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SEGURANÇA

Ligações insistentes: saiba o que fazer em casos de chamadas indesejáveis e golpes por telefone

O advogado Marcos Pereira, especialista em Direito Criminal, explica que, ao atender ligações de números desconhecidos, a vítima já passa uma informação crucial — de que a linha está ativa e pode ser contactada

Lívia Ximenes

6 de agosto de 2026 às 08:00

As chamdas indesejadas são diárias e constantes, conforme relatos

As chamdas indesejadas são diárias e constantes, conforme relatos ( Foto: Foto: Carmem Helena | O Liberal )

Ligações insistentes e golpes por telefone seguem presentes no dia a dia dos brasileiros, mesmo com aplicativos e ferramentas de bloqueio. Sejam chamadas de telemarketing, para ofertar produtos e serviços, ou de golpistas, alegando compras e transferências em valores altos, os aparelhos celulares tocam a todo momento. Por isso, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) e empresas de telefonia têm investido em novas tecnologias que auxiliam na identificação de chamadas legítimas e no bloqueio de ações abusivas ou criminosas.

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O advogado Marcos Pereira, especialista em Direito Criminal, alerta que há cinco tipos de falsificações comuns em contatos via telefone: falsa central de atendimento, que informa sobre uma compra suspeita e conduz a vítima a transferir valores; falso gerente de banco, que pede a instalação de aplicativo para supostamente solucionar problemas; parente ou WhatsApp clonado, que solicita o envio rápido de dinheiro; falso empréstimo consignado, que cobra taxas antecipadas; e falsas situações envolvendo entrega, leilão ou pendência com órgão público, que exigem pagamento.

Além disso, Marcos ressalta que chamadas de poucos segundos, que apenas tocam e são encerradas, podem ser utilizadas como parte de uma triagem para verificar se determinada linha está ativa.

Moradores de Belém sofrem com as chamadas

A técnica de enfermagem e vendedora Francilaura Aguiar relata que recebe ligações a cada hora, principalmente de contatos desconhecidos, operadoras de telefone e supostos bancos. “É uma perturbação”, fala. Certa vez, ela quase caiu em um golpe, no qual os criminosos se passaram por funcionários da Caixa Econômica Federal.

Francilaura afirma que recebe muitas ligações de operadoras de telefone
Francilaura afirma que recebe muitas ligações de operadoras de telefone (Foto: Carmem Helena | O Liberal)

“Me ligaram e falaram que eu tinha ganhado um prêmio no meu aplicativo. Deram todas as minhas informações. Eles disseram: ‘Olha, você vai agora na Caixa Econômica para resgatrar seu prêmio’. Eu peguei a bicileta e fui. Chegando lá, eles queriam que eu digitasse a minha senha. Meu marido, na mesma hora, me ligou e eu contei. Ele disse: ‘Não, desliga o teu telefone’”, relata.

Assim como a técnica de enfermagem, o vendedor Vinícius Lima afirma que as principais ligações recebidas são de supostos bancos e operadoras. Segundo o jovem, mesmo com o bloqueio, os criminosos que aplicam golpes e agentes de telemarketing seguem entrando em contato por meio de outros números. Ao notar que uma chamada é suspeita, logo Vinícius desliga e restringe o contato.

Vinícius, para evitar as chamadas, prefere deixar o telefone no modo avião
Vinícius, para evitar as chamadas, prefere deixar o telefone no modo avião (Foto: Carmem Helena | O Liberal)

“Olha, às vezes [as ligações] são de 15 em 15 minutos. Mesmo a gente bloqueando esses números, a gente recebe várias e várias ligações dessas pessoas. A gente vê nas redes sociais e na internet que muitas pessoas, infelizmente, caem nesse tipoo de golpe, dessas pessoas se passando por empresas”, diz.

Com a bancária Danielle Barros a situação não é diferente. Ao receber as chamadas, que em maioria são de operadoras de telefone, ela desliga e bloqueia o número. Entretanto, tal qual com Vinícius, as ligações são insistentes por meio de outros contatos.

