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UFPA amplia ações de assistência, acessibilidade e permanência para estudantes

Universidade oferece serviços para pessoas com deficiência, neurodivergentes, indígenas, quilombolas e outros estudantes, com iniciativas voltadas à inclusão e à permanência acadêmica

Lívia Ximenes e Ana Laura Carvalho
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Garantir o acesso à universidade é apenas uma das etapas para estudantes que ingressam no ensino superior. Para que a formação seja concluída, também são necessárias condições de permanência, acessibilidade, assistência e apoio acadêmico. Na Universidade Federal do Pará (UFPA), diferentes setores e projetos atuam nessas frentes, atendendo estudantes com diferentes necessidades e trajetórias.

Parte dessas ações está concentrada na Pró-Reitoria de Assistência e Acessibilidade Estudantil (PROAES), que possui quatro diretorias e desenvolve serviços relacionados à acessibilidade, alimentação, atenção integral ao estudante e permanência e equidade.

O professor Luís Parlandin, coordenador do Setor de Acessibilidade da PROAES, explica que a organização das ações de inclusão na universidade se intensificou nos últimos dez anos, acompanhando as políticas de inclusão. Segundo ele, a atuação da pró-reitoria está diretamente relacionada não apenas ao ingresso, mas também à permanência dos estudantes. “O trabalho da PROAES impacta diretamente nesse processo de acesso e permanência”, afirmou.

A estrutura da PROAES é formada por quatro diretorias que representam diferentes frentes de atuação. A Diretoria de Acessibilidade trabalha com pessoas surdas e com diferentes tipos de deficiência, oferecendo serviços de tradução e interpretação de línguas, além de apoio e outros serviços de acessibilidade. A área de Alimentação é responsável pelos Restaurantes Universitários, enquanto a diretoria voltada à atenção integral ao estudante atua principalmente nas questões de saúde. Já a área de permanência e equidade trabalha com ações destinadas a garantir condições para que os estudantes permaneçam na universidade.

De acordo com Parlandin, o atendimento realizado pela Diretoria de Acessibilidade considera as características individuais de cada estudante, especialmente porque diferentes pessoas podem apresentar necessidades distintas. Por isso, entre as ações estão cadastro, acolhimento, avaliação e estudo de caso. “Nós falamos de espectro autista, então não há um único padrão. É neurodiversidade, é neurodivergência”, explicou.

Embora os estudantes com Transtorno do Espectro Autista (TEA) estejam entre os públicos atendidos pelas políticas de acessibilidade, a atuação da universidade não se restringe a eles. O trabalho contempla diferentes tipos de deficiência e também envolve outras iniciativas voltadas à assistência e permanência estudantil.

Entre os serviços mencionados pelo coordenador estão os auxílios de permanência e moradia, o kit de tecnologia assistiva, o apoio destinado a responsáveis por crianças de zero a cinco anos, o transporte fluvial, a bolsa ProBac e a sala sensorial instalada no Restaurante Universitário do Setor Básico.

No caso da acessibilidade, a universidade também dispõe de equipe multiprofissional, com profissionais como terapeuta ocupacional e psicopedagogos. O trabalho envolve a análise das necessidades dos estudantes e a construção de planos de ação que podem ser compartilhados com as faculdades.

image O professor Luís Parlandin, coordenador do Setor de Acessibilidade da PROAES, destaca os avanços e desafios para garantir a inclusão de estudantes na UFPA. (Ivan Duarte | O Liberal)

Para Parlandin, esse acompanhamento busca enfrentar diferentes tipos de barreiras existentes no ambiente universitário. Ele destaca que a acessibilidade não deve ser pensada somente a partir da estrutura física dos espaços, mas também das práticas pedagógicas, da comunicação e das atitudes. “A universidade ainda tem uma estrutura arquitetônica, mas não só arquitetônica. Uma estrutura, por exemplo, curricular, de mentalidade e representações, que são ainda do tempo colonial. Então, para a gente promover um processo de inclusão, a gente precisa quebrar essas barreiras”, declarou.

Nesse processo, a adaptação das metodologias de ensino é apontada como uma das necessidades. O coordenador explica que os estudantes possuem diferentes formas de aprendizagem e que isso precisa ser considerado no cotidiano acadêmico. “Precisa ocorrer variação metodológica, entender que as pessoas aprendem de forma diversificada. Isso precisa ser concretizado no dia a dia da sala de aula”, afirmou.

