Instituto científico mais antigo da Amazônia e segundo maior museu de história natural do Brasil, o Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG) completa 160 anos nesta terça-feira (6). Em uma longa trajetória, a instituição vem redesenhando a forma de fazer ciência na Amazônia, fortalecendo sobretudo o diálogo e a parceria nas pesquisas científicas com os povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos, mostrando à sociedade como a integração entre o conhecimento tradicional e o científico pode — e deve — caminhar lado a lado na busca pela conservação da sociobiodiversidade amazônica.
Em seus “160 anos de Amazônia”, construiu um acervo com 4,5 milhões de registros, distribuídos em 19 coleções científicas. A trajetória do Museu está registrada na sua produção científica de mais de um século e meio. De acordo com publicações de Nelson Sanjad, a instituição foi fundada em 1866 pelo naturalista e secretário de governo da Província do Pará, Domingos Soares Ferreira Penna. O então “Museu Paraense” só se consolidou anos depois, em 1894, sob a direção do zoólogo suíço Emílio Goeldi, que promoveu uma profunda reforma na instituição, transformando a cara do Museu, de um antigo "gabinete de curiosidades" para um centro de pesquisa científica sobre a história natural e etnográfica da Amazônia, reconhecido internacionalmente. As informações são da Agência Museu Goeldi.
Pesquisadores do Museu, como Lucia Hussack Van Velthem e Helena Pinto Lima, registram que, ao longo da sua trajetória institucional, o MPEG tem realizado mudanças na natureza das suas relações com povos e comunidades tradicionais e seus saberes, reconhecendo-os como fundamentais na salvaguarda, documentação, gestão de acervos e produção colaborativa de conhecimento científico sobre a região. Na área das ciências humanas, por exemplo, pesquisas realizadas em parceria com povos indígenas têm ampliado os conhecimentos nas áreas de etnografia, linguística e arqueologia e suprido demandas por novos estudos, vindas dos próprios povos.
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Registros históricos
Ainda conforme os registros históricos da instituição, no século XIX, o conhecimento sobre Amazônia era produzido predominantemente por estrangeiros que levavam itens e suas observações para os museus europeus e norte-americanos. Com a estruturação de uma base científica sediada na Amazônia durante a gestão de Emílio Goeldi (1894 a 1907), foi possível organizar coleções e realizar pesquisas locais que contribuíram para o desenvolvimento regional.
Goeldi foi responsável pela ampliação da divulgação científica da instituição, a partir da criação do “Boletim do Museu Paraense”, em 1894, um dos primeiros periódicos do país. Ele também contratou um corpo técnico e científico qualificado para a realização das pesquisas científicas e estruturação das coleções. Figuras como o botânico Jacques Huber, o zoólogo Adolf Ducke e a ornitóloga Emília Snethlage contribuíram para ampliar as coleções científicas do Museu.
O diretor do MPEG, Nilson Gabas Júnior, destacou a importância desses e de outros pesquisadores para a memória institucional do Museu Goeldi. “Ferreira Penna, Goeldi, Huber e Snethlage representam alguns dos nomes fundadores de uma história muito maior. Ao longo desses 160 anos, inúmeros pesquisadores, técnicos, servidores, colaboradores e parceiros dedicaram suas trajetórias ao Museu, produziram conhecimento, formaram novas gerações e ampliaram seus acervos. É esse esforço coletivo e continuado que permitiu ao Museu Goeldi atravessar mais de um século e meio, mantendo sua relevância como instituto de pesquisa pioneiro na Amazônia e como museu de história natural comprometido com a salvaguarda e a compreensão da sociobiodiversidade amazônica”.
Expansão das bases físicas estratégicas
Também foi na Era Goeldi que o Parque Zoobotânico (PZB) foi criado, no ano de 1895, como um centro de pesquisa focado na fauna e na flora amazônicas, integrando em um único espaço o lazer da população paraense e a divulgação científica. Essa relação da população com o PZB perdura até hoje, 131 anos depois, sendo um dos pontos da cidade mais frequentados por moradores e turistas.
Com a expansão da instituição para o Campus de Pesquisa, no bairro de Terra Firme, em 1979, e a criação da Estação Científica Ferreira Penna, em 1993, na Floresta Nacional de Caxiuanã, o Museu consolidou bases para o monitoramento socioambiental de longo prazo. Os dados gerados pelas equipes da instituição subsidiam diretamente políticas públicas, como o Zoneamento Ecológico-Econômico (ZEE), o planejamento de unidades de conservação, diagnósticos de impacto ambiental e a elaboração da lista de espécies ameaçadas.
Vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) desde 1985, enquanto unidade científica, o MPEG tem como missão institucional realizar pesquisas, promover inovação, formar recursos humanos, conservar acervos e comunicar conhecimentos sobre a Amazônia. Dados da última avaliação de desempenho da instituição revelam que, mesmo atravessando momentos desafiadores em sua história, como problemas orçamentários e redução no número de servidores, a produção científica do MPEG se manteve intensa ao longo dos anos.
Em 2025, ano da última avaliação, foram publicados 224 artigos científicos, livros e capítulos de livros; as coleções científicas foram ampliadas, com a inserção de 7,9 mil itens nos acervos; e 53 novas espécies foram descobertas e incluídas nas coleções biológicas. Esses números avançam ano após ano. No âmbito da formação acadêmica, o MPEG mantém programas de pós-graduação em parceria com a Universidade Federal do Pará (UFPA), a Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra), a Universidade Federal do Amazonas (Ufam), a Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa) e a Embrapa Amazônia Oriental. E, a partir de 2015, de maneira autônoma, mantém o Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade e Evolução (PPGBE) e, mais recentemente, o Programa de Pós-Graduação em Diversidade Sociocultural (PPGDS).
A formação de novos pesquisadores tem sido um ponto estratégico para a instituição e para o desenvolvimento da região. Desde o processo de federalização, em 1950, o Museu Goeldi tem qualificado pesquisadores para atuar na Amazônia. Essa formação abrange, inclusive, crianças e adolescentes por meio do Clube do Pesquisador Mirim, projeto que estimula e potencializa a participação e o interesse da juventude pela ciência. Outros programas, como os de estágio, de bolsas de iniciação científica e de capacitação institucional, não apenas incentivam jovens e profissionais a produzirem ciência, como também são responsáveis por boa parte da produção científica da instituição atualmente.
Além disso, os pesquisadores participam de inúmeras redes de pesquisa e programas científicos, nacionais e internacionais, formando verdadeiras alianças científicas com outras instituições públicas de pesquisa, fundamentais para criar uma agenda científica comum para entender a dinâmica socioambiental da Amazônia e seus impactos na economia e ecologia regional.
Programação de aniversário
As comemorações do aniversário do Museu Goeldi começam com uma atividade aberta ao público no seu Parque Zoobotânico (PZB) nesta terça-feira (6).
Na semana seguinte, no próximo dia 15, haverá um concerto comemorativo, no Theatro da Paz, em Belém, com a Amazônia Jazz Band. Em fase de preparativos finais, essa última atividade tem a parceria da Embaixada Suíça no Brasil, que mantém projetos colaborativos com o Museu Goeldi, e deverá ter seus detalhes divulgados em breve.
Normalmente, o Parque do Museu fica fechado para manutenção às terças-feiras. Mas, por ocasião do aniversário da instituição, abrirá suas portas neste dia 6 de outubro, excepcionalmente, das 9h às 16h, sem a cobrança de ingressos e oferecendo uma manhã de atividades guiadas aos visitantes. Logo na abertura do espaço, a equipe do Serviço de Educação (Seedu) vai receber o público em frente ao Pavilhão Domingos Soares Ferreira Penna, a ‘Rocinha’, para a primeira das três trilhas programadas, a “Histórica”.
O público visitante também vai poder olhar, tocar e interagir com peças da Coleção Didática Emília Snethlage, que possui mais de 4 mil itens representativos das grandes áreas de pesquisa do Museu: zoologia, botânica, geociências e ciências humanas. Essa atividade ocorre durante a manhã, no hall do Centro de Exposições Eduardo Galvão, com mediação.
Ainda das 9h às 12h, nas exposições “Diversidades Amazônicas” e “Katxar Kum Neero - nossos lugares verdadeiros”, mediadores vinculados às pesquisas do Museu apresentarão os saberes relacionados às mostras. Na “Diversidades”, a mediação focará nas áreas da geociências, zoologia, entomologia, arqueologia e tecnologias sociais. Na “Katxar Kum Neero", haverá a extroversão de saberes relativos ao povo Katxuyana e às línguas Karib. Também no Aquário Jacques Huber serão compartilhadas informações das áreas de ictiologia e de herpetologia, que estudam peixes e répteis e anfíbios, respectivamente.
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