Sem ter mais como opções para conseguir um leito de maneira regular, a família do aposentado Paulo Nazareno de Jesus Santos, de 68 anos, decidiu protestar na frente do Pronto-Socorro Humberto Maradei Pereira (PSM do Guamá), na tarde desta segunda-feira (02), para cobrar a transferência do paciente para um hospital de referência.
O idoso está internado há quase um mês, desde o dia 9 de outubro, aguardando por um leito. Paulo, que é diabético e hipertenso, está com três dedos do pé esquerdo necrosados e corre o risco de perder a perna esquerda devido a falta de tratamento.
O professor Michel Oliveira, genro do idoso, conta que o sogro começou se queixando de uma dor na ponta do dedo. “Inicialmente, ele começou tomando medicação em casa e depois o levamos ao hospital. Quando chegou lá, a equipe médica viu que ele precisava de um maior acompanhamento. Agora, ele segue recebendo atendimento paliativo. Três dedos do pé já necrosaram. Ele está com uma obstrução perto da virilha. A médica informou que, se a situação não mudar, ela precisará amputar a perna dele", afirma.
VEJA MAIS
Oliveira diz que os parentes já procuraram os órgãos públicos, inclusive a Defensoria Pública (DPE) e o Ministério Público do Pará (MPPA), para que seja providenciado o leito ao idoso. Na última quarta-feira (28/10), o MPPA solicitou ao Central Estadual de Regulação (CER), no prazo de cinco dias, prioridade na adoção das medidas cabíveis ao atendimento da demanda de Paulo, para um hospital de referência com atendimento especializado.
“A última sentença que tivemos na 2ª Vara do Juizado Especial da Fazenda Pública de Belém foi bloqueada R$ 30 mil do município. A situação está extremamente difícil. Vamos produzir cartazes e protestar na frente do Pronto-Socorro, até que apareça alguém que solucione o problema. Estamos acampando no hospital. Já fizemos tudo o que podemos”, relata o docente, que mora junto com a companheira em Parauapebas, no sudeste do Pará.
A filha do aposentado professora Jéssica Reis, de 34 anos, aponta indignada o descaso com os pacientes da rede pública que necessitam de tratamento. “É um exame considerado simples na rede particular, mas o hospital aqui não tem esse aparato. E o hospital que tem não está aceitando ele lá. O que a gente quer é a transferência. Não pode ficar nisso de não tem, porque vai chegar na fase de perder a perna. Eles não vão agora retirar o dedo dele ainda, porque se retirar a necrose vai aumentar, já que não tem estrutura para desobstruir a veia”, reclamou. “Ele veio com uma lesão no dedo e vai sair daqui sem perna por irresponsabilidade do governo? Que saúde pública é essa?!” indaga.
A Secretaria Municipal de Saúde de Belém (Sesma) informou, por meio de nota, que “o paciente está cadastrado no sistema de regulação, aguardando transferência para uma unidade de referência. A Sesma informa, ainda, que ele está recebendo todo o suporte e a assistência necessários da equipe de saúde responsável pelo atendimento”.
No início da noite, após o protesto, a família do paciente foi informada que um leito foi disponibilizado para o aposentado em um hospital de referência. A Sesma confirmou que "a transferência do paciente Paulo Nazareno de Jesus Santos foi autorizada para o Hospital Regional Dr. Abelardo Santos, onde seguirá tratamento".
Crise na saúde
Além da demora no aguardo por leito no PSM do Guamá, situações semelhantes à de Paulo foram registradas no Hospital Municipal Geral de Mosqueiro, distrito de Belém. Além disso, o Hospital Pronto-Socorro Mário Pinotti, da travessa 14 de Março, piorou o atendimento aos pacientes com a precarização na contratação das equipes médicas. A denúncia feita por médicos e pela Associação de Servidores de Saúde do Município de Belém (Assesmub) lista vários problemas após a contratação de uma empresa terceirizada em setembro deste ano por mais de R$ 66 milhões por ano.
Inclusive, o Sindicato dos Médicos do Pará (Sindmepa) informou que recebeu novas denúncias de médicos que trabalham no PSM da 14, sobre atraso no pagamento dos profissionais, falta de previsão para a regularização dos salários e condições inadequadas de descanso durante os plantões.
No Hospital Pio XII, no bairro da Campina, em Belém, foi emitido um alerta para o risco de comprometimento da continuidade da assistência pediátrica prestada pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A unidade, que atende exclusivamente crianças de Belém, informou que enfrenta dificuldades financeiras e contratuais que estariam prejudicando a manutenção dos atendimentos.
A falta de pagamentos da Prefeitura Municipal de Belém (PMB) pelos atendimentos feitos na unidade levou à redução do atendimento de crianças pela unidade hospitalar. Os atrasos, que pioraram em abril deste ano, geraram a diminuição de 70 para 20 leitos de internação. O Pio XII, que realizava mensalmente 1.200 atendimentos na urgência, reduziu para quase 400 atendimentos. Os valores devidos ao hospital já somam aproximadamente R$ 1,4 milhão.
