, com a cicatriz de uma cirurgia a qual foi submetido há 60 dias. Quando perguntaram sobre seus antecedentes criminais, ele não escondeu que já foi preso por tráfico de drogas e receptação.
“Eles pegaram e falaram: ‘se esses vídeos caírem na vida, a gente vai atrás de você’”, contou ao Metrópoles. Os policiais teriam dito ainda que “a Rota não tem que ser gravada” e que “não precisa gravar” ações do batalhão de elite.
Ainda na entrevista concedida ao Metrópoles, Lucas contou que, na noite do episódio, os policiais pediram para entrar na casa de Lucas, o que ele autorizou. “Eles me viram entrando com minha esposa e com minha enteada dentro da minha casa e pediram pra entrar. Em nenhum momento eu falei pra eles não entrarem”, disse.
Segundo Metrópoles, os PMs questionaram se Lucas filmou a ação e se enviou as imagens para alguém. O encarregado de obras confirmou as duas informações. Enquanto um agente fazia perguntas, outro apagava os conteúdos do celular dele, inclusive as mensagens que havia encaminhado a terceiros com os vídeos. Conforme o relato, os conteúdos começaram a circular imediatamente após o envio.
“Eles pegaram e falaram: ‘se esses vídeos caírem na vida, a gente vai atrás de você’”, contou ao Metrópoles. Os policiais teriam dito ainda que “a Rota não tem que ser gravada” e que “não precisa gravar” ações do batalhão de elite.
Nota
Em nota, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) informou que os policiais suspeitaram de um veículo que tentou fugir e colidiu com uma viatura. Um dos ocupantes foi detido e o outro, de 20 anos, permaneceu armado no carro, sendo atingido após intervenção policial. A SSP afirmou que o suspeito morreu no hospital.
De acordo com a SSP, os policiais militares foram afastados do serviço operacional. Não foi informado o número de agentes envolvidos na ocorrência e nem se todos eles receberam a mesma punição.
As armas dos policiais foram apreendidas e passam por perícia, e as imagens captadas pelas câmeras corporais estão sendo analisadas.
Com os suspeitos, foram apreendidos uma pistola calibre 9 mm e porções de maconha, cocaína, crack e lança-perfume.
A SSP destacou que todas as circunstâncias dos fatos são investigadas pelo DHPP, da Polícia Civil. Além disso, a Polícia Militar instaurou um inquérito próprio para apurar a dinâmica da ocorrência.
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