As adaptações também podem ocorrer durante avaliações, de acordo com as necessidades identificadas no acompanhamento. Parlandin cita situações em que um estudante pode precisar de um espaço reservado ou de mais tempo para realizar uma prova. “Esse espaço está cheio de estímulos, então precisa de um espaço reservado, precisa de um tempo maior nessa prova. E isso lhe dá a diferença. Significa que esse aluno também terá o sucesso da forma dele, dele e dela”, explicou.

Sala sensorial no Restaurante Universitário

Uma das iniciativas de acessibilidade está localizada no Restaurante Universitário do Setor Básico. O espaço conta com uma sala sensorial com iluminação e som controlados, criada para reduzir estímulos que podem provocar sobrecarga sensorial.

A estrutura considera as características do próprio restaurante, descrito por Parlandin como um ambiente de grande movimentação e com diversos estímulos simultâneos. “O RU é um espaço gigantesco. É um espaço muito dinâmico, com muitas interferências, sons diversos, estímulos, hiperestímulos que interferem na questão da adaptação da pessoa com autismo. Então, lá nós temos uma sala sensorial que controla essa questão”, explicou.

Projeto Inclui amplia suporte a estudantes

Além da PROAES, a UFPA também conta com iniciativas específicas de apoio à permanência acadêmica. Uma delas é o Projeto Inclui – Inclusão Digital e Permanência Acadêmica, vinculado ao Instituto de Ciências Biológicas (ICB).

O projeto oferece suporte institucional, de forma on-line e presencial, a estudantes da graduação que sejam neurodivergentes, quilombolas e indígenas. A proposta é auxiliar nas demandas acadêmicas e administrativas, facilitar o acesso às informações sobre os serviços oferecidos pela universidade e fortalecer a autonomia dos estudantes.

Entre os serviços estão o suporte para matrícula e utilização de sistemas como Sigaa, Sigaest, Sagitta e Sipac; orientações sobre bolsas e assistência estudantil; informações relacionadas a programas de internacionalização; acesso à Biblioteca Central e às bibliotecas setoriais; auxílio para viagem acadêmica e outros procedimentos da universidade.

A coordenadora do Projeto Inclui, Kariane Amorim, destaca que a iniciativa busca diminuir as dificuldades encontradas pelos estudantes durante a vida acadêmica. “O projeto é importante, pois buscamos reduzir barreiras que dificultam a permanência desses estudantes na Universidade. Ao oferecer orientação individualizada e acessível, possibilita que eles utilizem os sistemas e serviços institucionais com mais autonomia”, comentou.

A equipe também desenvolve uma cartilha didática que deverá reunir orientações e esclarecimentos sobre as principais demandas enfrentadas pelos estudantes no ambiente universitário. O material será utilizado como ferramenta de consulta.

O atendimento do Projeto Inclui ocorre prioritariamente de forma remota, por WhatsApp ou videochamadas, dependendo da situação do estudante. Também existe a possibilidade de atendimento presencial, mediante agendamento prévio. O acolhimento presencial é realizado no prédio do ICB.

Apoio que contribui para a permanência

A experiência da estudante de Psicologia Maria Alexandrino, de 23 anos, mostra como diferentes serviços podem fazer parte da trajetória acadêmica. Natural do interior do Pará, ela se mudou para Belém após ser aprovada no vestibular e atualmente está no sexto semestre do curso. Ela também é coordenadora de Diversidade, Inclusão e Permanência do Centro Acadêmico de Psicologia da UFPA, integra a Associação de Discentes com Deficiência e participa de movimentos e coletivos ligados à defesa de direitos.

O diagnóstico de autismo de Maria ocorreu de forma tardia, durante o primeiro ano da graduação. Antes disso, ela conta que enfrentou dificuldades ao longo da vida e que o início do curso também foi marcado por desafios. “Meu primeiro ano de graduação foi bastante conturbado, porque eu não tinha esse acompanhamento, eu ainda não tinha diagnóstico. Então, passou pela minha cabeça, sim, desistir do curso”, relatou.

O contato com os serviços da universidade ocorreu depois que professores perceberam que ela estava passando por um momento de fragilidade e a orientaram a procurar o serviço de assistência social. A partir desse encaminhamento, ela conheceu a estrutura da PROAES e passou a utilizar diferentes serviços disponíveis.

Maria destaca, entre esses recursos, o acompanhamento pedagógico individualizado, que permite identificar o perfil do estudante e elaborar orientações que podem ser encaminhadas aos professores e à faculdade. “Você pode ter um acompanhamento pedagógico individualizado, onde vão fazer um reconhecimento do seu perfil, vão elaborar um documento, enviar para todos os seus professores, para sua faculdade, como uma maneira de orientação prévia, e o professor já não chega na sala de aula naquela surpresa, sem saber o que ele vai encontrar”, explicou.

Os auxílios financeiros também fazem parte da experiência da estudante. Segundo Maria, o apoio é fundamental para sua permanência em Belém, onde vive sozinha enquanto cursa a graduação. “Eu recebo da UFPA auxílios financeiros que me permitem estar aqui estudando e poder pagar as minhas contas, pagar o aluguel, pagar a água, pagar a energia, pagar a internet. Enfim, é fundamental essa questão dos auxílios financeiros”, afirmou.

Além da assistência financeira e pedagógica, Maria também relata utilizar serviços de saúde oferecidos pela universidade, incluindo acompanhamento psicológico e psiquiátrico e atendimentos médicos por meio de outros programas da instituição.

Inclusão como responsabilidade coletiva

Para Maria, a existência de estruturas específicas de acessibilidade é fundamental, mas não suficiente para garantir uma universidade plenamente inclusiva. Na avaliação dela, a acessibilidade precisa estar presente em diferentes setores e relações dentro e fora do ambiente acadêmico.

Ao falar sobre a necessidade de ampliar a compreensão sobre inclusão, ela destaca que a responsabilidade não pode ficar concentrada em um único setor da universidade. “A acessibilidade e a inclusão são transversais. Então, ela tem que acontecer em todas as camadas da sociedade. Não dá para esperar que só a Diretoria de Acessibilidade resolva tudo”, afirmou.

A estudante também chama atenção para situações em que o aluno recebe acompanhamento especializado, mas continua encontrando dificuldades dentro da sala de aula. Para ela, a formação e a conscientização dos professores são fundamentais para que as adaptações necessárias sejam efetivamente respeitadas. “Não adianta que a gente tenha esse supersistema supercomplexo, com pessoas muito competentes que estão aqui, e a gente fique lidando com essas barreiras fora daqui. Porque, infelizmente, não tem como a Diretoria de Acessibilidade estar do lado de cada aluno”, declarou.

A defesa da inclusão, segundo Maria, também deve envolver toda a comunidade. Para ela, não é suficiente esperar que somente as pessoas com deficiência se mobilizem pela garantia de seus direitos. “Todas as pessoas têm um papel importante na luta da inclusão e da acessibilidade”, disse.

Uma universidade mais plural

O aumento da presença de estudantes autistas também é apontado por Parlandin como parte de uma transformação mais ampla na sociedade. Na UFPA, o número de estudantes com TEA ingressantes passou de três, em 2016, para 125, em 2026. Atualmente, são 398 estudantes autistas na graduação.

Para o coordenador, a universidade precisa acompanhar essas transformações e garantir que o estudante encontre condições para desenvolver sua formação respeitando suas particularidades. Ele destaca que a inclusão precisa ser construída diariamente e envolver diferentes setores da instituição.

Ao falar sobre o compromisso da UFPA com esse processo, Parlandin reforça que a inclusão não deve ser vista apenas como uma obrigação legal. “Aqui na UFPA, nós estamos numa luta cotidiana para promover a inclusão. Não se trata só de um aspecto legal. É um compromisso que a gente assume, de corpo e alma”, afirmou.

Na avaliação do professor, o objetivo é fazer com que estudantes com deficiência e autismo encontrem, dentro dos cursos, metodologias, práticas pedagógicas e pessoas preparadas para contribuir com sua trajetória acadêmica. “Para que ela chegue no curso e ela encontre ali uma metodologia, uma pedagogia, pessoas que entendem e que trabalham e cooperam para que essa inclusão ocorra de fato. E não ocorra o silenciamento”, declarou.

Para ele, o resultado esperado é uma universidade capaz de acolher diferentes trajetórias e necessidades. “Queremos ver essa universidade cada vez mais plural”, concluiu.

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