Danielle diz que nunca atende os números desconhecidos
Danielle diz que nunca atende os números desconhecidos (Foto: Carmem Helena | O Liberal)

“Eu conheço pessoas que recebem esse tipo de golpe e caem muito, por sinal. Às vezes, eu perco a conta [de quantas ligações]. É sempre isso. Se a gente recusar uma, vem logo outra. É uma atrás da outra, porque são vários números que eles usam”, fala.

Como identificar um golpe

O advogado Marcos Pereira explica que a diferença entre uma chamada legítima e uma tentativa de golpe ou prática abusiva está principalmente no que é solicitado durante a ligação. O especialista alerta que não é possível confiar apenas no número que aparece na tela, já que a identificação da chamada pode ser falsificada. “O número pode ser falsificado e a identificação visual ficou mais frágil. A agência hoje aposta na tecnologia de ‘Origem Verificada’, que mostra nome, logotipo e motivo da chamada, mas ela depende de aparelho e redes compatíveis”, explica Marcos.

Para o advogado Edson Ribeiro Saldanha Neto, o consumidor deve desconfiar especialmente quando a pessoa do outro lado da linha cria uma situação de urgência e exige alguma ação imediata. “Hoje, infelizmente, o número telefônico que aparece na tela já não é garantia de que a ligação seja verdadeira. Os criminosos conseguem, inclusive, fazer parecer que estão ligando do telefone oficial de um banco ou de uma empresa. Assim, o consumidor deve desconfiar sempre que houver pressão para agir imediatamente, com pedidos de senha, código recebido por SMS, token, PIX ou instalação de aplicativos”, orienta.

Segundo Edson, uma das formas mais seguras de verificar a legitimidade do contato é desligar a ligação e procurar a instituição por conta própria, utilizando os canais oficiais. “A orientação é simples: desligue a ligação e faça você mesmo o contato com a empresa pelos canais oficiais. É muito mais seguro”, afirma.

Marcos aponta três sinais recorrentes na maioria dos golpes: pressa, pedido de dados que a própria instituição já deveria possuir e ordem para transferir valores para uma suposta ‘conta segura’. “‘Conta segura’ não existe, é frase de golpista. O teste é simples e nunca falha: desligue e ligue você mesmo para o número oficial, o do verso do cartão ou do aplicativo. Nenhum golpista sobrevive a esse teste, porque ele precisa que você continue na linha dele”, ensina.

Edson acrescenta que entre os golpes mais frequentes estão o falso atendente de banco, que informa sobre uma suposta compra suspeita no cartão; a falsa central de segurança; o golpe do PIX; a falsa atualização cadastral; o falso empréstimo; e pedidos para que a vítima confirme códigos recebidos por SMS ou WhatsApp. “Em todos eles existe um ponto em comum: o criminoso tenta criar um clima de urgência para que a vítima tome decisões sem refletir”, explica.

Atender chamadas insistentes oferece riscos?

Ao atender uma chamada suspeita, a informação de que a linha está ativa e possui um usuário já pode ser útil para quem está do outro lado. Marcos explica que, no mercado de listas, esse tipo de informação pode ter valor.

Durante a conversa, o golpista também pode tentar coletar dados aos poucos, formando uma espécie de quebra-cabeça com informações suficientes para, posteriormente, se passar por uma instituição ou pessoa conhecida. “Cada resposta é uma peça. Quando ele liga de novo, às vezes dias depois, já sabe o suficiente para parecer o banco”, afirma Marcos.

O advogado também alerta para o risco crescente de utilização de inteligência artificial para clonagem de voz. “Há hoje o risco crescente do uso da gravação de voz. Ferramentas de clonagem por inteligência artificial precisam de poucos segundos de áudio para gerar uma chamada falsa em nome da vítima, dirigida a um parente”, exemplifica.

Edson, entretanto, explica que atender uma chamada de spam, por si só, normalmente não significa que o consumidor sofrerá um prejuízo. O problema ocorre quando a conversa evolui para o fornecimento de informações ou para a execução de procedimentos orientados pelo suposto atendente.

