Projeto da UFPA devolve vida e autonomia aos pacientes com esclerose múltipla
Paciente relata melhorias após atendimento por projeto de extensão
“Eu consegui reviver em três meses”, comemora a pedagoga Tatiane Lisboa dos Santos, 47 anos, diagnosticada com Esclerose Múltipla (EM) desde o ano passado. A profissional, acometida pela doença rara, conseguiu melhorar a qualidade de vida após receber o diagnóstico da doença e passar a ser acompanhada por profissionais do Projeto de Extensão “Acolhimento e cuidado terapêutico ocupacional de pessoas com Esclerose Múltipla”, da Universidade Federal do Pará (UFPA).
Os sintomas e a piora do quadro de esclerose múltipla acontecem de maneira repentina e podem causar diferentes problemas neurológicos. Portadores da doença autoimune têm o sistema nervoso central — cérebro e medula espinhal — afetado, o que pode provocar problemas motores, sensoriais e visuais, além de fadiga extrema. A doença pode causar impactos severos na rotina de cada pessoa. Neste domingo, 30 de agosto, quando ocorre o Dia Nacional de Conscientização sobre a Esclerose Múltipla (EM), o projeto de extensão da Faculdade de Terapia Ocupacional da UFPA mostra que é possível promover a reabilitação e garantir melhor qualidade de vida às pessoas afetadas pela doença.
A iniciativa foi fundamental para a melhoria da qualidade de vida da pedagoga Tatiane dos Santos. Alguns meses após os primeiros sintomas, Tatiane teve o diagnóstico confirmado, mas sofreu com vários problemas de saúde, como fadiga, perda de equilíbrio, dificuldades de mobilidade e para caminhar, perda de memória, falta de foco e manifestação de dores corporais intensas.
“Esse projeto é o único que está dando apoio aos pacientes com Esclerose Múltipla no Estado do Pará. Está sendo de uma importância muito grande para mim. Eu consegui reviver em três meses, justamente porque eu não saía de casa. Não conseguia nem caminhar, nem andar. Eu voltei a caminhar, para mim isso foi muito bom. Com as orientações aqui dentro do atendimento e de saber como conduzi essa minha coordenação [motora] e essa marcha”, revela.
De acordo com a coordenadora do projeto, professora Jeice Sobrinho Cardoso, terapeuta ocupacional e doutora em Psicologia, a Esclerose Múltipla (EM) é uma doença autoimune que afeta o sistema nervoso central e apresenta sintomas imprevisíveis. A ciência ainda não conseguiu determinar qual é a origem da doença, porém as mulheres na faixa etária de 20 a 40 anos são as mais afetadas.
“A doença é autoimune, o que isso quer dizer? É como se os nossos neurônios acometidos se atacassem, quando isso ocorre, que é o surto da doença, as conexões são interrompidas. É como se cortassem um fio elétrico e parassem de mandar informações para onde se precisa. Na esclerose múltipla, a gente nunca sabe em que área isso vai acontecer. Ela pode acometer tanto funções sensoriais, motoras, a fala, a cognição ou a memória”, explica.
A equipe do projeto faz o acolhimento e atua de acordo com as especificidades e necessidades de cada paciente, por meio de intervenções voltadas à reabilitação neurológica, física e cognitiva. Também são trabalhadas tecnologias assistivas voltadas à adaptação das atividades diárias dos pacientes. O tratamento com medicamentos, aliado à terapia ocupacional, é vital para que a doença seja controlada. Diferentemente do que se pensa, a Esclerose Múltipla não é uma doença progressiva, podendo haver remissão dos sintomas.
“A esclerose múltipla não é progressiva, diferente de outras patologias do sistema nervoso central, ou seja, se o paciente estiver fazendo o controle medicamentoso, seguindo o protocolo estabelecido, prescrito pelo neurologista, se ele faz o acompanhamento correto, se tem algum problema e busca esse atendimento, a expectativa de vida dele não é tão implicada. A gente sempre diz a pessoa com esclerose múltipla não tem uma vida normal, mas ela pode se ela fizer o protocolo dela correto as chances de ela ter uma vida próxima ao normal é muito grande”, detalha.
Neuromodulação
O projeto da UFPA também tem disponibilizado um tratamento complementar chamado neuromodulação, geralmente oferecido apenas em clínicas particulares devido ao alto custo. O projeto também permite que os estudantes de Terapia Ocupacional coloquem em prática seus conhecimentos. A terapeuta ocupacional e mestranda em Neurociências e Comportamento Izabelle Miranda aplica a neuromodulação nos pacientes com EM.
A neuromodulação é um conjunto de técnicas médicas que utilizam estímulos elétricos, magnéticos ou químicos para alterar, regular ou reconfigurar a atividade do sistema nervoso, com o objetivo de equilibrar o funcionamento dos neurônios, aliviar sintomas ou restaurar funções perdidas.
A pesquisadora aplica 10 sessões da técnica de Neuromodulação Elétrica Transcraniana por Corrente Contínua (conhecida como tDCS ou ETCC), um tratamento não invasivo e indolor que utiliza correntes elétricas de baixa intensidade (1 a 3 mA), aplicadas no couro cabeludo para modular a atividade do cérebro. A ideia é estimular as sinapses e favorecer o processo de reabilitação neurológica.
“A gente está utilizando a TDCS – a Neuromodulação Elétrica Transcraniana por Corrente Contínua. Ela aliada a reabilitação dentro da terapia ocupacional, a gente etm muitos ganhos que poderiam geralmente ser alcançados em sete meses, diminuir para dois meses. Então, é para potencializar os ganhos dentro dessa reabilitação e acelerar o processo de recuperação”, detalha.
Os pesquisadores também realizam a neuromodulação periférica quando a doença atinge membros do corpo, como braços, pernas ou mãos.
Tatiane sentiu melhoras significativas após a primeira sessão de neuromodulação. A pedagoga foi uma das primeiras a passar pelo protocolo. Ela relatou que conseguiu dormir tranquilamente naquele dia, sem as fortes dores que a faziam sofrer e perder noites de sono.
“Para mim foi bom, porque eu cheguei em casa, nem tomei o remédio. Tomei um banho, jantei, me joguei na cama e fiquei dormindo. O corpo relaxou mesmo, não senti dor, meu esposo que me acompanha também notou. A semana passada eu passei toda chorando por conta das dores no corpo, porque você não pode se mexer, doí tudo. Essas dores são como pontadas dentro do corpo, vai correndo, ela vai dá cabeça, no olho, aí vai para o peito, para a costa. É assim que funciona”, conta.
A partir de agora, Tatiane pode ter a esperança de usufruir de uma melhor qualidade de vida e voltar a ter dias mais próximos da normalidade, mesmo convivendo com a doença.
Os pacientes interessados em participar das atividades podem procurar a equipe do projeto pelo e-mail emacolhimentoecuidado.to@gmail.com para agendar o atendimento. Após passarem por um acolhimento inicial, em que são esclarecidas dúvidas e apresentado o diagnóstico, os atendimentos são organizados e desenvolvidos de acordo com a agenda disponível.
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