“Atender a ligação, por si só, normalmente não causa prejuízo, mas o risco surge quando a conversa evolui e a vítima passa a fornecer informações pessoais, confirmar dados, seguir orientações do golpista ou instalar aplicativos que permitem o acesso remoto ao celular”, explica.

Ele também alerta para os links enviados após ligações suspeitas. “Outro cuidado importante é nunca clicar em links enviados logo após essas ligações, pois eles podem direcionar para páginas falsas ou instalar programas maliciosos”, afirma.

Quais dados nunca devem ser fornecidos?

Entre as principais recomendações dos especialistas está a de não compartilhar informações bancárias ou códigos de autenticação por telefone. Edson orienta que senhas bancárias, códigos recebidos por SMS, tokens, número completo do cartão, código de segurança (CVV), senhas de aplicativos e chaves de segurança nunca devem ser fornecidos durante uma ligação suspeita. “Instituições financeiras sérias não solicitam esse tipo de informação por telefone. Quando isso acontece, o consumidor deve encerrar imediatamente a ligação”, orienta.

Marcos também ressalta que a maioria dos golpes começa com algum tipo de exposição ou vazamento de dados pessoais. Segundo ele, quando há falha na proteção dessas informações, pode existir responsabilização nos termos da Lei Geral de Proteção de Dados (Lei nº 13.709/2018), dependendo das circunstâncias do caso.

Como denunciar e se proteger de chamadas indesejadas

As denúncias de ligações indesejadas devem ser feitas pelos canais oficiais da Anatel: aplicativo Anatel Consumidor; site; e número 1331, em dias úteis de segunda a sexta-feira, das 8h às 20h. Ademais, a vítima também pode denunciar presencialmente nas capitais dos estados brasileiros. Em Belém, a sede da agência fica na travessa Rosa Moreira, número 476, bairro do Telégrafo e o atendimento ocorre em dias úteis de segunda a sexta-feira, das 9h Às 17h.

Para tentar previnir o contato insistente de telemarketing ou de supostos golpistas, ferramentas de bloqueio podem ser adotadas. O Governo Federal disponibiliza a plataforma Não Me Perturbe, na qual o usuário pode cadastrar o número de telefone e bloquear instituições financeiras e de telecomunicações. O bloqueio manual de chamadas desconhecidas também é uma alternativa.

As chamadas de spam podem ser evitadas antes mesmo que o contato ocorra. Em dispositivos Android, o usuário deve abrir o aplicativo Telefone, clicar nos três traços ou pontos presentes na parte superior da tela, ir para Configurações e acessar o Identificador de Chamadas e Spam, ativando as opções presentes. Para usuários de iOS, é preciso ir no aplicativo Ajustes, buscar pelo aplicativo Telefone e rolar até a opção de Filtrar Números Desconhecidos — nesse ponto, o portador do celular pode escolher entre Perguntar Motivo da Ligação e Silenciar.

O que fazer ao cair em um golpe

O especialista lista cinco passos importantes para seguir logo após notar que caiu em um golpe. Marcos alerta que “o relógio é o que decide se o dinheiro volta” — ou seja, quanto antes agir, melhor.

  1. Ligar imediamente ao banco e solicitar registro formal da contestação. Em casos de PIX, o instrumento é o Mecanismo Especial de Devolução (MED), do Banco Central. O prazo para registro é de até 80 dias corridos, mas a devolução depende se ainda há saldo na conta receptora.
  2. Registrar boletim de ocorrência, de forma presencial ou por meio da delegacia virtual
  3. Anotar e guardar o número que ligou, horário da chamada, capturas de tela que comprovem o ocorrido e número de protocolo dos atendimentos bancários
  4. Alterar as senhas e revisar dispositivos autorizados no aplicativo, sinalizando a operadora em caso de suspeita de clonagem de chip
  5. Registrar a reclamação no Programa de Proteção e Defesa do Consumidor (Procon) e no site consumidor.gov.br. Em situações nas quais a origem for chamada telefônica, fazer o mesmo na Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel)